Com quase dois metros de altura, os Budweiser Clydesdales atravessaram gerações, estrelaram comerciais históricos e se tornaram um dos símbolos mais reconhecidos do planeta.
Quando se fala em cavalos que transcenderam o universo equestre e se transformaram em ícones da cultura popular, poucos casos são tão emblemáticos quanto os Budweiser Clydesdales. Mais do que simples animais de propaganda, esses gigantes da raça Clydesdale se tornaram um patrimônio cultural dos Estados Unidos e uma das ferramentas de marketing mais bem-sucedidas da história corporativa.
A imagem da tradicional parelha puxando a carroça vermelha da cerveja Budweiser é reconhecida em praticamente qualquer lugar do mundo. Ao longo de mais de nove décadas, os cavalos participaram de eventos históricos, campanhas publicitárias memoráveis e ajudaram a preservar uma raça que chegou a enfrentar risco de declínio populacional.
O que pouca gente sabe é que apenas uma pequena parcela dos cavalos Clydesdale possui as características necessárias para vestir as famosas arreias vermelhas e douradas da marca.
A história começou em 1933, quando o fim da Lei Seca foi comemorado pela família Busch, proprietária da cervejaria Anheuser-Busch. Como presente, August Busch Jr. e Adolphus Busch III surpreenderam o pai com uma parelha de seis cavalos Clydesdale puxando uma carroça de cerveja. A cena marcou o retorno oficial da bebida ao mercado americano e deu origem a uma tradição que atravessa gerações.
O sucesso da apresentação foi tão grande que os cavalos passaram a representar oficialmente a marca. Pouco tempo depois, equipes começaram a percorrer os Estados Unidos promovendo a Budweiser em feiras, eventos e desfiles.
Hoje, os Clydesdales são considerados um dos maiores símbolos da publicidade mundial, comparáveis a personagens e marcas que ultrapassaram o próprio produto que representam.

Nem todo cavalo da raça pode integrar as equipes oficiais.
Os critérios de seleção são extremamente rigorosos:
- Pelagem baia (castanho-avermelhada);
- Crina e cauda totalmente pretas;
- Quatro patas com marcações brancas;
- Faixa branca no rosto;
- Temperamento dócil;
- Mínimo de quatro anos de idade;
- Aproximadamente 1,83 metro de altura na cernelha (18 palmos);
- Peso entre 800 e mais de 1.000 quilos.
Além da aparência, os animais precisam apresentar movimentação harmoniosa, capacidade de trabalho em equipe e comportamento adequado para grandes eventos públicos.
O resultado é um grupo de cavalos visualmente impressionante, com aparência praticamente padronizada, algo raro mesmo entre animais da mesma raça.
Originários da Escócia, os cavalos Clydesdale chegaram à América do Norte ainda no século XIX. Durante décadas foram utilizados para transporte de cargas, agricultura e movimentação de mercadorias pesadas.
Com a mecanização das fazendas e a popularização dos tratores, a procura pela raça caiu drasticamente. Na década de 1970, entidades de preservação já classificavam os Clydesdales como vulneráveis devido à redução do número de exemplares.
A Anheuser-Busch desempenhou papel fundamental para evitar um declínio ainda maior. Em 1953, a companhia iniciou um programa próprio de criação, expandindo seus plantéis e incentivando a reprodução da raça em território americano.

Atualmente, a empresa mantém um dos maiores rebanhos de Clydesdales do mundo, com cerca de 250 animais distribuídos entre centros de criação e equipes de exibição.
A rotina dos Budweiser Clydesdales é cuidadosamente planejada.
Cada animal consome diariamente:
- Entre 50 e 60 libras de feno (aproximadamente 23 a 27 kg);
- Cerca de 20 a 25 litros de mistura de grãos, vitaminas e minerais;
- Aproximadamente 30 galões de água (mais de 110 litros).
As equipes viajam grande parte do ano participando de eventos promocionais. Uma parelha oficial utiliza oito cavalos em apresentação, embora cada grupo viaje com dez animais para garantir substituições quando necessário.
O transporte é realizado em carretas especiais equipadas com monitoramento por câmeras, suspensão adaptada e pisos emborrachados para reduzir impactos durante as viagens.
Outro personagem inseparável dos Clydesdales é o dálmata.
A presença dos cães remonta aos tempos das antigas carroças cervejeiras, quando os animais protegiam a carga e os cavalos enquanto os condutores realizavam entregas.
Hoje, eles continuam viajando ao lado das equipes, tornando-se uma das imagens mais tradicionais da marca.

Embora os Clydesdales já fossem conhecidos nos Estados Unidos, a popularidade global explodiu após sua estreia nos comerciais do Super Bowl em 1986.
Desde então, os anúncios estrelados pelos gigantes escoceses passaram a figurar entre os mais aguardados do evento esportivo mais assistido da América do Norte.
Os comerciais normalmente exploram valores como amizade, tradição, lealdade e superação, criando uma conexão emocional que vai muito além da venda de cerveja.
Especialistas em marketing consideram os Budweiser Clydesdales um dos casos mais bem-sucedidos de construção de marca da história moderna.
O principal centro de criação da raça é o Warm Springs Ranch, localizado em Missouri, nos Estados Unidos.

A propriedade possui mais de 300 acres, maternidade, laboratórios veterinários, áreas de treinamento e dezenas de piquetes preparados para os animais. Mais de 70 Clydesdales vivem no local entre potros, éguas e garanhões.
Outra atração famosa são os estábulos históricos da Anheuser-Busch em St. Louis, construídos em 1885 e considerados um dos cartões-postais da companhia.
As equipes itinerantes realizam centenas de apresentações anuais, mantendo viva uma tradição que começou há mais de 90 anos.
Os Budweiser Clydesdales se tornaram algo raro no mundo corporativo: um símbolo capaz de sobreviver a mudanças de mercado, gerações de consumidores e transformações tecnológicas.
Enquanto muitas campanhas publicitárias desaparecem poucos meses após serem lançadas, os cavalos seguem despertando admiração em milhões de pessoas. Mais do que uma ferramenta de marketing, eles representam a preservação de uma raça histórica, a força dos cavalos de tração e a capacidade que o universo equestre tem de conectar tradição, emoção e identidade cultural.
Para o agronegócio e para os apaixonados por cavalos, os Clydesdales da Budweiser mostram que a história de uma raça pode ultrapassar as porteiras e se transformar em um fenômeno mundial.
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