Fim da cavalgada livre? Região gaúcha exige curso obrigatório para cavaleiros

A exigência aprovada pela 12ª Região Tradicionalista obriga certificação com validade de dois anos e já provoca reação de cavaleiros experientes.

A participação em cavalgadas oficiais na Região Metropolitana de Porto Alegre passará a ter novas regras. Cavaleiros dos municípios de Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo e Nova Santa Rita, todos integrantes da 12ª Região Tradicionalista, agora precisarão cumprir uma exigência inédita: realizar um curso obrigatório para poder integrar eventos sob supervisão regional.

A medida foi aprovada no último domingo (22), durante o Congresso Regional (Congregare) promovido no CTG Independência Gaúcha, em Esteio. A deliberação altera de forma significativa a dinâmica das cavalgadas tradicionais, práticas profundamente enraizadas na cultura gaúcha e associadas à preservação da identidade campeira.

A partir da decisão, cavaleiros interessados em participar de eventos organizados sob responsabilidade do Departamento de Cavalgadas da 12ª Região deverão concluir o Curso de Formação de Cavaleiros (CFC).

Segundo o texto aprovado, o curso terá validade de dois anos, com emissão de certificado e registro formal junto à secretaria regional. A apresentação do documento será condição obrigatória para integrar atividades específicas.

O regulamento prevê que cavaleiros sem comprovação de conclusão do curso poderão ter a participação, permanência ou presença rejeitada em eventos oficiais vinculados ao departamento regional.

A proposta foi elaborada pelo próprio Departamento de Cavalgadas Regional e estabelece uma formação estruturada em módulos, com conteúdos que vão além da prática campeira.

O Curso de Formação de Cavaleiros será dividido em etapas teóricas e práticas. Entre os temas previstos estão:

  • Valor histórico e cultural das cavalgadas
  • Postura adequada em eventos tradicionalistas
  • Identidade regional e missão de representação
  • Atualização sobre diretrizes e regimentos da ORCAV e ORCARE
  • Esclarecimentos sobre punições e sanções em caso de descumprimento de normas

Além da parte normativa, o curso também incluirá:

  • Noções de primeiros socorros
  • Organização de acampamentos
  • Encillas e manejo de equipamentos
  • Técnicas de equitação
  • Condução adequada do animal
  • Práticas campeiras tradicionais

A programação contará ainda com palestras de convidados, rodas de conversa sobre experiências vividas em cavalgadas e atividades práticas, buscando integrar conhecimento técnico e memória cultural.

De acordo com os proponentes, o objetivo é padronizar condutas, reforçar a segurança dos eventos e fortalecer o sentido institucional das cavalgadas, preservando sua essência tradicionalista dentro de parâmetros organizacionais mais definidos.

A decisão, no entanto, provocou forte repercussão entre cavaleiros experientes da região. Um dos posicionamentos mais contundentes partiu de Solon Silva, ex-presidente da Ordem dos Cavaleiros do Rio Grande do Sul e participante de cavalgadas há 36 anos.

Para ele, a exigência de um curso obrigatório não contribui para manter viva a tradição e pode criar barreiras desnecessárias para quem já vive a cultura campeira no dia a dia.

Solon argumenta que a responsabilidade por uma cavalgada cabe ao diretor do evento, que deve organizar e orientar os participantes conforme as regras estabelecidas. Na sua avaliação, os tradicionalistas que participam das cavalgadas já possuem experiência suficiente sobre percursos, normas de deslocamento e comportamento adequado.

Outro ponto de contestação é a validade de dois anos do curso. Para o ex-presidente, a exigência periódica de certificação não condiz com a natureza espontânea e histórica das cavalgadas, que sempre foram transmitidas por vivência e aprendizado prático.

Em tom crítico, ele também aponta um possível distanciamento entre quem formula as normas e quem efetivamente percorre os trajetos a cavalo. Segundo ele, o excesso de exigências pode desestimular a participação e descaracterizar práticas herdadas de gerações anteriores.

A decisão da 12ª Região Tradicionalista coloca em evidência um debate recorrente no meio cultural gaúcho: até que ponto a formalização e regulamentação contribuem para preservar a tradição, e quando passam a interferir em sua essência?

De um lado, defensores da medida destacam a necessidade de organização, segurança e alinhamento institucional. De outro, críticos enxergam risco de burocratização e afastamento da prática vivida no campo.

O fato é que, a partir da aprovação no congresso regional, o Curso de Formação de Cavaleiros passa a ser realidade para os tradicionalistas de Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo e Nova Santa Rita que desejarem participar de cavalgadas oficiais sob supervisão regional.

A implementação prática da exigência e seus impactos na adesão aos eventos deverão ser observados nos próximos meses, em um cenário que mistura orgulho cultural, identidade regional e diferentes visões sobre a preservação da tradição gaúcha.

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