Estudo da Universidade Estadual de Campinas e do Instituto Agronômico revela que o porta-enxerto tem influência direta na produtividade da borracha natural — e escolha errada só é percebida após mais de dez anos de cultivo
Apesar do advento da borracha sintética, que encerrou definitivamente o ciclo de opulência que teve seu auge na Amazônia brasileira na virada do século 19 para o 20, a borracha natural continua insubstituível para vários usos, como a confecção de pneus para aeronaves e de equipamentos médicos. A borracha natural distingue-se por combinar, de maneira única, flexibilidade e robustez, oferecendo aos objetos produzidos alta elasticidade e poder de recuperação da forma original e resistência à fadiga, ao aquecimento, ao rasgamento e à abrasão. Além disso, possui a virtude de ser uma matéria-prima de origem renovável e de as plantações poderem ajudar na captura de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.
No entanto, o Brasil perdeu a primazia na produção de borracha natural, hoje liderada por Tailândia (35%), Indonésia (25%) e Vietnã (8-10%), seguidos por China (6-7%) e Índia (5-6%). Com menos de 2% da produção mundial, o Brasil não consegue abastecer o mercado interno e precisa importar a matéria-prima.
Um dado surpreendente para os não especialistas é que o epicentro da produção brasileira se deslocou da Amazônia para o Estado de São Paulo. Como a seringueira leva cerca de dez anos para entrar em sua fase produtiva plena, alguns fazendeiros sediados no território paulista, que se dedicam a outros cultivares como atividade principal, reservam uma parte da propriedade para o plantio da seringueira, como uma espécie de poupança para o futuro.
O grande problema é que, na hora de começar a colher o látex, muitos se surpreendem com a baixa produtividade das árvores, apesar de terem introduzido na fazenda os melhores clones disponíveis no mercado. A explicação foi dada agora, com o rigor do método científico, por um estudo conduzido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e no Instituto Agronômico (IAC) e publicado no periódico The Plant Genome.

A pesquisa mostrou que o porta-enxerto – isto é, a planta que sustenta o clone enxertado – desempenha papel decisivo na produtividade da seringueira, podendo determinar diferenças expressivas na produção de látex.
“Investigamos, pela primeira vez, os mecanismos moleculares envolvidos na interação entre o enxerto e o porta-enxerto em seringueiras [Hevea brasiliensis], principal fonte mundial de borracha natural. Nossos achados evidenciam que os porta-enxertos não são apenas suportes para fixação dos clones, mas sim agentes ativos na regulação da expressão gênica do material enxertado, com impacto direto na produtividade e adaptabilidade da cultura”, afirma o pesquisador Wanderson Lima Cunha, primeiro autor do artigo.
O estudo foi coordenado por Anete Pereira de Souza, professora titular do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp e orientadora do doutorado de Cunha, apoiado pela FAPESP. Dentre vários colaboradores, contou com a participação do professor Paulo Gonçalves, pesquisador sênior do IAC e considerado uma das maiores autoridades mundiais em borracha natural.
“Na prática agrícola, a seringueira é propagada por enxertia, na qual a gema de um clone selecionado [como o RRIM 600, um dos mais utilizados no Brasil] é inserida sobre um porta-enxerto constituído por uma seringueira obtida a partir de sementes. Embora os programas de melhoramento tenham historicamente focado apenas no clone, descobrimos, no estudo, que o porta-enxerto pode alterar profundamente o desempenho da planta. Quando se planta o melhor clone sobre o porta-enxerto errado, a produção pode cair para apenas 25% do que seria esperado com a combinação correta”, afirma Souza.
Os resultados confirmaram essa influência: a combinação do clone RRIM 600 com o porta-enxerto PB 235 apresentou a maior produtividade média: 76,03 g de borracha seca por árvore em cada operação de sangria. Ao passo que, com porta-enxertos de sementes não selecionadas, a produtividade caiu para 43,29 g.
Principais resultados
Para entender essa diferença tão marcante, os pesquisadores analisaram o transcriptoma – o conjunto de genes expressos – de árvores enxertadas em diferentes porta-enxertos. “Identificamos milhares de genes cuja expressão varia conforme a combinação enxerto-porta-enxerto, incluindo genes diretamente ligados à produção de látex”, informa Cunha.
Entre os achados mais relevantes, o estudo possibilitou a identificação de genes exclusivamente expressos (EEGs) e diferencialmente expressos (DEGs) associados a variações na produtividade; evidenciou a participação de vias metabólicas, como a do jasmonato (hormônio vegetal que atua principalmente na resposta a estresses e na regulação de processos metabólicos), na produção de látex; e apontou diferenças nas redes de coexpressão gênica, indicando maior ou menor sinergia entre genes envolvidos na biossíntese da borracha. Esses resultados mostram que o porta-enxerto não atua apenas como suporte físico, mas como um modulador ativo da fisiologia da planta.
Segundo os pesquisadores, o desconhecimento sobre a importância do porta-enxerto tem causado prejuízos significativos aos produtores. “Quando o agricultor vai comprar a muda, ele pede o clone, mas não pede o porta-enxerto. E ninguém o informa sobre isso. Como a seringueira demora anos para entrar em produção, o erro só é percebido tarde demais. O fazendeiro espera mais de uma década para descobrir que está produzindo muito menos do que poderia”, sublinha Souza.
Além do avanço científico, o estudo tem forte aplicação prática. Com base nos resultados, o IAC está preparando uma cartilha para orientar viveiristas e produtores sobre as melhores combinações entre clones e porta-enxertos. Os autores defendem também a criação de políticas que exijam a identificação do porta-enxerto na comercialização de mudas.
Os resultados apontam para uma mudança de paradigma na cultura da seringueira. Até agora, os programas de melhoramento focavam quase exclusivamente nos clones enxertados. O estudo mostra que isso é insuficiente. Ao incorporar o porta-enxerto como componente ativo, abre-se a possibilidade de aumentar a produtividade, melhorar a adaptação a estresses (como seca), reduzir doenças e tornar a cultura mais competitiva.
Com informações de José Tadeu Arantes da Agência FAPESP
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