Projeto criado no ambiente acadêmico desenvolve ‘horta inteligente’ e aposta em sensores, conectividade de baixo custo e automação para transformar dados em decisões no campo, com foco em produtividade, economia de recursos e sustentabilidade
A agricultura de precisão, historicamente associada a grandes propriedades e altos investimentos, começa a ganhar uma nova roupagem no Brasil. Um projeto desenvolvido por estudantes e professores do Centro de Pesquisas do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) mostra que é possível levar tecnologia avançada também para dentro da porteira das pequenas propriedades. Trata-se da chamada “horta inteligente”, uma solução que combina sensores, estação meteorológica, automação e conectividade para apoiar a tomada de decisão no campo.
A iniciativa nasce com um objetivo claro: democratizar o acesso à agricultura digital, permitindo que produtores de menor escala utilizem dados climáticos e de solo de forma prática, precisa e financeiramente viável. Mais do que uma experiência acadêmica, o projeto já vem sendo testado em áreas produtivas reais e aponta caminhos concretos para reduzir custos, otimizar o uso da água e aumentar a eficiência produtiva.
Como funciona a horta inteligente
O sistema desenvolvido pelo IMT integra sensores de umidade do solo a uma estação meteorológica automatizada, capaz de medir chuva, temperatura, umidade do ar, luminosidade, velocidade e direção do vento. Todas essas informações são coletadas em tempo real e transmitidas por meio de tecnologias de Internet das Coisas (IoT) para uma central de controle .
Com os dados armazenados em servidores, o produtor passa a ter uma leitura detalhada das condições da lavoura, podendo decidir quando irrigar, quando proteger a cultura e como reagir a eventos climáticos extremos, com base em evidências concretas, e não apenas na observação empírica.
Tecnologia pensada para ser acessível
Um dos principais diferenciais do projeto é o foco em conectividade de longo alcance e baixo custo, justamente para atender propriedades que enfrentam mais barreiras para adotar tecnologias no dia a dia. Segundo os pesquisadores envolvidos, quanto menor a área, menor tende a ser o custo da solução, tornando o modelo escalável e adaptável à realidade do pequeno produtor .
O projeto teve início em 2020, com a criação de uma horta experimental em pequena escala dentro do campus da Mauá. A ideia era simples e estratégica: introduzir tecnologias em um ambiente controlado, validá-las e, depois, reproduzi-las em áreas maiores, inclusive fora do meio acadêmico .
Do campus ao campo: testes em fazendas e parceria com a Embrapa
Com os resultados iniciais, a equipe apresentou a proposta à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que apoiou financeiramente o avanço do projeto. O investimento direto da Mauá foi de aproximadamente R$ 30 mil, além da concessão de bolsas de iniciação científica para estudantes envolvidos .
A tecnologia já foi replicada no Centro de Inovação e Tecnologia (CIT) da Associação Brasileira de Automação (GS1 Brasil) e em duas fazendas da Embrapa, localizadas em Passo Fundo (RS) e São Miguel Arcanjo (SP). Nessa etapa, o projeto contou com a parceria da Embrapa Agricultura Digital, além das unidades Embrapa Trigo, Embrapa Florestas e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) .
Um dos episódios que reforçou a importância da tecnologia ocorreu em julho de 2025, quando o sistema registrou geada e ventos fortes em uma área de trigo em São Miguel Arcanjo. O monitoramento permitiu ao produtor compreender exatamente o evento climático ocorrido e seus impactos sobre a lavoura, algo que dificilmente seria identificado apenas pela observação visual .
Próxima fase: inteligência artificial e visão computacional
Após consolidar a etapa de coleta e uso dos dados, o projeto avança agora para um novo patamar tecnológico. A próxima fase prevê a aplicação de inteligência artificial e processamento de imagens, com foco em dois pontos estratégicos:
- Identificação precoce de pragas, como o pulgão,
- Otimização ainda maior da irrigação, aplicando água e defensivos apenas onde e quando necessário .
Embora os testes iniciais tenham sido realizados com trigo, os pesquisadores destacam que a tecnologia é adaptável a qualquer cultura, o que amplia significativamente o potencial de impacto da solução no campo brasileiro.
“Horta inteligente”: Benefícios diretos ao pequeno produtor
Entre os principais ganhos apontados estão a redução de custos operacionais, o uso mais eficiente da água, o aumento da produtividade e a mitigação de riscos climáticos. Na prática, os dados coletados deixam de ser apenas números e passam a se transformar em decisões estratégicas dentro da propriedade, fortalecendo a competitividade do pequeno produtor rural .
Ao unir ensino, pesquisa e aplicação prática, a “horta inteligente” mostra que a inovação no agro não depende apenas de grandes investimentos, mas de soluções bem desenhadas, conectadas à realidade do campo e capazes de transformar informação em resultado.
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