Famato alerta para risco de falta de sal mineral para bovinos, insumo essencial à nutrição bovina; alta dos preços e dependência de importações ampliam preocupação no campo.
A pecuária brasileira pode estar diante de mais um desafio estratégico em um momento já marcado pela pressão dos custos de produção. A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) emitiu um alerta sobre o risco de desabastecimento de fosfato bicálcico no mercado nacional, matéria-prima indispensável para a fabricação de suplementos minerais utilizados na alimentação bovina. Segundo a entidade, a situação pode comprometer a oferta de sal mineral nos próximos dias e gerar impactos diretos na produtividade dos rebanhos de corte e leite.
O aviso acende um sinal de atenção especialmente para Mato Grosso, estado que lidera o ranking nacional de bovinos e concentra um dos maiores polos de produção de carne do mundo. Em uma atividade onde desempenho produtivo, ganho de peso, fertilidade e sanidade dependem diretamente da suplementação adequada, qualquer ruptura na cadeia de fornecimento pode gerar reflexos econômicos significativos dentro e fora das fazendas.
Por que o sal mineral é tão importante para a pecuária?
Embora muitas vezes seja tratado apenas como um item rotineiro da fazenda, o sal mineral é um dos pilares da nutrição bovina no Brasil tropical. Grande parte das pastagens brasileiras apresenta deficiência natural de minerais essenciais, principalmente fósforo, cálcio, zinco, cobre e enxofre.
O fosfato bicálcico é justamente uma das principais fontes desses nutrientes nos suplementos fornecidos diariamente aos animais.
A deficiência mineral pode provocar:
- Redução do ganho de peso;
- Queda na taxa de prenhez;
- Menor desenvolvimento dos bezerros;
- Perda de eficiência alimentar;
- Redução da produção de leite;
- Maior vulnerabilidade a doenças.
Por isso, especialistas costumam afirmar que a suplementação mineral não é um custo opcional, mas um investimento diretamente ligado à produtividade do rebanho.
O que está provocando o risco de escassez?
Segundo a Famato, o problema é resultado de uma combinação de fatores que vêm pressionando o mercado global de insumos minerais. Entre eles estão a insuficiência da produção nacional, a forte dependência das importações, restrições de oferta em mercados internacionais e os efeitos de conflitos geopolíticos sobre cadeias produtivas e logísticas.
Outro fator que preocupa o setor é o movimento de alguns países fornecedores de priorizar seus mercados internos para garantir insumos estratégicos destinados à produção de alimentos, reduzindo a disponibilidade para exportação.
Na prática, o cenário reforça uma fragilidade que o agronegócio brasileiro já conhece bem: a elevada dependência externa para insumos considerados essenciais tanto para a agricultura quanto para a pecuária.
Alta dos preços já chegou ao campo
Além do risco de falta do produto, produtores já convivem com aumentos expressivos nos preços dos suplementos minerais e dos concentrados utilizados na engorda dos animais. A expectativa do mercado é de que novos reajustes ocorram caso o abastecimento continue comprometido.
A situação é particularmente sensível em um período em que muitos pecuaristas enfrentam margens mais apertadas, especialmente aqueles que trabalham com sistemas intensivos ou semi-intensivos de produção.
O impacto pode ser ainda maior para produtores que dependem de suplementação estratégica durante a seca ou para propriedades leiteiras, onde a nutrição adequada influencia diretamente os índices produtivos e reprodutivos dos animais.
Mato Grosso no centro das preocupações com a possível falta de sal mineral
O alerta ganha relevância ainda maior quando se observa a dimensão da pecuária mato-grossense. O estado abriga o maior rebanho bovino do Brasil e desempenha papel fundamental nas exportações brasileiras de carne bovina.
Para o presidente da Famato, Vilmondes Tomain, a situação exige atenção imediata.
“Estamos diante de um alerta importante para a pecuária e para a agricultura. O sal mineral é indispensável para o desempenho produtivo, reprodutivo e sanitário do rebanho. Quando esses produtos ficam caros ou, pior, começam a faltar, o impacto chega diretamente ao produtor rural e pode chegar às prateleiras dos supermercados”, afirmou em nota.
Já o vice-presidente da entidade e coordenador da Comissão de Pecuária de Corte, Amarildo Merotti, destaca que o problema ocorre em um momento de múltiplas pressões sobre o produtor.
“O pecuarista está sendo pressionado pela alta dos insumos, pelo risco de falta de produto, pela preocupação com vacinas contra clostridioses e pela queda nos preços pagos pela indústria. Essa combinação preocupa muito”, ressaltou.
Dependência externa volta ao debate
Famato alerta para risco de falta de sal mineral para bovinos e, segundo levantamento do Compre Rural, o episódio também reacende uma discussão antiga dentro do agronegócio brasileiro: a necessidade de ampliar a produção nacional de matérias-primas minerais e fertilizantes.
Nos últimos anos, o Brasil avançou em diversas cadeias produtivas agrícolas, mas continua altamente dependente de fornecedores externos para insumos estratégicos. Essa vulnerabilidade ficou evidente durante a pandemia, voltou ao centro das atenções com a guerra entre Rússia e Ucrânia e agora reaparece no segmento da nutrição animal.
A Famato defende medidas emergenciais, como redução temporária das tarifas de importação do fosfato bicálcico e do enxofre, diminuição da carga tributária sobre sal branco e ureia destinados à nutrição animal, além da agilização dos processos alfandegários e da aproximação comercial com países fornecedores, como a Bolívia.
O que pode acontecer se a escassez se confirmar?
Caso o abastecimento seja efetivamente comprometido, os reflexos podem atingir diferentes elos da cadeia pecuária.
Entre os principais impactos esperados estão:
- Aumento dos custos de produção;
- Redução da eficiência dos sistemas pecuários;
- Menor ganho de peso dos animais;
- Pressão sobre a rentabilidade dos produtores;
- Possíveis reflexos nos preços da carne e do leite ao consumidor.
Embora ainda não haja confirmação de desabastecimento generalizado, o alerta da Famato mostra que o setor acompanha o cenário com preocupação crescente.
Mais do que um problema pontual
Para além da possível falta de sal mineral, o episódio evidencia um desafio estrutural para o agronegócio brasileiro: garantir segurança no fornecimento de insumos estratégicos.
A avaliação da entidade é que a implementação efetiva do Plano Nacional de Fertilizantes 2022-2050 será fundamental para reduzir a dependência externa e ampliar a competitividade do setor. O programa prevê estímulos à produção nacional, atração de investimentos, desenvolvimento mineral e fortalecimento da infraestrutura logística.
Em um país que possui o maior rebanho comercial do mundo e ocupa posição de liderança nas exportações globais de carne bovina, assegurar o acesso a insumos básicos como suplementos minerais deixou de ser apenas uma questão operacional. Tornou-se um tema estratégico para a segurança alimentar, a competitividade do agro brasileiro e a sustentabilidade econômica da pecuária nacional.
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