Jumentos à beira da extinção: pesquisa brasileira pode mudar o destino da espécie

UFPR desenvolve colágeno em laboratório por “fermentação de precisão” para atender demanda chinesa sem abater jumentos; projeto busca US$ 2 milhões para escalar produção e iniciar fase industrial a partir de 2027

A população de jumentos no Brasil entrou em alerta máximo. Um animal que por décadas foi símbolo do trabalho no campo e da resistência no semiárido agora enfrenta um risco real de desaparecer do mapa — pressionado por uma cadeia produtiva que cresce do outro lado do mundo, impulsionada pela demanda da China por colágeno extraído da pele do animal.

Diante desse cenário, uma pesquisa brasileira pode representar uma virada histórica. O Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) está desenvolvendo um método inédito de produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão, capaz de gerar a mesma proteína sem a necessidade de criação e abate de animais.

A proposta não mira apenas inovação científica: ela busca oferecer uma alternativa viável para um mercado bilionário, reduzir impactos ambientais e, principalmente, ajudar a evitar a extinção dos jumentos.

Uma tecnologia que pode substituir o abate e mudar a lógica do mercado

O colágeno de jumento é amplamente utilizado pela indústria chinesa na produção do ejiao, uma gelatina obtida tradicionalmente a partir da pele do animal e muito valorizada na medicina tradicional chinesa.

O produto não se limita a uma aplicação cultural: ele se tornou uma matéria-prima importante para os segmentos de beleza, saúde e nutrição funcional, impulsionando uma cadeia econômica robusta. Hoje, o colágeno de jumentos abastece um mercado de US$ 700 milhões por ano na China, enquanto o mercado do ejiao é avaliado em US$ 1,9 bilhão, com projeção de atingir US$ 3,8 bilhões até 2032, em crescimento estimado de 9,1% ao ano. Esse avanço, porém, tem um custo: o modelo atual depende do abate — e a pressão sobre a espécie é crescente. É nesse ponto que entra a proposta da UFPR.

A fermentação de precisão consiste no uso de micro-organismos geneticamente modificados para produzir proteínas específicas. Em vez de retirar o colágeno diretamente do animal, a pesquisa pretende “ensinar” um micro-organismo a fabricar a proteína em laboratório. Na prática, isso significa transformar a biotecnologia em uma “linha de produção” industrial, sem a etapa mais polêmica e destrutiva da cadeia: o abate.

Como funciona a fermentação de precisão aplicada ao colágeno de jumento

O projeto está sendo conduzido pelo Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR e, segundo a equipe, as etapas mais complexas do ponto de vista científico já foram vencidas.

A coordenadora do laboratório, Carla Molento, PhD pela Universidade McGill (Canadá), explica que a pesquisa já passou com sucesso pelas primeiras fases laboratoriais e agora se aproxima de um ponto decisivo: a inserção do DNA responsável pelo colágeno em um micro-organismo que funcionará como uma biofábrica.

Já avançamos nas etapas mais complexas do ponto de vista científico, que são justamente as de bancada, onde está a inovação. Agora estamos prontos para inserir o DNA do colágeno em uma levedura, que funcionará como uma biofábrica, em um processo semelhante ao da produção de cerveja”, afirma a pesquisadora. O mecanismo é baseado em uma lógica conhecida pela indústria: em vez de produzir bebida, o micro-organismo passará a produzir colágeno. No segundo ano do projeto, os pesquisadores devem realizar justamente essa etapa: inserir o DNA do colágeno de jumento em uma levedura, permitindo avançar no processo de produção e testes com volumes maiores.

Prova de conceito até 2026 e escala industrial a partir de 2027

Com conclusão prevista para este ano, a equipe trabalha para avançar até o fim do ciclo atual e comprovar a viabilidade técnica do método. A meta está clara: apresentar até dezembro de 2026 a chamada prova de conceito, ou seja, a produção de miligramas de colágeno de jumento obtido integralmente por fermentação de precisão, provando que o processo pode funcionar na prática.

Apesar de parecer pouco, produzir miligramas nesse tipo de pesquisa é um marco relevante: o que está em jogo, nessa etapa, não é volume, mas sim comprovar que o método é replicável e tecnicamente possível. As três primeiras fases já foram concluídas com êxito, envolvendo:

  • sequenciamento do DNA
  • amplificação
  • preparação para inserção no micro-organismo

A partir do momento em que a prova de conceito estiver validada, o caminho se abre para a etapa seguinte — que é justamente o gargalo do projeto.

O gargalo do dinheiro: pesquisa precisa de US$ 2 milhões para sair da bancada

Mesmo com os avanços científicos, a pesquisa enfrenta um obstáculo típico da inovação no Brasil: transformar ciência em escala industrial. Para a etapa de escalonamento inicial — quando a tecnologia deixa a bancada e passa a operar em ambiente mais próximo do real — o laboratório busca captar US$ 2 milhões.

Esse recurso seria usado para criar uma infraestrutura capaz de testar a produção em biorreatores de 10 e 50 litros, permitindo validar a produção com mais robustez e aproximar a pesquisa das condições exigidas pela indústria. “Hoje trabalhamos com pequenas quantidades, em um ambiente de prova de conceito. Para avançar rumo a uma aplicação industrial, precisamos de financiamento para instalar biorreatores maiores e testar a produção em escala piloto”, ressalta Molento.

Sem o investimento, a pesquisa corre o risco de ficar travada na fase de comprovação científica — atrasando a possibilidade de transferência tecnológica e impedindo que a inovação cumpra o principal papel: substituir o abate e reduzir a pressão sobre os jumentos.

O financiamento, segundo a equipe, pode vir tanto do setor público quanto de investidores privados, além de:

  • empresas interessadas na matéria-prima
  • organizações internacionais
  • instituições nacionais ligadas a inovação e sustentabilidade

A expectativa é que, com o aporte e estrutura montada, o laboratório possa iniciar o processo de escala com perspectiva de produção mais estruturada já em 2027.

Parcerias estratégicas e apoio institucional ao projeto

A pesquisa conta com financiamento e apoio de instituições públicas. O projeto é financiado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), por meio do Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), além da Fundação Araucária, da SETI e do Governo do Estado do Paraná.

Também existe uma parceria internacional com um dos centros mais respeitados do mundo no tema: a Universidade de Wageningen, na Holanda, referência global em biotecnologia aplicada à produção de proteínas alternativas.

Essa cooperação fortalece a credibilidade da pesquisa e garante rigor na caracterização do produto — algo crucial para qualquer futuro uso comercial. “Queremos comparar o DNA do jumento brasileiro com as sequências internacionais para garantir uma descrição precisa do produto. Isso é fundamental pensando em uma futura aplicação comercial”, explica Molento.

Por que a fermentação de precisão é vista como mais eficiente e sustentável

Além de eliminar o abate, a fermentação de precisão promete maior eficiência produtiva. Na avaliação da pesquisadora, criar jumentos em sistemas tradicionais para atender esse mercado exige insumos, tempo, escala e logística. Já a biotecnologia permite produção concentrada e com menos desperdício.

Do ponto de vista produtivo, é muito mais eficiente investir em fermentação de precisão do que em fazendas de jumentos. Em um galpão, com alguns biorreatores, é possível produzir uma quantidade muito maior de proteína, com menos insumos e sem o abate”, destaca.

Outro ponto importante é a qualidade do produto final. O colágeno produzido em laboratório tende a ser altamente purificado, o que facilita sua comercialização e abre portas para um modelo de negócios mais direto com a indústria.

A estratégia mais provável é atuar no formato B2B: vender o colágeno purificado para empresas que já produzem os itens finais, seja na China ou em outros mercados. “A estratégia mais provável é vender o colágeno purificado para empresas que já produzem os produtos finais, seja na China ou em outros mercados”, afirma Molento.

Para a equipe, essa tecnologia não se limita ao colágeno de jumentos. Uma vez validado o processo, ele pode abrir caminho para produzir outros produtos de origem animal, usando o mesmo princípio: proteínas verdadeiras, com menor impacto ambiental e sem exploração de rebanhos.

“De cada 100 jumentos, restam apenas seis”: queda de 94% acende alerta no Brasil

O ponto mais dramático do debate é o risco de extinção. Dados cruzados da FAO, IBGE e Agrostat indicam que a população de jumentos no Brasil despencou 94% entre 1996 e 2024. Em termos práticos, a redução é brutal. “De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, afirma Patricia Tatemoto, PhD em Ciências com ênfase em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal pela USP, e coordenadora da organização no Brasil.

O problema, segundo especialistas, é que o abate ocorre de forma extrativista, sem planejamento, sem ganhos consistentes para comunidades e com impacto direto sobre a manutenção da espécie.

Um modelo concentrado e controverso: abate beneficia poucos e não move economia local

Outro ponto levantado é que a cadeia atual não promove desenvolvimento regional sustentável. Pelo contrário: ela tende a concentrar ganhos e gerar desequilíbrios. Segundo as informações do setor, apenas dois abatedouros estão em funcionamento no interior da Bahia, concentrando a atividade, enquanto o abate é descrito como uma operação que não movimenta a economia local de forma ampla.

Além disso, é uma prática apontada como incompatível com estudos técnicos e científicos já produzidos e divulgados no Brasil, o que amplia a pressão para a construção de alternativas — tanto do ponto de vista ético quanto ambiental.

Um “colágeno de laboratório” pode salvar a espécie e manter o mercado vivo

A lógica por trás da pesquisa da UFPR é simples e poderosa: se a indústria quer a proteína, e não necessariamente o animal, é possível entregar a mesma matéria-prima com tecnologia — sem colapsar a população de jumentos. Ou seja, o colágeno obtido por fermentação de precisão pode funcionar como um meio-termo estratégico:

  • atende um mercado global em expansão
  • reduz impacto ambiental e sanitário
  • elimina o abate como pilar de fornecimento
  • contribui diretamente para evitar a extinção

E mais do que isso: posiciona o Brasil como protagonista de uma solução que une ciência, mercado e conservação.

Se o investimento necessário for captado e o projeto avançar para escala, o país pode ter nas mãos uma inovação capaz de transformar o destino de uma espécie inteira — e, ao mesmo tempo, abrir uma nova fronteira da biotecnologia aplicada à produção animal sem animais.

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