Irrigação pode transformar o Brasil no maior mercado agrícola do mundo, mas três entraves ainda freiam o avanço

Com potencial para alcançar 55 milhões de hectares irrigados, o Brasil vive uma corrida pela estabilidade produtiva diante das mudanças climáticas, porém enfrenta desafios ligados ao crédito, energia e segurança jurídica da água

A irrigação deixou de ser apenas uma ferramenta para aumentar a produtividade e passou a ocupar um papel estratégico no futuro da agricultura brasileira. Em um cenário marcado por secas mais frequentes, chuvas irregulares e eventos climáticos extremos, produtores rurais de diferentes regiões do país enxergam na tecnologia uma forma de reduzir riscos, proteger investimentos e garantir maior previsibilidade na produção.

Os números mostram a dimensão da oportunidade. Atualmente, o Brasil possui cerca de 11 milhões de hectares irrigados, mas o potencial é de quintuplicar essa área, chegando a aproximadamente 55 milhões de hectares, segundo estimativas da Rede Nacional da Agricultura Irrigada (Renai). O avanço é tão expressivo que especialistas e empresas do setor já projetam o país como o futuro maior mercado de irrigação do mundo.

Brasil ainda está longe do potencial máximo

Embora seja uma das maiores potências agrícolas globais, o Brasil ainda apresenta índices de irrigação modestos quando comparados aos principais concorrentes internacionais.

O contraste fica evidente em estados que lideram a produção agrícola nacional. No Paraná, por exemplo, apenas cerca de 0,2% das lavouras são irrigadas. Já em Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, esse percentual gira em torno de apenas 2%.

Segundo Claudio Lima, CEO da Lindsay no Brasil, essa realidade mostra que o país está apenas começando uma transformação que pode redefinir a agricultura nacional.

“A irrigação no Brasil ainda está engatinhando, mas certamente será a maior do mundo, algo que também ouvimos dos nossos concorrentes”, afirmou o executivo.

A Lindsay, multinacional especializada em sistemas de irrigação, já considera o Brasil sua principal operação internacional fora dos Estados Unidos. A expectativa da companhia é que o mercado brasileiro assuma protagonismo global ao longo da próxima década.

Hoje, o país possui aproximadamente 35 mil pivôs centrais instalados. Para efeito de comparação, apenas o estado de Nebraska, nos Estados Unidos, concentra cerca de 75 mil equipamentos, mais que o dobro de todo o parque irrigado brasileiro.

Mudanças climáticas aceleram a busca pela tecnologia

Historicamente, a agricultura brasileira sempre se beneficiou de condições climáticas favoráveis, permitindo altas produtividades mesmo em sistemas de sequeiro. Entretanto, esse cenário vem mudando rapidamente.

Para o pesquisador da Embrapa Cerrados e conselheiro da Renai, Lineu Neiva Rodrigues, a crescente instabilidade climática está transformando a irrigação em uma necessidade cada vez mais evidente.

“Nossa produção em sistema de sequeiro costumava produzir bem em comparação com outros países, mas agora os sinais mostram que o clima está ficando mais incerto e a produção mais instável. Diante desse contexto, a irrigação se torna o melhor ansiolítico para o produtor”, destacou.

A percepção já se reflete no mercado. Segundo Claudio Lima, a rede de 22 distribuidores da Lindsay nunca registrou volume tão elevado de consultas e pedidos de orçamento em seus 24 anos de atuação no Brasil.

O movimento ganhou força especialmente após as sucessivas quebras de safra observadas em diferentes regiões do país nos últimos anos, impulsionadas por estiagens prolongadas e irregularidade das chuvas.

Quanto custa irrigar uma propriedade?

O investimento continua sendo um dos principais fatores avaliados pelo produtor antes de implantar um sistema de irrigação.

De acordo com Claudio Lima, um pivô central de grande porte, com aproximadamente 900 metros de vão e capacidade para irrigar até 350 hectares, exige investimento médio de cerca de R$ 22 mil por hectare.

“Quanto maior a máquina e maior a área irrigada, menor o investimento em infraestrutura porque se dilui o custo da captação da água e da energia”, explicou o executivo.

Apesar do custo inicial elevado, especialistas ressaltam que a irrigação proporciona ganhos significativos de produtividade, estabilidade de safra e possibilidade de intensificação dos sistemas produtivos, fatores que ajudam a diluir o investimento ao longo dos anos.

Os três desafios que travam a expansão da irrigação

Embora o potencial seja gigantesco, o crescimento da agricultura irrigada no Brasil ainda esbarra em três obstáculos considerados centrais pelos especialistas.

Crédito rural ainda caro

A primeira barreira é financeira.

Mesmo com linhas específicas de financiamento, os juros continuam elevados para muitos produtores, especialmente após os ciclos recentes de aperto monetário. Isso reduz a velocidade de adoção de tecnologias que exigem investimentos de longo prazo.

Infraestrutura energética limitada

O segundo gargalo está relacionado à energia elétrica.

Diversas regiões agrícolas apresentam limitações na oferta energética, dificultando a instalação e a operação de sistemas de irrigação em larga escala. O problema é mais evidente em áreas remotas, justamente onde existe grande potencial de expansão agrícola.

Segurança jurídica e uso da água

O terceiro desafio envolve a legislação e os processos de licenciamento.

Especialistas defendem que o país precisa avançar em políticas que facilitem a construção de reservatórios e a armazenagem de água durante os períodos chuvosos. Hoje, a burocracia relacionada às outorgas e ao uso dos recursos hídricos ainda é vista como um fator que limita novos investimentos.

Segundo Rodrigues, a legislação atual possui restrições que dificultam o aproveitamento pleno do potencial hídrico disponível em diversas regiões produtoras.

A irrigação será decisiva para alimentar o mundo

A expansão da irrigação não interessa apenas ao agronegócio brasileiro. Ela também está diretamente ligada ao desafio global de produção de alimentos.

Estimativas internacionais apontam que a população mundial poderá atingir cerca de 10 bilhões de habitantes nas próximas décadas. Para atender essa demanda, a produção agrícola precisará crescer de forma expressiva.

Atualmente, cerca de 20% das áreas agrícolas do planeta são irrigadas, mas elas respondem por aproximadamente 40% de todos os alimentos produzidos no mundo.

Para Lineu Rodrigues, aumentar a produção sem ampliar a pressão sobre novas áreas dependerá diretamente da expansão da agricultura irrigada.

Além de elevar a produtividade, a tecnologia permite maior estabilidade produtiva, redução dos riscos climáticos e melhor aproveitamento das áreas já abertas para a agricultura.

O futuro da irrigação passa pelo Brasil

Os levantamentos da Renai indicam que o país amplia atualmente entre 200 mil e 300 mil hectares irrigados por ano. O potencial, porém, é muito maior. Especialistas acreditam que o Brasil poderia avançar para taxas próximas de 400 mil hectares anuais caso os gargalos regulatórios, energéticos e financeiros sejam reduzidos.

Mais do que uma tendência tecnológica, a irrigação está se consolidando como uma ferramenta de adaptação às mudanças climáticas e de garantia da segurança alimentar.

Em um mundo que precisará produzir mais alimentos utilizando menos recursos e enfrentando condições climáticas cada vez mais imprevisíveis, o Brasil reúne água, solo, tecnologia e escala para liderar essa transformação. O desafio agora será criar as condições necessárias para que esse potencial saia do papel e se converta em produção, renda e competitividade para o campo brasileiro.

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