Projeto para fazenda histórica que recebeu Dom Pedro I prevê 60 quartos, diária de cerca de R$ 1,6 mil e concessão de 45 anos; moradores apontam risco de turismo em massa, impactos ambientais e “apagamento” do passado escravocrata
A Fazenda Pau D’Alho – fazenda histórica que recebeu Dom Pedro I, localizada em São José do Barreiro, no interior de São Paulo, voltou ao centro do debate público após entrar no radar do governo federal para um possível novo destino: virar um hotel de luxo, por meio de um projeto de concessão. A proposta inclui 60 quartos, com diária estimada em aproximadamente R$ 1,6 mil, e integra uma estratégia de estimular o turismo histórico na região.
O tema, porém, divide opiniões. Se por um lado há a promessa de restauração, geração de renda e requalificação turística, por outro moradores, lideranças locais e defensores do patrimônio questionam a escala do empreendimento, sua viabilidade em uma cidade pequena e os possíveis impactos sociais, ambientais e culturais associados ao projeto.
Fazenda histórica que recebeu Dom Pedro I: Um patrimônio protegido desde 1968
A Fazenda Pau D’Alho é considerada um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes ligados ao ciclo do café em São Paulo. O local é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1968, o que impõe restrições a mudanças estruturais e intervenções que possam comprometer seu valor histórico.
Segundo as informações do projeto, a construção do hotel ocorreria fora da área tombada, enquanto a parte histórica seguiria protegida, com regras específicas para conservação e uso. Ainda assim, a proposta prevê um empreendimento de grande porte, com área construída de cerca de 8.300 metros quadrados, somando estruturas já existentes e novas edificações.
O que está sendo proposto: hotel, valores e estrutura
O plano em análise prevê a criação de um hotel com padrão elevado, com potencial de atrair um público de maior poder aquisitivo para o chamado “Vale Histórico” paulista.
Entre os principais pontos do modelo apresentado:
- 60 quartos
- Diária média estimada em R$ 1.638,63
- Taxa de ocupação esperada: 64%
- Concessão prevista: 45 anos
- Investimento total estimado: R$ 63,1 milhões
- R$ 10,9 milhões destinados à restauração das edificações históricas
- Receita anual projetada no 10º ano: R$ 34,5 milhões
- Sendo R$ 28,5 milhões apenas do hotel
O projeto também prevê ganhos extras com aluguel de espaços comerciais e oferta de serviços aos visitantes, reforçando o perfil de empreendimento voltado ao turismo estruturado e permanente.
Consulta pública até 6 de fevereiro
Um dos pontos que ampliaram a repercussão do caso é que o projeto está em fase de consulta pública até o dia 6 de fevereiro, período em que moradores e interessados podem apresentar críticas, sugestões e posicionamentos antes da decisão final sobre a abertura da licitação.
O texto destaca que o prazo foi prorrogado pelo Ministério do Turismo no fim de dezembro, indicando que a proposta ainda passa por avaliação e ajustes antes de qualquer formalização.
Fazenda foi construída em 1818 e recebeu Dom Pedro I em 1822
A importância histórica da fazenda histórica que recebeu Dom Pedro I, Fazenda Pau D’Alho, vai além da arquitetura. A fazenda foi erguida em 1818 para produção cafeeira e ganhou protagonismo simbólico ao receber Dom Pedro I em 17 de agosto de 1822, durante a viagem para São Paulo — poucos dias antes da Proclamação da Independência do Brasil, em 7 de setembro.
Esse registro transforma a fazenda em um ponto relevante da narrativa histórica nacional, conectando o local a um dos momentos mais marcantes do país.
Resistência local: cidade pequena, projeto grande
As críticas mais fortes vêm de moradores e representantes ligados à preservação do patrimônio. Um dos principais questionamentos é a compatibilidade do projeto com a realidade de São José do Barreiro, município com apenas 3.853 habitantes, segundo os dados mencionados.
Para o advogado Junior Meireles, presidente do Instituto Pau D’Alho (entidade voltada à preservação do patrimônio), a proposta não dialoga com a capacidade real da região de absorver um turismo em larga escala.
Ele afirma que os estudos projetam números que seriam incompatíveis com a infraestrutura existente:
“A gente tem na região inteira do Vale Histórico um fluxo de 45 mil pessoas. Eles estão propondo dentro do estudo de viabilidade que só a fazenda vai receber 45 mil hóspedes.”
Na visão do dirigente, o volume de visitantes pode gerar pressão sobre serviços essenciais e estruturas urbanas básicas:
- rede de água
- estrutura hospitalar
- infraestrutura social
- capacidade viária e logística
Risco ambiental: Mata Atlântica, cursos d’água e desgaste do patrimônio
Outro ponto levantado por críticos é o possível impacto ambiental e a ameaça ao próprio patrimônio tombado, considerando que a fazenda está inserida em uma área de sensibilidade ecológica.
Segundo Meireles, o projeto envolve intervenções em partes tombadas, inclusive em acessos históricos:
- área em Mata Atlântica
- proximidade com cursos d’água
- previsão de cinco intervenções no prédio tombado
- existência de calçamento do século 18, que poderia sofrer deterioração com maior circulação
O argumento central é que um fluxo pesado e contínuo de hóspedes pode acelerar desgastes físicos e até comprometer elementos que hoje são parte do valor arquitetônico e histórico do conjunto.
Passado escravocrata e o debate sobre “apagamento” da memória
Um dos aspectos mais sensíveis da discussão envolve o fato de a Fazenda Pau D’Alho estar ligada ao ciclo cafeeiro — um período que, em grande parte do Brasil, foi sustentado pela mão de obra escravizada.
Críticos alertam que transformar o local em um hotel de luxo pode gerar uma espécie de “embranquecimento” simbólico do espaço, priorizando consumo e glamour em detrimento da memória.
Meireles classifica o projeto como um “apagamento” da história, dizendo que o luxo não combina com o peso histórico do lugar:
“Criar uma falsa imaginação de luxo em um lugar que foi de trabalho.”
A preocupação, nesse contexto, não é apenas arquitetônica, mas também moral, social e educacional: o risco de o espaço perder sua função de reflexão histórica e se tornar apenas um produto turístico.
“Não é destino de turismo de massa”, dizem moradores
A artista Sônia Dietrich Paes Leme, moradora da cidade há mais de 30 anos, também critica o projeto e defende que o local seja voltado à educação cultural e ambiental.
Ela apresenta uma comparação direta para questionar a viabilidade econômica e turística:
- atualmente, o município teria um hotel com 18 unidades
- e esse hotel não chega a 40% de ocupação
Além disso, Sônia relata temor com mudanças que, segundo ela, descaracterizam o local, como:
- cobrança de ingresso para entrar na fazenda
- transformação do antigo terreiro de café em estacionamento
- estrutura que exigiria ônibus e turismo em larga escala, algo que a região não comportaria
Ela também aponta um risco comum em projetos grandes: a possibilidade de abandono futuro.
“Temos medo de que, em 20 ou 40 anos, sobre apenas um esqueleto de obra.”
Programa Revive e o papel do BNDES
O projeto da Fazenda Pau D’Alho faz parte do Programa Revive, iniciativa inspirada em modelos internacionais que tentam revitalizar imóveis históricos com participação do setor privado.
De acordo com o material, o contrato prevê que:
- áreas culturais permaneçam abertas ao público
- ao fim da concessão, o hotel seria incorporado ao patrimônio público
O BNDES atua como assessor técnico na estruturação do projeto, participando das projeções e do modelo de viabilidade econômica.
Também há menção de que o contrato teria restrições rigorosas sobre intervenções nas áreas tombadas, além de proibir ações que ameacem o valor arquitetônico do conjunto.
Apesar da pressão local e do volume de questionamentos, o texto aponta que Ministério do Turismo e Iphan ainda não ofereceram esclarecimentos sobre as preocupações levantadas por moradores e especialistas.
Essa ausência de respostas, para a população, aumenta a insegurança sobre:
- impactos reais do empreendimento
- salvaguardas ambientais
- preservação do patrimônio
- acesso público e uso cultural do espaço no longo prazo
Entre turismo e preservação: o desafio de decidir o futuro da fazenda histórica que recebeu Dom Pedro I
O debate em torno da Fazenda Pau D’Alho expõe uma tensão que se repete no Brasil: como revitalizar patrimônios históricos com sustentabilidade financeira, sem transformar memória em mercadoria e sem impor riscos ao território?
O projeto promete investimentos relevantes e um modelo de concessão com regras de preservação. Ao mesmo tempo, a resistência local destaca que tamanho, fluxo turístico e formato de exploração podem conflitar com a realidade de uma cidade pequena e com um patrimônio marcado por episódios decisivos — e dolorosos — da história do país.
A consulta pública segue aberta e deve ser um dos principais termômetros para medir se a Fazenda Pau D’Alho caminhará para um novo ciclo econômico ligado ao turismo ou se permanecerá com foco em preservação e educação histórica, como defendem os críticos.
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