Família Batista, donos majoritários da maior produtora de carne do mundo, avança com estratégia discreta e pode aproveitar reabertura do setor energético venezuelano no pós-Maduro
A família Batista, controladora da J&F e acionista majoritária da JBS — considerada a maior processadora de carnes do mundo, está se movimentando de forma silenciosa para ampliar sua presença em um dos setores mais estratégicos da América Latina: o petróleo venezuelano. Segundo informações reunidas por uma agência internacional e publicadas pelo jornal O Globo, os irmãos Batista estariam posicionados nos bastidores para participar de projetos petrolíferos no país, em um momento em que a Venezuela vive uma reconfiguração política e econômica após a queda do governo de Nicolás Maduro.
O interesse se concentra especialmente em um projeto de grande escala — estimado em 1 bilhão de barris — que pode ganhar novo impulso com a reorganização do mercado energético venezuelano e com o novo cenário geopolítico envolvendo os Estados Unidos.
A movimentação, no entanto, ocorre em um contexto delicado: a Venezuela ainda carrega o peso de sanções internacionais, insegurança jurídica e fragilidade institucional. Mesmo assim, para grupos com experiência em operar em ambientes complexos, o momento pode representar uma rara janela de entrada em ativos que, historicamente, foram fechados a investidores privados.
Um movimento com potencial bilionário e impacto regional
O ponto central da apuração é que os Batista estariam conectados ao projeto Petrolera Roraima, um conjunto de campos de petróleo que no passado foi operado pela ConocoPhillips. De acordo com fontes citadas, um associado de negócios do grupo teria participação no empreendimento, com possibilidade de ampliação para novos investimentos quando o cenário estiver mais definido.
Além disso, a reportagem destaca que, antes mesmo da derrubada de Maduro no início do mês, um representante comercial ligado aos Batista teria obtido participação em áreas que estavam sob operação anterior da petroleira americana — sugerindo que parte desse plano já estava em andamento antes da transição política.
O movimento se encaixa em uma lógica comum de grandes grupos empresariais: entrar de forma gradual, com presença indireta ou por meio de aliados estratégicos, reduzindo exposição pública até que o ambiente se mostre mais estável.
Fluxus pode virar peça-chave na ofensiva da família Batista
Um dos elementos mais relevantes do caso envolve a Fluxus, empresa de petróleo pertencente aos Batista. Segundo pessoas familiarizadas com a estratégia do grupo, a Fluxus poderia se juntar ao projeto Petrolera Roraima ou a outras iniciativas no país, assim que houver maior clareza sobre o novo ambiente de negócios e garantias mínimas para investimentos.
Apesar disso, a própria J&F adotou cautela ao se pronunciar.
Em resposta formal a questionamentos, a holding afirmou que não possui ativos na Venezuela, e que acompanha os acontecimentos de perto. No mesmo posicionamento, indicou que uma eventual decisão dependerá de estabilidade política e segurança jurídica.
“Assim que se estabelecer um cenário de estabilidade institucional e segurança jurídica, estaremos prontos para avaliar investimentos”, disse a J&F em e-mail citado na publicação.
A declaração, embora negue presença formal, reforça que o grupo mantém o radar ligado — e não fecha portas para uma entrada futura.
Sanções, risco e pragmatismo: por que a Venezuela foi tratada com cautela
As fontes citadas apontam que os Batista vinham adotando postura cautelosa por conta das sanções impostas pelos Estados Unidos, principalmente porque o grupo tem forte exposição ao mercado americano.
Entre os ativos com presença relevante nos EUA está a Pilgrim’s Pride, gigante do setor de frango e parte do portfólio do conglomerado.
Esse fator sempre funcionou como um “freio de mão”: qualquer movimento precipitado na Venezuela poderia trazer riscos reputacionais e regulatórios fora do país sul-americano, afetando operações em mercados mais previsíveis e lucrativos.
Ao mesmo tempo, o texto destaca um ponto importante: mesmo com um discurso crítico sobre nacionalizações do passado, o governo Trump não sinalizou intenção clara de reverter as apreensões de ativos feitas pelo chavismo — o que pode abrir espaço para negociações pragmáticas com investidores interessados em reativar produção e infraestrutura.
Pós-Maduro: Joesley Batista ganha protagonismo e amplia influência
Outro trecho que chama atenção é o papel político e diplomático que Joesley Batista teria assumido após a queda de Maduro.
De acordo com a reportagem, Joesley emergiu como figura-chave na transição, chegando a viajar de Washington a Caracas para reunião com a presidente interina Delcy Rodríguez, na semana anterior à publicação.
A mensagem levada ao retorno da viagem teria sido positiva: segundo uma fonte, ele relatou a autoridades americanas que a liderança interina estaria aberta ao investimento estrangeiro, em especial em petróleo e gás natural.
Mais do que um simples interesse empresarial, isso mostra um reposicionamento estratégico: a família Batista tentaria se consolidar como interlocutora relevante em um país que, por décadas, foi o maior exportador de petróleo da América Latina.
Relações internacionais e capital político: conexões em diferentes governos
O texto também reforça um padrão da atuação do grupo: construir relações em diferentes ambientes políticos.
A Pilgrim’s Pride teria feito a maior doação individual ao comitê de posse de Trump em 2025, ampliando a proximidade institucional nos EUA.
No Brasil, a reportagem menciona que, no ano anterior, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria encarregado Joesley Batista de negociar com Trump um alívio tarifário — evidenciando que o empresário continua exercendo influência nos bastidores em pautas de alto impacto econômico.
Esse tipo de capital político, quando somado a capacidade financeira e logística, pode facilitar a entrada em mercados onde instituições ainda estão em reconstrução.
A base histórica na Venezuela: contrato bilionário com o governo Maduro
O vínculo com a Venezuela não seria novo.
A matéria recorda que a JBS firmou no passado um contrato de US$ 2,1 bilhões com o governo Maduro, para fornecimento de carne e frango em um período marcado por escassez de alimentos e hiperinflação no país.
Segundo o texto, o acordo teria sido viabilizado por Diosdado Cabello, descrito como um “linha-dura socialista”, que atualmente ocupa o cargo de ministro do Interior da Venezuela.
Esse histórico ajuda a explicar por que o grupo teria facilidade em entender o funcionamento local — e manter canais informais ativos mesmo em períodos de instabilidade.
Petrolera Roraima: concessão de 25 anos e números de produção
O projeto Petrolera Roraima aparece como o núcleo mais concreto da movimentação.
A reportagem informa que, em 2024, o Ministério do Petróleo da Venezuela concedeu direitos de exploração e produção por 25 anos no antigo projeto da ConocoPhillips à empresa A&B Investments, liderada por Jorge Silva Cardona — apontado como associado de negócios dos Batista.
Após a entrada da A&B, a produção diária teria subido e alcançado 32 mil barris por dia entre junho e outubro, mas depois caiu significativamente quando o governo Trump começou a bloquear exportações venezuelanas.
O projeto, segundo o relato, já foi uma referência de engenharia no início dos anos 2000: refinarias conhecidas como “upgraders” eram capazes de converter petróleo pesado em cerca de 90 mil barris diários de um petróleo mais leve e valioso, chamado de “sintético”.
Atualmente, a estrutura societária indicada no material aponta que:
- PDVSA (estatal venezuelana) possui 51% (participação majoritária)
- A&B Investments detém 49%
Esse desenho pode ser decisivo porque mantém a presença do Estado venezuelano, mas cria uma brecha relevante para parceiros privados — desde que haja sinal verde político e jurídico.
Expansão além do petróleo: mineração e infraestrutura elétrica entram no radar
Além dos campos petrolíferos, as fontes mencionam que os Batista também estariam observando outras frentes estratégicas na Venezuela do pós-Maduro, como:
- mineração
- infraestrutura elétrica
Essas áreas são sensíveis porque envolvem ativos críticos para retomada econômica do país e demandam investimentos altos, com forte dependência de estabilidade institucional e garantias contratuais.
O que está em jogo: petróleo, geopolítica e poder econômico
A movimentação da família Batista mostra que, mesmo sendo um grupo tradicionalmente associado à proteína animal, a estratégia atual pode estar mirando algo ainda maior: posicionar-se como investidor relevante no recomeço do setor energético venezuelano.
Em um mercado onde empresas americanas e europeias ainda aguardam garantias mais robustas de segurança e retorno, entrar antes pode significar acesso a ativos valorizados com desconto — mas também expõe o investidor a riscos elevados.
Por isso, o caso ganha força não apenas pelo tamanho do projeto, mas pelo que ele representa: a aproximação entre o agronegócio global, a energia e a reconstrução de mercados estratégicos na América Latina.
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