Agricultor é morto a tiros dentro de casa durante operação da PM no Rio Grande do Sul; o comando da corporação confirmou o afastamento de 18 policiais militares envolvidos na operação desastrosa
O sereno da madrugada de quinta-feira (15) na Estrada da Cascata não trazia o descanso merecido após a lida no campo, mas o prenúncio de um pesadelo que não termina com o amanhecer. Entre o cheiro de pólvora e o estilhaçar de vidros, a vida do produtor rural Marcos Nornberg, de 48 anos, foi interrompida dentro de seu próprio lar, em um episódio que a própria Brigada Militar agora tenta explicar como um “grande mal-entendido”, mas que para a família tem o nome de uma dor incurável.
Nesta sexta-feira, o comando da corporação confirmou o afastamento de 18 policiais militares envolvidos na operação desastrosa. As armas que deveriam proteger a sociedade foram apreendidas e agora serão periciadas pela Corregedoria-Geral, sob o peso de um Inquérito Policial Militar (IPM).
A viúva, Raquel Nornberg, carrega no olhar a imagem de uma noite que se recusa a passar. Em um depoimento banhado em lágrimas e revolta, ela descreveu momentos de pura humilhação e terror.
“Abriram meu roupão, debocharam de mim, mandaram eu me ajoelhar em cima do lugar que estava cheio de caco de vidro. Foi uma brutalidade. O tempo inteiro eu achei que eram bandidos”, desabafa Raquel.
Para ela, a farda só apareceu quando o sangue de Marcos já manchava o chão da casa. O casal, despertado por ruídos no pátio, acreditou estar sob ataque de criminosos. Marcos saiu para defender o que era seu; encontrou a morte em uma chuva de disparos vinda de quem deveria ser o socorro.
A operação, classificada como “incomum” pela Polícia Civil devido ao número excessivo de viaturas e homens, foi baseada em um castelo de areia. Informações vindas de dois detentos no Paraná — com detalhes minuciosos e georreferenciamento — apontavam a propriedade de Nornberg como um bunker de armas e carros roubados.
O Comandante-Geral, Coronel Cláudio Feoli, admitiu o erro devastador: nada do que foi informado pelos delinquentes era verdade. Não havia armas ilegais, não havia veículos roubados. Havia apenas um trabalhador da terra e sua família.
A morte de Marcos Nornberg transbordou as fronteiras de Pelotas e atingiu o coração do Estado. O deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS) não poupou palavras para descrever a operação, classificando-a como um ato de covardia.
“Minha mais profunda solidariedade à família de Marcos Nörnberg, agricultor morto covardemente em uma operação absurda, desastrosa e inaceitável! Confundir um homem simples, pai de família e trabalhador da roça com um criminoso armado é algo que nos revolta, indigna e não tem justificativa!”, declarou o parlamentar, exigindo punição rigorosa aos responsáveis.
O governador Eduardo Leite também se manifestou, reconhecendo que, embora a polícia seja preparada, “não é imune a erros”, e prometeu uma apuração rigorosa sobre a conduta dos agentes.
Enquanto a Polícia Civil e a Corregedoria iniciam a oitiva de testemunhas na próxima segunda-feira (19), a zona rural de Pelotas permanece em um silêncio fúnebre. Para Raquel e para os filhos de Marcos, a “colisão de percepções” mencionada pelo comando da BM é uma explicação fria diante do vazio deixado na mesa de jantar.
O que diz a BM
A respeito da intervenção policial ocorrida na cidade de Pelotas, a Brigada Militar esclarece que, na madrugada desta quinta-feira (15/01), ao realizar buscas na área rural de Pelotas, após uma ocorrência de roubo a residência registrada na terça-feira (13/01), onde um caseiro foi feito refém por 36 horas, tendo três veículos e um reboque roubados, advém da seguinte dinâmica:
Na quarta-feira (14/01),na cidade de Guaíra no estado do Paraná, a polícia militar local, prendeu dois suspeitos do roubo, residentes em Pelotas, com idades de 20 e 21 anos, ambos com antecedentes por tráfico de drogas, roubo e adulteração de veículo, os quais estariam envolvidos no grave crime e na posse dos veículos roubados em Pelotas.
Em posse de informações recebidas da Polícia Militar do Paraná, a Brigada Militar planejou uma operação no local onde haveriam outros indivíduos envolvidos, com armas e veículos roubados. Durante a averiguação ao endereço os policiais militares se depararam com um homem portando uma arma de fogo, o qual não acolheu as ordens policiais, efetuando disparos contra a guarnição, estabelecendo confronto em que resultou na vitimada fatalmente.
O local foi imediatamente isolado e preservado para os trabalhos da perícia técnica. Com o indivíduo, foi apreendida uma arma de fogo, do tipo carabina semiautomática, além de aproximadamente R$ 27 mil em dinheiro e uma pequena quantia em dólar.
A Brigada Militar informa que a Corregedoria-Geral da Corporação instaurou inquérito policial militar para apurar e esclarecer as circunstâncias do fato.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.