Indústria de transformação acumula quinta queda nos últimos sete anos. Cenário econômico exige prudência nas discussões sobre redução da jornada de trabalho
A retração de 0,2% no PIB da indústria de transformação em 2025 reacendeu o alerta para o avanço da desindustrialização no Brasil, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O resultado marca a quinta queda do segmento nos últimos sete anos e reforça, na avaliação da entidade, a perda gradual de espaço do setor na economia.
Após registrar crescimento de 3,9% em 2024, a indústria de transformação não conseguiu sustentar o ritmo no ano seguinte. O desempenho foi pressionado, principalmente, pela manutenção de juros elevados e pelo aumento das importações, que avançaram em ritmo superior ao da demanda doméstica.
De acordo com o superintendente de Economia da CNI, Marcio Guerra, a política monetária contracionista teve impacto direto sobre a atividade. “A Selic desestimulou o investimento, encareceu o crédito aos consumidores e restringiu a demanda por bens industriais. Essa situação é agravada pela expansão das importações, que cresceram de forma generalizada e em ritmo muito superior ao da demanda”, afirmou.
Crescimento desigual e dependência do setor extrativo
O enfraquecimento da indústria de transformação contaminou o desempenho global do setor. O PIB industrial como um todo cresceu 1,4% em 2025 — menos da metade do observado no ano anterior. O resultado só não foi mais modesto devido ao avanço de 8,6% da indústria extrativa, impulsionada pela produção de petróleo e gás.
A construção civil, por sua vez, registrou expansão de apenas 0,5%, refletindo os efeitos do crédito mais caro e da desaceleração da demanda.
Outro indicador que preocupa é a taxa de investimento, que encerrou 2025 em 16,8% do PIB — patamar inferior aos cerca de 20% observados entre 2010 e 2013 e considerado insuficiente para sustentar ciclos mais robustos de crescimento econômico.
“O cenário preocupa, mas não é novo: desindustrialização e baixo investimento. As medidas para reverter esse quadro precisam ser tomadas de forma imediata; do contrário, o desempenho do PIB em 2026 será ainda mais modesto”, alertou Guerra.
Jornada de trabalho entra no radar
Em meio ao ambiente de fragilidade, a CNI também defende cautela nas discussões sobre eventual redução da jornada de trabalho. Para a entidade, a imposição de novos custos às empresas neste momento pode comprometer ainda mais a competitividade do setor.
A indústria, argumenta a confederação, emprega proporcionalmente mais mão de obra qualificada do que a média do setor privado, ocupa posição central nas cadeias produtivas e está mais exposta à concorrência internacional. Além disso, há segmentos em que a compensação de horas é inviável ou excessivamente onerosa.
Segundo a CNI, as incertezas geradas por esse debate tendem a postergar decisões de investimento — justamente o fator apontado como essencial para elevar a produtividade e criar condições estruturais para qualquer mudança na jornada.
Para a entidade, a discussão sobre redução de horas trabalhadas deveria ser consequência de ganhos consistentes de produtividade, e não um ponto de partida em um cenário marcado por retração industrial e baixo nível de investimento.
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