Presidente da Abiec diz, em entrevista ao Valor Econômico, que conflito envolvendo Irã ameaça logística global da proteína brasileira e pode afetar até 1 milhão de toneladas nas exportações de carne bovina
A escalada das tensões no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, acendeu um sinal de alerta no agronegócio brasileiro. O setor de carne bovina teme que o agravamento do conflito provoque interrupções logísticas capazes de comprometer entre 30% e 40% das exportações brasileiras da proteína, o que representaria um impacto expressivo para a cadeia produtiva nacional.
O alerta foi feito pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Em entrevista ao Valor Econômico, o presidente da entidade, Roberto Perosa, afirmou que a situação já preocupa os frigoríficos e pode gerar consequências relevantes para o comércio internacional da carne brasileira.
Segundo ele, o impacto potencial está diretamente relacionado ao papel estratégico que o Oriente Médio exerce nas rotas logísticas utilizadas pelo Brasil para enviar carne a diversos mercados.
“O impacto pode ser de 30% a 40% da nossa exportação. Estamos muito preocupados”, afirmou Perosa ao Valor Econômico, ao comentar um levantamento feito pelas empresas exportadoras associadas da entidade.
Oriente Médio é rota estratégica para as exportações de carne bovina brasileira
Apesar de o Oriente Médio representar cerca de 10% do destino final das exportações brasileiras, com aproximadamente 250 mil toneladas enviadas por ano, a importância da região vai muito além do consumo direto.
Na prática, diversos portos do Golfo funcionam como centros logísticos internacionais, servindo como pontos de parada para navios ou como bases de redistribuição da carga para outros mercados.
Entre os principais portos utilizados pelo comércio brasileiro estão:
- Bahrein
- Catar
- Omã
- Emirados Árabes Unidos
A partir desses pontos, parte da carne segue viagem para outros países por navios menores ou por transporte terrestre, abastecendo mercados próximos e até destinos mais distantes, como a Ásia.
Esse modelo logístico também atende a China, principal comprador da carne bovina brasileira, o que aumenta ainda mais a preocupação do setor caso os portos da região sejam afetados pelo conflito.
Navios já aguardam no mar e fretes disparam
Os primeiros reflexos da instabilidade já começaram a aparecer no transporte internacional. Segundo relatos de exportadores, navios carregados com carne brasileira estão aguardando em alto-mar, sem autorização para atracar em alguns portos da região.
Além disso, parte das empresas de transporte marítimo passou a recusar contratos para envio de cargas ao Oriente Médio, devido ao risco associado à guerra.
Outras companhias continuam operando, mas passaram a cobrar uma tarifa adicional chamada “taxa de guerra”, que pode chegar a cerca de US$ 4 mil por contêiner.
Na prática, esse custo extra eleva significativamente o valor do frete e pode inviabilizar operações comerciais, especialmente em contratos previamente negociados.
Até 1 milhão de toneladas podem ser impactadas
A Abiec estima que o Brasil exporte aproximadamente 3 milhões de toneladas de carne bovina em 2026. Caso a guerra provoque bloqueios logísticos prolongados, até 1 milhão de toneladas podem ser afetadas ao longo do ano, considerando não apenas os embarques diretos ao Oriente Médio, mas também cargas destinadas à Ásia.
Outro fator que preocupa o setor é a ausência de mercados alternativos capazes de absorver rapidamente esse volume, caso as rotas atuais sejam interrompidas.
Segundo Perosa, não existe hoje demanda global suficiente para substituir imediatamente os canais comerciais que dependem da região do Golfo.
Diante do risco de interrupção nas exportações, analistas e executivos do setor já discutem possíveis ajustes na produção.
Uma das alternativas consideradas é a redução no ritmo de abate de bovinos no Brasil, estratégia que poderia ser adotada caso a demanda externa diminua de forma significativa.
Esse cenário, porém, pode gerar efeitos relevantes na cadeia pecuária, como:
- queda no faturamento da indústria frigorífica
- pressão sobre os preços do boi gordo
- maior oferta de carne no mercado interno
Embora a Abiec não tenha confirmado oficialmente essa possibilidade, o tema já é discutido como uma medida de adaptação diante de um cenário de instabilidade internacional.
Para o setor exportador, a crise evidencia como questões geopolíticas passaram a exercer influência direta sobre o agronegócio global.
Mesmo sem envolvimento direto no conflito, o Brasil pode sofrer impactos relevantes por depender de rotas marítimas estratégicas para escoar sua produção.
Segundo Perosa, 2026 já vinha sendo considerado um ano complexo para o comércio internacional da carne bovina, devido a fatores como ajustes no mercado chinês e mudanças nas dinâmicas globais de importação.
Agora, a guerra no Oriente Médio adiciona mais um elemento de incerteza.
“Vivemos o melhor momento sanitário da história da carne bovina brasileira, mas enfrentamos dificuldades causadas por fatores geopolíticos que estão fora do nosso controle”, destacou o presidente da Abiec em entrevista ao Valor Econômico.
Além dos gargalos logísticos, o setor das exportações de carne bovina também enfrenta aumento no custo operacional, influenciado pela elevação do preço do petróleo — fator que impacta diretamente o transporte marítimo.
Setor vê 2026 como um dos anos mais desafiadores do comércio global
O tema ganhou destaque durante reunião do conselho da Abiec realizada em São Paulo, onde executivos do setor classificaram o momento como um dos mais desafiadores para o comércio internacional da carne brasileira nos últimos anos.
Entre os principais fatores de pressão estão:
- tensões geopolíticas internacionais
- aumento do custo logístico
- riscos nas rotas marítimas globais
- incertezas no comércio internacional
Para os exportadores, o cenário exige atenção redobrada. Caso o conflito se prolongue ou se amplie na região, os reflexos podem atingir diretamente a pecuária brasileira, afetando preços, produção e exportações ao longo de 2026.
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