Única categoria excluída das recentes isenções americanas, o setor produtivo brasileiro prepara defesa em Washington para tentar barrar impostos que podem chegar a 37,5% e alertar sobre o forte impacto na inflação local
A indústria do café solúvel sofre com tarifaço encabeçado pela atual administração de Donald Trump e, para conter a sangria nas exportações, prepara uma ofensiva diplomática direta. Representantes do agronegócio brasileiro desembarcam em Washington para uma audiência pública marcada para o dia 6 de julho, com o objetivo de barrar os novos embargos comerciais que ameaçam a competitividade do produto nacional no mercado norte-americano.
A urgência da viagem se dá por um detalhe que intriga os produtores: de todas as categorias da bebida, o formato solúvel tradicional foi o único deixado de fora das recentes listas de alívio fiscal concedidas pelos Estados Unidos.
O peso das sanções e a busca por isenção
A escalada protecionista ganhou força no início de junho, quando a Casa Branca sugeriu taxar produtos vindos do Brasil em 25%, justificando a manobra com base em supostas infrações ambientais, questões de pirataria e até mesmo o uso do sistema PIX. No dia seguinte, uma nova sobretaxa de 12,5% mirou dezenas de nações — incluindo o mercado brasileiro — sob a alegação de falhas nas políticas trabalhistas.
Curiosamente, os grãos torrados, moídos e até a versão solúvel com adição de aromatizantes conseguiram escapar dessas alíquotas. Segundo Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), a entidade atuará presencialmente e por meio de documentos formais para reverter esse isolamento do produto convencional.
Por que a indústria do café solúvel sofre com tarifaço exclusivista?
A liderança do setor trabalha com duas linhas de raciocínio para explicar o bloqueio. A primeira aposta em um mero erro burocrático na classificação dos códigos aduaneiros americanos. A segunda aponta para um plano estratégico dos EUA de forçar uma reindustrialização local.
Lima, no entanto, contesta a viabilidade prática dessa segunda hipótese. Ele argumenta que estruturar um parque fabril cafeeiro exige, no mínimo, meia década e que, inevitavelmente, as empresas americanas continuariam dependentes da matéria-prima estrangeira. O diretor da Abics avalia que o impasse pode ser, na verdade, uma moeda de troca geopolítica envolvendo interesses de Washington em áreas como minerais críticos, terras raras e regulações de big techs.
Dependência estrangeira e inflação nas prateleiras dos EUA
A defesa brasileira em Washington se baseará em números sólidos para provar que a indústria do café solúvel sofre com tarifaço, mas que o consumidor americano é quem, no fim das contas, paga o preço. Os argumentos principais, que serão entregues formalmente até 1º de julho, incluem:
- Baixa produção local: Os EUA fabricam apenas 6% de todo o café solúvel que consomem.
- Protagonismo brasileiro: O rombo no abastecimento é coberto por parceiros internacionais. Apenas o Brasil foi responsável por garantir 37% das importações americanas do produto no ano de 2024.
- Disparada nos preços: Segundo o Bureau of Labor Statistics (Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA), a inflação do item nas prateleiras americanas saltou impressionantes 24% no acumulado de 12 meses até maio.
O setor lida com um histórico recente de instabilidade. Após o produto brasileiro amargar taxas de 50% entre agosto de 2025 e fevereiro deste ano, o Congresso norte-americano chegou a derrubar a medida. Contudo, Trump aplicou uma nova tarifa global de 10% no mesmo dia. Com o vencimento dessa cobrança provisória previsto para julho, os empresários temem que o produto do Brasil acabe sobretaxado em 37,5%, consolidando um cenário comercialmente inviável caso a revisão não seja concedida na audiência.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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