Após 70 anos na agricultura e cinco décadas na mesma propriedade, fazendeiro de 86 anos recusa US$ 15 milhões e opta por acordo de US$ 1,9 milhão para garantir preservação rural permanente das terras agrícolas nos EUA; você faria igual?
Em meio à expansão acelerada de projetos ligados à inteligência artificial nos Estados Unidos, um homem colocou sua trajetória de vida acima de uma proposta milionária: Fazendeiro de 86 anos recusa US$ 15 milhões de centro de dados de IA. Dono de duas propriedades rurais no estado da Pensilvânia, ele recusou uma feita por desenvolvedores interessados em transformar suas terras em um complexo de data center — estrutura essencial para armazenar e processar dados de IA.
O caso, que ganhou repercussão internacional, envolve Mervin Raudabaugh, agricultor com cerca de 70 anos de atuação no campo, sendo aproximadamente 50 deles dedicados à mesma área localizada em Silver Spring Township, no condado de Cumberland. Ao todo, são 105 hectares (cerca de 261 acres) cultivados ao longo de décadas.
Proposta milionária e pressão por expansão tecnológica
Segundo informações publicadas originalmente e confirmadas no documento analisado , desenvolvedores vinham tentando adquirir as terras para instalação de um data center — empreendimento avaliado em mais de US$ 15 milhões.
A proposta representava uma mudança patrimonial significativa. O valor oferecido equivalia a cerca de US$ 60 mil por acre, cifra considerada altamente atrativa para propriedades rurais da região. Projetos desse tipo exigem grandes extensões contínuas de terra para construção de galpões, sistemas elétricos robustos, infraestrutura de resfriamento e conexão com redes de transmissão de energia.
Com o crescimento da demanda por processamento de dados impulsionado pela inteligência artificial, empresas de tecnologia têm direcionado investimentos para áreas rurais, consideradas ideais pela disponibilidade de espaço e menor adensamento populacional.
No entanto, apesar do montante expressivo, o fazendeiro decidiu não vender.
Fazendeiro de 86 anos recusa US$ 15 milhões de centro de dados de IA: “Não era apenas sobre dinheiro”
De acordo com os relatos, a decisão não foi centrada exclusivamente na questão financeira. O agricultor afirmou que não queria ver suas fazendas transformadas em infraestrutura tecnológica e que o objetivo principal era garantir a preservação agrícola permanente da área.
Ele argumentou que, uma vez convertidas, dificilmente as terras retornariam ao uso rural. Na avaliação do produtor, áreas não protegidas formalmente tendem, ao longo do tempo, a ser ocupadas por construções.
A postura gerou repercussão na comunidade local, que acompanhou as investidas feitas pelos desenvolvedores ao longo de meses. O caso passou a simbolizar o conflito entre expansão tecnológica e preservação do uso tradicional do solo.
A alternativa escolhida: US$ 1,9 milhão e proteção definitiva
Em dezembro de 2025, o fazendeiro formalizou um acordo com o Lancaster Farmland Trust, organização sem fins lucrativos dedicada à preservação de terras agrícolas no condado de Cumberland.
Pelo contrato, ele recebeu aproximadamente US$ 1,9 milhão — valor correspondente à venda dos direitos de desenvolvimento da propriedade. Isso significa que:
- A terra continua sendo de uso agrícola;
- Pode ser vendida no futuro, mas apenas para atividades rurais;
- Fica permanentemente impedida de receber construções industriais, como data centers.
O montante recebido representa uma fração da proposta original de US$ 15 milhões. Ainda assim, o produtor considerou que a compensação financeira aliada à proteção jurídica definitiva atendia ao que ele desejava: preservar o caráter rural da propriedade.
Segundo representantes do Lancaster Farmland Trust, muitas famílias agrícolas buscam exatamente esse tipo de instrumento legal para assegurar que suas terras permaneçam produtivas e protegidas de pressões imobiliárias ou industriais.
Um dilema crescente no campo americano
O episódio evidencia um movimento maior nos Estados Unidos: a expansão de data centers para áreas rurais, impulsionada pelo avanço da inteligência artificial e da computação em nuvem.
Esses empreendimentos exigem:
- Grandes áreas contínuas;
- Acesso robusto à energia elétrica;
- Infraestrutura logística;
- Sistemas intensivos de refrigeração.
Com isso, propriedades agrícolas passaram a ser alvo de investidores. Agricultores se veem diante de decisões complexas: aceitar ofertas milionárias ou manter a vocação produtiva da terra.
Especialistas apontam que casos semelhantes têm ocorrido em diferentes estados, colocando produtores no centro de um debate que envolve desenvolvimento econômico, segurança alimentar, paisagem rural e identidade comunitária.
A escolha que virou símbolo
Ao abrir mão de mais de US$ 13 milhões de diferença entre a proposta inicial e o valor efetivamente recebido, o fazendeiro transformou sua decisão em um símbolo de resistência à pressão econômica.
Ele declarou que a propriedade representa sua vida e que preservar a terra foi prioridade absoluta. A servidão de preservação registrada garante que, independentemente de futuros proprietários, os 105 hectares permanecerão destinados à agricultura.
O caso passou a ser citado como exemplo de preservação voluntária diante de forte estímulo financeiro e reacendeu discussões sobre o futuro das áreas rurais frente ao avanço da economia digital.
A história demonstra que, mesmo diante da valorização explosiva provocada pela inteligência artificial, ainda há produtores dispostos a colocar tradição, identidade e continuidade produtiva acima de cifras multimilionárias.
Este artigo foi elaborado com base em informações publicadas por Fortune, People, Realtor.com, FOX43 News e Times of India.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.
