Empresário Caio Penido, que herdou a Fazenda Roncador, diversifica modelo tradicional da pecuária, investe em marca de carne premium e aposta em integração produtiva para aumentar rentabilidade no campo, mirando captura de valor fora da indústria
A lógica tradicional da pecuária brasileira — baseada na venda do boi gordo para frigoríficos — começa a ser questionada por produtores que buscam capturar mais valor dentro da cadeia. É nesse movimento que se insere o empresário Caio Penido, de Mato Grosso, que decidiu transformar seu modelo de negócio ao investir na criação de uma marca própria de carne premium. Herdeiro de parte da histórica Fazenda Roncador, uma das maiores do país, Penido passou a redesenhar sua atuação no agro com foco em verticalização, diferenciação de produto e acesso direto ao consumidor final.
Em entrevista à Bloomberg Línea, o empresário explicou que a decisão de lançar sua própria marca surgiu justamente da dificuldade de capturar valor no modelo tradicional. Segundo ele, produzir melhor nem sempre se traduz em melhor remuneração dentro da lógica da indústria frigorífica.
“Decidi fazer a minha carne para conseguir agregar valor, mas isso mudou todo o meu tipo de negócio”, afirmou o empresário à reportagem.
Da venda de boi à construção de marca própria
Durante anos, Penido operou como a maioria dos pecuaristas brasileiros: produzindo gado e vendendo para grandes frigoríficos como JBS e Minerva. No entanto, esse modelo, segundo ele, limita o potencial de rentabilidade do produtor.
A virada estratégica ganhou força em 2024 com a criação da SouBeef, sua marca própria de carne premium. Com isso, o empresário deixou de atuar apenas como fornecedor de matéria-prima e passou a controlar também etapas como processamento, posicionamento de marca e comercialização.
A proposta vai além da carne em si. O modelo integra diferentes frentes:
- Integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF)
- Produção sustentável
- Turismo rural
- Conteúdo audiovisual
“É a integração lavoura-pecuária-floresta, com turismo e audiovisual. Tudo isso em um só lugar”, disse Penido em entrevista à Bloomberg Línea ao descrever o novo posicionamento do negócio da Fazenda Roncador.
SouBeef: Carne premium com genética e foco em nichos
A estratégia da SouBeef começa ainda no campo, com o planejamento genético dos animais. A produção envolve cruzamentos de Nelore, Angus e Wagyu, buscando qualidade superior e acesso a nichos mais exigentes do mercado.
O foco inicial está no mercado interno, especialmente em São Paulo, com atuação em:
- Food service
- Boutiques de carne
- Plataformas digitais
Há também planos de expansão internacional, com interesse em mercados como Ásia e Oriente Médio, possivelmente via parceria com empresas estrangeiras.

Crescimento acelerado, mas com foco no longo prazo
Apesar de ainda não ter atingido o ponto de equilíbrio financeiro, a SouBeef já apresenta forte crescimento. Segundo informações da empresa, a receita avançou 281% no último ano, com cerca de 20% da produção já destinada à marca própria.
A expectativa é de que a operação se torne rentável a partir de 2027, à medida que ganha escala.
O plano é ambicioso: sair de cerca de 150 abates mensais para aproximadamente 1.000 animais por mês, consolidando a marca como um player relevante no segmento premium.
O desafio de “virar a chave” na pecuária
A mudança de modelo trouxe novos desafios. Ao deixar de vender apenas o animal vivo e passar a trabalhar com carne, o produtor passou a lidar com toda a complexidade da cadeia. “Agora eu tenho que me virar com o boi inteiro”, afirmou Penido à Bloomberg Línea, ao explicar que passou a gerir o aproveitamento completo da carcaça, incluindo cortes, couro e distribuição.
Além disso, etapas que antes eram terceirizadas — como desossa e logística — começaram a ser internalizadas, aumentando o controle, mas também a complexidade operacional.

Da divisão da Fazenda Roncador à nova estrutura produtiva
A estratégia atual de Penido também está diretamente ligada à reorganização patrimonial da família. A antiga Fazenda Roncador, com cerca de 153 mil hectares, foi dividida entre os herdeiros em 2024.
Com isso, o empresário passou a administrar áreas próprias e da irmã, estruturando operações em diferentes frentes:
- Fazenda Pioneira (joint venture com a SLC Agrícola)
- Fazenda Darro, com foco produtivo e conservação
- Fazenda Água Viva, voltada à pecuária premium e turismo
Na agricultura, a operação inclui culturas como soja, milho, algodão, gergelim e feijão mungo, com expansão prevista para mais de 65 mil hectares até 2027/28.
Diversificação como estratégia de valor
Além da carne, Penido também investe em novas frentes de maior valor agregado. Entre elas:
- Produção de açaí, com potencial de rentabilidade até 10 vezes maior que a soja, segundo o empresário
- Implantação de hotel-fazenda, com inauguração prevista
- Projetos futuros com cavalos crioulos e carne de cordeiro
A diversificação reforça uma tendência crescente no agro: transformar propriedades rurais em plataformas multifuncionais de geração de valor.
Um movimento que pode redefinir a pecuária
O caso de Caio Penido ilustra uma mudança mais ampla no setor: produtores deixando de ser apenas fornecedores de boi para se tornarem marcas, empresas e operadores completos da cadeia da carne.
Ao apostar na verticalização, o empresário busca escapar da dependência do preço da arroba — tradicional “régua” do setor — e construir um modelo baseado em qualidade, diferenciação e relacionamento direto com o consumidor.
Mais do que uma estratégia individual, trata-se de um sinal claro de transformação: o futuro da pecuária pode estar menos na quantidade e mais na capacidade de capturar valor dentro da própria porteira — e fora dela.
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