Habronemose cutânea: por que a “ferida de verão” persiste e exige atenção

Doença causada por parasita é comum no Brasil, a habronemose cutânea provoca inflamação intensa, não cicatriza sem tratamento adequado e está diretamente ligada ao controle de moscas.

A chamada “ferida de verão”, também conhecida no campo como “esponja”, é uma das dermatoses mais conhecidas — e temidas — da equinocultura. Embora as lesões sejam externas e visíveis, a origem do problema está em parasitas internos, o que torna o diagnóstico e o tratamento mais complexos do que aparenta. Tecnicamente, a enfermidade recebe o nome de habronemose cutânea, causada por larvas de helmintos gástricos dos gêneros Habronema e Draschia (Draschia megastoma).

Com alta incidência em regiões quentes e úmidas, a doença encontra no Brasil condições ideais para se perpetuar, sobretudo em propriedades com manejo extensivo, presença intensa de moscas e controle sanitário irregular.

Os equinos são hospedeiros definitivos de diversas espécies de endoparasitas. Em condições normais, a relação entre animal e parasita pode permanecer equilibrada. No entanto, situações de estresse, baixo escore corporal, alta carga parasitária e falhas no manejo sanitário favorecem o aparecimento de sinais clínicos.

Na habronemose, os parasitas Habronema muscae, Habronema majus e Draschia megastoma vivem no estômago do cavalo e podem atingir até 13 milímetros de comprimento. Seus ovos são eliminados pelas fezes e, ao entrarem em contato com o ambiente, tornam-se fonte de infecção para as moscas.

Esses insetos, ao se alimentarem das fezes contaminadas, atuam como hospedeiros intermediários, permitindo que as larvas se desenvolvam até a forma infectante. A partir daí, dois caminhos são possíveis:

  • Ingestão das larvas, quando a mosca morta contamina água ou alimento, completando o ciclo no sistema digestório;
  • Deposição das larvas em feridas cutâneas ou mucosas, desencadeando a forma cutânea da doença, conhecida como ferida de verão.
Foto: bimeda

Diferentemente do que ocorre no estômago, as larvas não conseguem completar seu ciclo de vida na pele. Essa incapacidade gera uma reação inflamatória intensa e persistente, caracterizada por hipersensibilidade local.

O resultado são lesões nodulares ou massas granulomatosas, frequentemente acompanhadas por tecido de granulação exuberante, com bordas irregulares e aspecto úmido. Mesmo pequenas feridas podem evoluir rapidamente, pois:

  • A coceira é intensa, levando o animal a morder ou esfregar o local;
  • O trauma constante aumenta o tamanho da lesão;
  • A inflamação se mantém ativa enquanto houver larvas presentes.

Em casos crônicos, a ferida pode evoluir para fibrose inativa, alcançando dimensões até dez vezes maiores do que no início.

As lesões da habronemose cutânea tendem a surgir em áreas:

  • Mais úmidas ou sensíveis;
  • Propensas a pequenos ferimentos;
  • Onde as moscas pousam com maior frequência.

Entre os locais mais comuns estão:

  • Extremidades dos membros;
  • Parte baixa do abdômen;
  • Região dos olhos, lábios e narinas;
  • Prepúcio, pênis e vulva.
Foto: Divulgação

Diagnóstico

O diagnóstico da ferida de verão é baseado principalmente na avaliação clínica do animal, considerando:

  • Aparência e localização da lesão;
  • Histórico de manejo e presença de moscas;
  • Falta de cicatrização mesmo com tratamentos convencionais.

Para confirmação, o médico-veterinário pode lançar mão de raspado de pele ou biópsia da lesão, procedimentos importantes para diferenciar a habronemose de outras dermatopatias, como sarcóides, pitiose ou feridas traumáticas simples.

O controle da habronemose cutânea não se limita ao tratamento local da ferida. Segundo a literatura e protocolos adotados no Brasil, a conduta deve ser definida após avaliação individual da lesão.

As principais estratégias incluem:

  • Excisão cirúrgica completa do tecido de granulação exuberante, quando indicado;
  • Tratamento sistêmico, com uso de antiparasitários;
  • Curativo tópico, associando pomadas cicatrizantes e medicamentos larvicidas;
  • Vermifugação oral, visando eliminar os parasitas gástricos e interromper o ciclo.

Em casos leves, com lesões pequenas, costuma-se adotar curativo local com pomada cicatrizante associada a organofosforado, além da administração de vermífugo à base de ivermectina, abamectina ou moxidectina, que atuam tanto nos parasitas internos quanto nas larvas envolvidas no processo.

A alta frequência da habronemose no Brasil está diretamente ligada ao controle ineficiente das moscas e ao baixo uso estratégico de anti-helmínticos. Sem o manejo adequado do ambiente, a reinfecção é comum, mesmo após tratamento bem-sucedido.

Medidas preventivas incluem:

  • Manejo correto de fezes;
  • Redução de matéria orgânica exposta;
  • Uso de armadilhas e inseticidas específicos;
  • Programas regulares de vermifugação orientados por profissional.

A ferida de verão é um exemplo claro de como problemas externos podem ter origem interna. Ignorar pequenas lesões, atrasar o diagnóstico ou tratar apenas de forma superficial pode resultar em lesões extensas, dolorosas e de difícil resolução.

Por isso, diante de qualquer ferida que não cicatriza, especialmente em períodos quentes e com alta infestação de moscas, a avaliação de um médico-veterinário é indispensável para garantir o bem-estar do animal e preservar seu desempenho atlético e produtivo.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM