Fim da tilapicultura? Conabio adia decisão sobre classificação da tilápia como espécie invasora

Após forte mobilização da cadeia produtiva, Comissão Nacional de Biodiversidade suspende votação sobre possível classificação da tilápia como espécie invasora e cria grupo técnico para definir critérios científicos antes de qualquer decisão.

A possibilidade da classificação da tilápia como espécie invasora no Brasil gerou intensa preocupação entre produtores, indústrias e entidades ligadas à piscicultura. No entanto, após dois dias de discussões, a Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio) decidiu adiar qualquer deliberação sobre o tema e criar um grupo de trabalho para estabelecer critérios técnicos que orientarão futuras classificações.

A decisão foi tomada durante a 77ª Reunião Ordinária da Conabio e representa um alívio para um dos segmentos que mais crescem dentro do agronegócio brasileiro. O setor temia que uma eventual inclusão da tilápia em uma lista oficial de espécies invasoras pudesse gerar barreiras ambientais, sanitárias e comerciais, com reflexos diretos sobre a produção, os investimentos e as exportações.

Governo descarta classificação imediata

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), não houve aprovação de qualquer lista de espécies invasoras nem classificação individual de espécies durante a reunião.

A comissão decidiu que, antes de qualquer definição, será necessário construir critérios técnicos claros e objetivos para avaliar cada caso de forma individualizada. O entendimento é que decisões dessa magnitude precisam considerar não apenas aspectos ambientais, mas também os impactos econômicos e sociais envolvidos.

A medida também vale para outras espécies que estavam no centro do debate, como pinus, eucalipto, acácia, manga, goiaba e jaca.

Piscicultura reagiu com preocupação a classificação da tilápia como espécie invasora

A piscicultura brasileira acompanhou as discussões com atenção. Atualmente, a tilápia é o principal peixe cultivado no país e sustenta uma cadeia produtiva que movimenta bilhões de reais, gera milhares de empregos e impulsiona as exportações de pescado brasileiro.

Entidades do setor alertaram que uma eventual classificação da espécie como invasora poderia comprometer a competitividade do Brasil no mercado internacional e criar insegurança jurídica para produtores e investidores.

Segundo estimativas da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), as perdas poderiam ultrapassar dezenas de milhões de dólares por ano, além de provocar uma forte redução nas exportações nacionais de tilápia.

Embrapa defendeu análise técnica e individualizada

Na véspera da reunião, a Embrapa Pesca e Aquicultura divulgou uma nota técnica posicionando-se contra qualquer enquadramento automático ou generalizado de espécies aquícolas.

A instituição defendeu que decisões dessa natureza sejam baseadas em estudos científicos específicos, análises detalhadas e critérios técnicos robustos, evitando classificações amplas que possam gerar distorções ou impactos desnecessários para cadeias produtivas já consolidadas.

Novas categorias serão criadas

Como resultado das discussões, a Conabio aprovou a criação de três grandes categorias para futuras avaliações:

  • Espécies exóticas invasoras sem interesse socioeconômico;
  • Espécies exóticas invasoras com cadeia produtiva consolidada;
  • Espécies exóticas invasoras que impactam negativamente atividades socioeconômicas.

A proposta busca justamente diferenciar situações distintas, evitando que espécies com importância econômica relevante recebam tratamento semelhante ao de organismos que efetivamente representam riscos sem benefícios produtivos associados.

Grupo de trabalho terá prazo de 90 dias

O grupo técnico será composto por representantes do governo federal, da sociedade civil e do setor produtivo, podendo ainda contar com especialistas convidados para aprofundar as análises.

Os trabalhos deverão ser concluídos em até 90 dias após a publicação da resolução que oficializará a iniciativa. Somente após a definição dos critérios será possível avançar para discussões sobre eventuais classificações de espécies.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, qualquer futura decisão deverá ser fundamentada em evidências científicas, avaliações individualizadas e na consideração dos impactos socioeconômicos envolvidos, garantindo participação dos setores afetados no processo.

O que está em jogo para o agro

A discussão sobre a classificação da tilápia como espécie invasora vai além da piscicultura. O debate envolvendo tilápia, espécies florestais e frutíferas evidencia um desafio crescente para o Brasil: conciliar conservação ambiental, segurança jurídica e desenvolvimento econômico.

Para o agronegócio, o adiamento da decisão foi interpretado como uma sinalização positiva de que temas com elevado impacto produtivo deverão passar por avaliações técnicas mais aprofundadas antes da adoção de medidas regulatórias.

Enquanto isso, produtores, indústrias e entidades representativas seguem acompanhando os próximos passos da Conabio, que terá a responsabilidade de construir um modelo capaz de equilibrar proteção da biodiversidade e segurança para investimentos em cadeias produtivas estratégicas para o país.

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