Crise geopolítica na madrugada do último sábado (03), com ataque dos EUA à Venezuela, sacode comércio, logística e custos do agronegócio brasileiro e impõe novo teste à estratégia
Os ataques aéreos dos Estados Unidos contra a Venezuela, ocorridos na madrugada desta sexta-feira, seguidos da captura de Nicolás Maduro, inauguraram um novo e delicado capítulo da geopolítica sul-americana — com efeitos diretos e imediatos sobre o agronegócio brasileiro. Embora a Venezuela não figure hoje entre os principais parceiros comerciais do Brasil, o país vinha retomando gradualmente as importações de produtos agrícolas brasileiros, movimento que agora foi abruptamente interrompido.
Entre 2021 e 2022, o Brasil exportou mais de US$ 1 bilhão por ano em produtos do agronegócio para o mercado venezuelano, com destaque para óleo de soja, açúcar, milho e arroz. A eclosão do conflito interrompeu contratos, travou embarques e reacendeu um risco já conhecido dos exportadores: a inadimplência. Com a instabilidade política, destruição de infraestrutura e incertezas institucionais, cresce o temor de calotes e cancelamentos definitivos, levando empresas brasileiras a suspender novos negócios, exigir pagamentos antecipados e revisar sua exposição ao país vizinho.
Mesmo representando cerca de 0,6% das exportações agropecuárias brasileiras em 2024, a Venezuela vinha sendo vista como um mercado de recuperação, especialmente para produtos básicos. O choque, portanto, não é apenas financeiro, mas também estratégico, ao retirar do radar um destino que ajudava a diversificar as vendas externas do agro.
Grãos, carnes e fertilizantes: impactos setoriais
A crise tende a afetar de forma desigual os principais segmentos do agronegócio brasileiro.
Grãos e açúcar
A Venezuela vinha ampliando as compras de milho e arroz, além de absorver volumes relevantes de açúcar brasileiro. A paralisação dessas exportações obriga produtores e tradings a redirecionarem cargas para outros mercados, o que pode pressionar preços internos no curto prazo e elevar custos logísticos. Embora a fatia venezuelana seja pequena no total exportado, o efeito pontual é sentido principalmente por empresas que operavam com margens mais estreitas.
Carnes
No caso das proteínas animais, o impacto é mais limitado. A Venezuela já teve papel relevante no passado — em 2014, chegou a importar mais de 360 mil toneladas de carnes brasileiras —, mas essa demanda despencou ao longo da última década. Em 2024, as exportações caíram para cerca de 5,2 mil toneladas, uma redução de 98,6%. Ainda assim, frigoríficos que mantinham nichos específicos, especialmente em carne de frango de menor valor, perdem um destino imediato.
Fertilizantes e energia
Aqui está o ponto mais sensível. Cerca de 45% das exportações venezuelanas ao Brasil envolviam fertilizantes e derivados de petróleo. A interrupção desse fluxo pressiona custos de produção, sobretudo em um país que já depende fortemente de insumos importados. A substituição por fornecedores mais distantes ou caros tende a afetar margens, enquanto qualquer choque prolongado no mercado de petróleo pode encarecer combustíveis, fretes e operações agrícolas em todo o território nacional.
Logística sob pressão e fronteiras fechadas
Os reflexos logísticos foram quase imediatos. Poucas horas após os ataques, o governo venezuelano fechou a fronteira terrestre com o Brasil, especialmente na região de Pacaraima (RR), interrompendo o fluxo regular de cargas e pessoas. Mesmo com o lado brasileiro mantendo a fronteira aberta, o bloqueio venezuelano paralisou o transporte rodoviário, afetando desde pequenos comerciantes até exportadores de alimentos e insumos.
Empresas do agronegócio brasileiro relatam total incerteza quanto a prazos e desembaraço de cargas já enviadas, enquanto produtores que dependiam do mercado venezuelano enfrentam agora o desafio de armazenar excedentes ou redirecionar embarques, muitas vezes com custos adicionais.
Há também impactos indiretos. Em Roraima, a possibilidade de um novo fluxo migratório intenso amplia a pressão sobre infraestrutura, segurança e serviços públicos, exigindo maior atenção governamental e podendo desviar recursos antes voltados ao apoio produtivo regional. Soma-se a isso a expectativa de alta nos custos logísticos, caso combustíveis e seguros de transporte fiquem mais caros diante do aumento do risco geopolítico.
Diplomacia, política e reflexos comerciais
No campo político, o Brasil entrou em um equilíbrio diplomático delicado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou publicamente a ação militar, reforçando a defesa da soberania regional e da solução pacífica de conflitos. A posição brasileira, alinhada a outros países da América Latina, preserva princípios históricos da diplomacia nacional, mas pode gerar ruídos com Washington.
Do ponto de vista comercial, o cenário é incerto. Um eventual novo governo venezuelano alinhado aos EUA pode rever parcerias e reduzir o espaço de empresas brasileiras em processos de reconstrução e abastecimento. Ao mesmo tempo, o Brasil busca manter canais abertos e atuar em fóruns multilaterais como ONU, OEA e Mercosul, tentando preservar sua influência regional.
Internamente, a crise também evidencia divisões políticas, que podem repercutir em decisões comerciais e estratégicas ligadas ao agronegócio, especialmente em um setor altamente dependente de estabilidade e previsibilidade.
Riscos imediatos e oportunidades estratégicas para o agronegócio brasileiro
Riscos
- Perda de um mercado em recuperação, com impacto direto sobre receitas de exportação.
- Risco elevado de inadimplência, com contratos já firmados ameaçados.
- Aumento de custos de produção, especialmente com fertilizantes e combustíveis.
- Stress logístico, com bloqueios, redirecionamento de cargas e custos adicionais.
- Pressão humanitária e social, que pode deslocar o foco governamental no curto prazo.
Oportunidades
- Aceleração da diversificação de mercados, reduzindo dependência de destinos instáveis.
- Fortalecimento dos biocombustíveis brasileiros, diante de possíveis choques no petróleo.
- Protagonismo diplomático, que pode render dividendos comerciais no médio prazo.
- Participação em um eventual processo de reconstrução venezuelana, caso haja estabilização política.
- Avanço no debate sobre autossuficiência em fertilizantes, reduzindo vulnerabilidades estruturais do agro nacional.
Um teste de resiliência para o agro brasileiro
Os ataques dos EUA à Venezuela representam um ponto de inflexão para a região e um teste de resiliência para o agronegócio brasileiro. Há perdas concretas no curto prazo, mas também lições estratégicas que podem fortalecer o setor no longo prazo. A resposta exigirá coordenação entre governo e iniciativa privada, com foco em proteção contratual, planejamento de risco e busca ativa por novos mercados.
Independentemente dos próximos desdobramentos políticos em Caracas, uma certeza permanece: o agronegócio brasileiro seguirá se adaptando rapidamente, tentando transformar instabilidade externa em ajustes internos que reforcem sua competitividade e sustentabilidade.
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