EUA têm menor rebanho em 70 anos, surto de bicheira e colapso na indústria da carne

EUA encaram ameaça sanitária e crise produtiva ao mesmo tempo, levantando temores de ruptura no abastecimento de carne.

A pecuária bovina dos Estados Unidos enfrenta um dos momentos mais delicados de sua história recente. Uma combinação de fatores sanitários, econômicos e produtivos está pressionando toda a cadeia: o avanço da bicheira na América Central e México, o menor rebanho em 70 anos e o fechamento de uma das principais plantas da Tyson Foods. O resultado é um cenário que especialistas descrevem como uma tempestade perfeita, com risco real de ruptura no abastecimento de carne bovina no país.

O surto de bicheira (mosca-da-berne), parasita que deposita larvas carnívoras em feridas de animais, atingiu um novo estágio crítico em 2025. Mesmo sem registros dentro dos Estados Unidos, o avanço da praga pelo México e América Central preocupa autoridades e mantém a fronteira praticamente fechada para o gado mexicano desde maio.

No dia 4 de novembro, em entrevista exclusiva à Reuters, a secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, afirmou que o país não está pronto para reabrir a fronteira para o gado mexicano, apesar da pressão política interna e dos esforços do México para conter o avanço da praga.

Segundo Rollins, o presidente Donald Trump está “muito focado” na reabertura da fronteira, mas a situação ainda não permite um retorno seguro. Ela afirmou que “não chegamos ao ponto em que me sinto confortável para reabrir os portos”, destacando que é preciso “ter plena confiança de que reviramos cada pedra” antes de retomar o fluxo de animais.

Enquanto isso, o surto continua avançando para o norte a partir da América Central. O México intensificou as ações de contenção, mas o risco permanece alto para ambos os países. Se o parasita cruzar a fronteira, o impacto pode ser devastador: apenas no Texas, as perdas estimadas podem chegar a US$ 1,8 bilhão, segundo o USDA.

Com a fronteira praticamente fechada há meses, a entrada de gado mexicano – fundamental para abastecer confinamentos americanos – despencou, agravando a falta de animais em plena entressafra e elevando ainda mais os preços dentro dos Estados Unidos.

A ameaça sanitária chega no pior momento possível. A pecuária americana enfrenta o menor rebanho bovino dos últimos 70 anos, resultado direto de anos de seca severa, custos elevados de alimentação e abate acelerado de matrizes em 2022 e 2023.

Com as pastagens devastadas e o milho em alta, milhares de produtores foram obrigados a reduzir seus plantéis. O número de bezerros caiu, a oferta de animais para abate encolheu, e os frigoríficos passaram a operar com capacidade limitada.

A escassez de gado já provoca preços recordes para o consumidor e pressiona toda a indústria, que depende do ciclo produtivo — lento e caro — para ser retomado.

O impacto na indústria frigorífica é severo. Em novembro de 2025, a Tyson Foods, uma das maiores empresas de carne bovina do mundo, anunciou o fechamento da planta de Lexington, Nebraska, a partir de janeiro.

A unidade abatia cerca de 5 mil cabeças por dia e empregava 3 mil trabalhadores. A empresa justificou que o nível de escassez do rebanho tornou a operação economicamente inviável. Somente em 2025, a Tyson gastou quase US$ 2 bilhões a mais para comprar gado.

A divisão de carne bovina da empresa também registrou mais de US$ 425 milhões em prejuízo no último ano fiscal.

Com a planta fechada, a cadeia local sofre: menos competição pela compra de gado pode derrubar preços pagos ao produtor, ao mesmo tempo em que reduz a capacidade nacional de processamento.

Com fronteira fechada, oferta interna limitada e importações pressionadas, os preços da carne bovina atingiram patamares históricos em 2025. Cortes nobres ultrapassaram os US$ 11 por libra, e até a carne moída – base do consumo americano – subiu mais de 15% em alguns meses.

O impacto direto é sentido pelo consumidor, e a Casa Branca já descreve a situação como “emergência econômica”.

A combinação entre:

  • ameaça sanitária sem precedentes em décadas,
  • menor rebanho desde 1952,
  • fechamento de frigoríficos estratégicos,
  • importações travadas,
  • inflação na carne bovina,

forma um cenário de extrema vulnerabilidade.

Embora o ciclo pecuário seja historicamente oscilante, especialistas afirmam que a estrutura produtiva dos EUA está sob forte estresse, e qualquer falha – especialmente se a bicheira atravessar a fronteira – pode desencadear uma crise de abastecimento sem precedentes na maior economia do mundo.

A recomposição de rebanhos será lenta, e os próximos meses serão decisivos para determinar se os Estados Unidos conseguirão evitar um colapso mais profundo em sua cadeia da carne.

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