Intoxicação em bovinos: como prevenir o inimigo que mata 14% do gado

Descubra como a intoxicação em bovinos causa 14% das mortes no campo. Aprenda a identificar o Cafezinho e a Maria-mole e veja estratégias de prevenção da Embrapa.

No Brasil, um perigo invisível ronda as pastagens e causa prejuízos bilionários, muitas vezes sem que o produtor perceba a real origem do problema. A intoxicação em bovinos por plantas tóxicas não é apenas um acidente casual; dados da Embrapa indicam que entre 10% e 14% das mortes de gado no país são causadas diretamente pela ingestão dessas espécies.

Com um rebanho nacional superior a 230 milhões de cabeças, isso significa que mais de um milhão de animais perdem a vida anualmente por comerem o que não devem. Mas por que isso acontece? E, mais importante, como blindar sua fazenda contra essa estatística alarmante? A resposta passa pelo manejo inteligente e pelo combate à escassez alimentar.

A fome é o gatilho da intoxicação

A primeira regra para entender a intoxicação em bovinos é derrubar um mito: o gado não come planta tóxica porque quer ou por “vício”. Ele come por necessidade.

Em condições ideais, com pasto farto e de qualidade, os bovinos são extremamente seletivos e evitam naturalmente plantas perigosas. O risco surge quando ocorre a escassez de forragem. Fatores climáticos como geadas severas e secas prolongadas, somados a erros de manejo como a superlotação de pastagens (sobrepastoreio) e jejum prolongado em transportes, criam o cenário perfeito para a tragédia.

A professora Patrícia Tristão Mendonça, especialista em Gado de Leite do Curso CPT, reforça essa tese:

“É intuitivo que os animais, desde que lhes seja permitido o acesso a forrageiras e em quantidades adequadas, não ingiram as plantas tóxicas, que, em condições normais, são recusadas”.

O momento mais crítico ocorre na fase de brotação. Quando as plantas tóxicas estão brotando, elas se tornam mais macias (tenras) e possuem menor teor de fibra, o que facilita a ingestão em grandes quantidades por animais famintos que não encontram capim braquiária ou panicum à disposição.

As vilãs do pasto: Conheça os tipos de intoxicação

Para o produtor rural, saber identificar o inimigo é vital. A ciência classifica a intoxicação em dois tipos principais, dependendo da planta e do tempo de ingestão.

1. Intoxicação Aguda

Acontece rapidamente, muitas vezes horas após a ingestão. O animal consome uma dose letal de uma só vez.

  • A principal ameaça: A “erva-de-rato” ou “cafezinho” (Palicourea marcgravii). Segundo estudos publicados na Pesquisa Veterinária Brasileira, esta é a planta tóxica mais importante do Brasil. Ela é altamente palatável e letal: a ingestão de apenas 0,6g por kg de peso vivo já pode matar um boi adulto.
  • Outros exemplos: A Baccharis coridifolia (mio-mio), comum no sul, também causa quadros agudos devastadores se ingerida por animais não adaptados.

2. Intoxicação Crônica

É traiçoeira e silenciosa. O animal ingere pequenas quantidades da planta diariamente. A dose isolada não mata, mas o acúmulo da toxina no organismo leva à falência de órgãos meses depois.

  • A principal ameaça: O gênero Senecio, conhecido como Maria-mole. Dados da Embrapa Clima Temperado apontam que esta planta é responsável por mais de 50% das mortes por intoxicação na região Sul. Ela destrói o fígado do animal de forma irreversível.
  • Samambaia: A Pteridium aquilinum também gera quadros crônicos graves, além de problemas agudos hemorrágicos.

Diagnóstico: O papel do produtor e do veterinário

Muitas vezes, a morte por planta tóxica é confundida com picada de cobra ou doenças infecciosas. O diagnóstico preciso da intoxicação em bovinos exige uma investigação de campo.

Se houver morte suspeita na propriedade, o produtor deve chamar um veterinário imediatamente para realizar a necropsia. Além disso, é necessário percorrer o pasto para responder a três perguntas:

  1. A planta suspeita existe na área em quantidade suficiente para matar?
  2. Há sinais de que a planta foi consumida (folhas mordidas)?
  3. Existe escassez de alimento que justifique o comportamento do gado?

Atenção: Animais recém-chegados à fazenda são o grupo de maior risco, pois não conhecem a flora local. Estatisticamente, a maioria dos casos ocorre no primeiro mês após a introdução de novos lotes no pasto.

Estratégias de Prevenção e Proteção do Patrimônio

A prevenção não se faz com medicamentos, mas com agronomia. Combater as plantas invasoras é a única forma de garantir a segurança alimentar do rebanho.

Seguindo diretrizes técnicas de manejo de pastagens (Victoria Filho, 1986), o produtor deve focar em três pilares:

1. Limpeza de Pastagens (Controle de Invasoras)

Não espere a planta tóxica semear. O controle deve ser feito antes da floração para evitar que as sementes caiam no solo e garantam a infestação do próximo ano. Pastos “sujos” competem por luz e nutrientes com o capim, reduzindo a produtividade.

2. Ajuste da Taxa de Lotação

O erro clássico é colocar mais gado do que a terra suporta. A alta pressão de pastejo degrada o capim e abre clareiras onde as plantas tóxicas, que são oportunistas e resistentes a solos ácidos, se instalam.

3. Suplementação Estratégica

Se o pasto acabou na seca, o gado precisa de cocho. Fornecer suplementação adequada na entressafra elimina a fome, que é a causa raiz da ingestão de tóxicas.

O manejo preventivo é a melhor “vacina”

Encarar a intoxicação em bovinos apenas como uma fatalidade ou azar é um erro estratégico que custa caro. Como vimos, os dados da pesquisa veterinária confirmam que a morte por plantas tóxicas é, na maioria das vezes, o capítulo final de uma história que começou com o manejo inadequado da pastagem.

Para o pecuarista moderno, a lição que fica é clara: pasto limpo e cocho cheio são o melhor seguro de vida para o rebanho.

Escrito por Compre Rural

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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