No Brasil, uma fila de quase 40 quilômetros de caminhões carregados de soja bloqueia o acesso ao porto de Miritituba, escancara os problemas de lama, buracos e trechos sem pavimentação na BR-163 e transforma a maior safra da história em um verdadeiro caos logístico.
O Brasil caminha para consolidar a maior safra de soja da história, estimada em quase 180 milhões de toneladas, mas o avanço no campo contrasta com um velho problema estrutural: a logística. No auge da colheita 2025/26, uma fila de quase 40 km de caminhões carregados de soja se formou no acesso aos terminais portuários de Miritituba, no Pará, travando o fluxo e pressionando fretes, contratos e margens.
A situação foi detalhada em reportagem publicada em 24 de fevereiro de 2026 e escancara o descompasso entre produção recorde e infraestrutura ainda insuficiente para absorver picos de volume.
Miritituba: o gargalo que virou símbolo do problema e tem fila de quase 40 km de caminhões carregados de soja
Miritituba é hoje uma das engrenagens centrais do chamado “Arco Norte”, corredor logístico que ganhou protagonismo nos últimos anos por reduzir distâncias até os mercados internacionais, especialmente a Ásia e a Europa.
A região movimenta cerca de 12 milhões de toneladas por ano, funcionando como porta de saída estratégica para soja e milho do Centro-Oeste. No entanto, quando a demanda se concentra em uma janela curta, como ocorre nesta temporada, o sistema entra em colapso.
Com a formação da fila de quase 40 km de caminhões carregados de soja:
- Caminhões aguardam horas — em alguns casos, dias — para descarregar.
- O custo do frete sobe devido ao tempo parado.
- Contratos de entrega ficam sob pressão.
- O risco de perda de qualidade do grão aumenta.
O problema é agravado pelo trecho final da BR-163, que ainda enfrenta pontos críticos de pavimentação e manutenção. Em períodos de chuva, lama e buracos reduzem drasticamente a fluidez do tráfego, transformando o acesso ao porto em um verdadeiro funil.
Colheita avança, mas ainda está atrasada
Apesar da aceleração recente, os números mostram que o calendário da safra 2025/26 segue irregular.
Dados da consultoria AgRural indicam que a colheita alcançou 30% da área cultivada, acima dos 21% da semana anterior, mas ainda abaixo dos 39% registrados no mesmo período do ano passado.
Esse atraso é resultado de uma combinação de fatores:
- Plantio tardio em diversas regiões
- Ciclos mais longos das lavouras
- Chuvas persistentes durante a colheita
Na prática, isso significa que grandes volumes estão sendo liberados quase ao mesmo tempo, comprimindo a janela logística e concentrando caminhões nas estradas e nos terminais.
Especialistas do setor apontam que, quando produção, transporte rodoviário e capacidade portuária não evoluem no mesmo ritmo, o resultado aparece em filas quilométricas e aumento do chamado “custo Brasil”.
Santarém: terminal interrompido amplia tensão
Como se o gargalo rodoviário não fosse suficiente, outro fator elevou a preocupação no Norte do país.
Um grupo de manifestantes indígenas ocupou o terminal fluvial da Cargill em Santarém (PA), interrompendo temporariamente as operações. Segundo informações do setor portuário, mais de 5,5 milhões de toneladas de soja e milho passaram por essa unidade no último ano, representando mais de 70% dos grãos movimentados ali.
A empresa informou que houve evacuação da equipe e que mantém diálogo com autoridades para garantir uma desocupação segura. Também foram relatados indícios de danos a ativos da instalação.
O protesto está ligado a debates sobre planos de dragagem no rio Tapajós, considerados estratégicos para ampliar a navegabilidade e garantir escoamento durante períodos de estiagem. Comunidades indígenas argumentam que intervenções mais profundas podem afetar qualidade da água, pesca e modos de vida tradicionais.
Já representantes do setor defendem que a dragagem é prática comum para assegurar competitividade logística e evitar justamente gargalos como os que agora se repetem.
BR-153: Safra recorde, custo recorde?
O paradoxo é evidente: enquanto o Brasil reforça sua posição como maior exportador global de soja, enfrenta entraves internos que reduzem eficiência e elevam custos. O Arco Norte cresceu de forma acelerada na última década, ampliando sua participação nas exportações nacionais. Em alguns meses do ano, essa rota já responde por mais de 35% dos embarques de grãos do país. Porém, a infraestrutura ainda trabalha no limite durante picos de safra.
Quando:
- Fila na estrada
- Terminal com operação interrompida
- Colheita concentrada em curto espaço de tempo
acontecem simultaneamente, o impacto é direto no bolso do produtor e na competitividade brasileira frente a concorrentes como Estados Unidos e Argentina.
Impacto no produtor e no mercado
Para o produtor rural, especialmente no Mato Grosso e no Pará, os reflexos são imediatos:
- Maior custo logístico por tonelada.
- Redução da margem líquida.
- Pressão para negociar fretes em valores mais altos.
- Risco de atrasos contratuais.
No mercado internacional, atrasos no embarque podem afetar prêmios nos portos e gerar volatilidade adicional nos contratos futuros negociados em Chicago.
Além disso, o cenário reacende discussões estruturais:
- Necessidade de ampliação de terminais no Norte.
- Investimentos contínuos na BR-163.
- Expansão da capacidade ferroviária.
- Integração multimodal mais eficiente.
O desafio estrutural do agro brasileiro
O episódio de Miritituba, com fila de quase 40 km de caminhões carregados de soja, não é isolado. Ele simboliza um dilema recorrente do agronegócio brasileiro: a produção cresce mais rápido do que a infraestrutura acompanha.
O país demonstra capacidade tecnológica, produtividade e escala para bater recordes sucessivos no campo. No entanto, sem avanços proporcionais em logística, parte dessa vantagem competitiva é corroída no momento mais sensível da cadeia — o escoamento.
Com a safra 2025/26 avançando e volumes ainda maiores a caminho dos portos nas próximas semanas, o risco é que o congestionamento atual seja apenas o início de uma nova rodada de pressão sobre o sistema.
Se nada for ajustado, a maior safra da história pode também se tornar um marco de alerta: não basta produzir mais; é preciso escoar melhor.
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