Setor leiteiro cobra medidas antidumping e políticas coordenadas para conter pressão das importações de leite em pó sobre preços e garantir concorrência justa aos produtores brasileiros
O início de 2026 encontra a cadeia do leite em um ponto de tensão. O aumento consistente das importações de leite em pó, sobretudo da Argentina e do Uruguai, segue pressionando os preços pagos ao produtor no Brasil, mesmo após iniciativas adotadas por estados relevantes na produção nacional. Diante desse cenário, entidades representativas do setor intensificam a articulação por uma resposta nacional, capaz de dar previsibilidade ao mercado e reduzir o desequilíbrio competitivo que se aprofundou nos últimos anos.
Nos últimos cinco anos, o Brasil importou quase 750 mil toneladas de leite em pó, segundo dados do sistema Agrostat, do Ministério da Agricultura e Peccuária (Mapa). Apesar do crescimento da captação interna — alta de 7,9% em 2025 — o volume importado permaneceu elevado, ampliando a oferta além da capacidade de absorção do mercado e pressionando a renda do produtor.
Ações estaduais não foram suficientes
Até agora, a reação mais imediata partiu de estados produtores. Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul adotaram medidas tributárias e regulatórias para tentar conter os efeitos das importações. Em Santa Catarina, por exemplo, foi aprovado projeto de lei que proíbe a reconstituição do leite em pó importado no território estadual, numa tentativa de proteger o produtor local.
Em Minas Gerais, após o movimento “Minas Grita pelo Leite”, que reuniu mais de sete mil produtores em 2024, o governo estadual suspendeu o diferimento do ICMS sobre o leite em pó importado. A iniciativa foi seguida por outros estados, como Goiás, Mato Grosso, Alagoas e Pernambuco. Ainda assim, o setor avalia que as ações isoladas não resolveram o problema estrutural do mercado .
Importações de leite em pó: Concorrência desigual e pressão sobre a renda
Durante debates promovidos pelo Sistema Faemg Senar, produtores, cooperativas, sindicatos e lideranças políticas foram unânimes ao apontar a concorrência em condições desiguais. O leite importado chega ao país a preços significativamente mais baixos, enquanto o produtor brasileiro enfrenta custos elevados e rigorosas exigências ambientais, sanitárias e trabalhistas.
Segundo o presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio de Salvo, o problema não é competir, mas competir em igualdade de condições. A manutenção desse cenário, alerta, ameaça a sustentabilidade da atividade e a permanência do produtor no campo, especialmente dos médios e pequenos .
Investigação antidumping no centro da estratégia
A principal aposta do setor está no avanço da investigação antidumping contra o leite em pó importado da Argentina e do Uruguai. O pedido foi protocolado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em 2024 e aceito pelo governo federal com base em indícios técnicos.
Em agosto de 2025, a investigação quase foi interrompida após entendimento de que não haveria similaridade entre o produto importado e o nacional. Após forte articulação das federações estaduais, essa posição foi revertida, permitindo a continuidade do processo e abrindo espaço para a adoção de medidas antidumping provisórias — consideradas essenciais para dar alívio imediato ao mercado .
Importações dispararam desde 2023
Dados apresentados pelas entidades mostram que a crise se intensificou a partir de 2023, quando o Brasil importou 199,2 mil toneladas de leite em pó, o maior volume da série histórica iniciada em 1997. Desde então, a participação dos produtos importados na captação nacional saltou de patamares entre 2% e 4% para níveis de 8% a 10%, reduzindo significativamente a competitividade do leite brasileiro.
A balança comercial de lácteos evidencia que o Brasil é, historicamente, um importador líquido desses produtos. Entre o fim dos anos 1990 e os anos 2000, déficits expressivos levaram à aplicação de direitos antidumping contra produtos da União Europeia e da Nova Zelândia — medidas que, à época, contribuíram para equilibrar o mercado interno.
Nos últimos anos, no entanto, observa-se novo crescimento das importações e ampliação do déficit, especialmente a partir de 2022. Para as entidades do setor, o histórico mostra que instrumentos de defesa comercial funcionam quando bem aplicados e não significam fechamento de mercado, mas sim garantia de concorrência justa.
Setor cobra resposta coordenada
A avaliação predominante é de que apenas uma política nacional, combinando defesa comercial, ajustes tributários e regras claras para importações, será capaz de conter a pressão sobre o produtor e devolver previsibilidade à cadeia do leite. Enquanto isso não ocorre, a atividade segue pressionada, com margens apertadas e crescente preocupação com a viabilidade econômica da produção no campo.
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