Leilões de fazendas confiscadas disparam à medida que dívida rural cresce

Com dívidas em alta e juros a 15%, leilões e confiscos de fazendas disparam no Brasil. Entenda o impacto da crise climática e financeira no agronegócio

Os leilões de fazendas confiscadas por credores estão disparando em todo o Brasil, segundo dados compilados para a Reuters, com o crédito rural problemático representando quase um quinto do total de empréstimos em aberto.

A queda nos preços dos grãos, as altas taxas de juros e o aumento dos custos de produção, além dos impactos das mudanças climáticas imprevisíveis, levaram a um número muito maior de falências e confiscos de fazendas em todo o Brasil, disseram produtores e analistas à Reuters.

Para agravar a situação, os agricultores brasileiros se preparam para um possível fenômeno climático “super El Niño”, que pode prejudicar a produção agrícola e reduzir ainda mais sua renda. Além disso, a alta dos preços dos fertilizantes durante a guerra no Irã fez com que muitos agricultores brasileiros reduzissem seus planos de plantio.

O estado do Rio Grande do Sul, um dos mais afetados pelo aumento da inadimplência agrícola, sofreu inundações catastróficas em 2024, influenciadas pelas mudanças climáticas e pelo El Niño daquele ano, segundo um estudo publicado em janeiro na revista “NPJ Natural Hazards”, afiliada à revista “Nature”.

As dívidas problemáticas emitidas sob as regras de crédito rural do Brasil mais que quadruplicaram em dois anos, chegando a 171,2 bilhões de reais (US$ 33 bilhões) no início deste ano, de acordo com dados do Banco Central que monitoram problemas como empréstimos inadimplentes, calotes, renegociações e refinanciamentos.

A inadimplência cresceu para 19,6% do total de empréstimos agrícolas em aberto, ante apenas 5,5% dois anos antes, Acordo com os dados do Banco Central.

“O endividamento no setor agrícola está em um momento extremamente delicado“, disse Guilherme Campos, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, à Reuters.

Venda de Fazendas

Os credores brasileiros têm se tornado mais agressivos na apreensão de terras agrícolas como garantia de empréstimos inadimplentes, elevando o número de propriedades rurais em leilão, segundo dados do site agregador Leilao Imovel compartilhados com a Reuters.

O volume desses leilões saltou para 14.219 propriedades rurais leiloadas em 2025, um aumento de 30% em relação ao ano anterior.

As propriedades apreendidas e leiloadas em procedimentos extrajudiciais mais rápidos quase dobraram, chegando a 2.398 no ano passado.

O Leilao Imovel pesquisou cerca de 7% mais casas de leilão em 2025, portanto os dados não são diretamente comparáveis, disse o cofundador André Figueiredo. No entanto, os maiores leiloeiros compartilham dados desde 2019 e há uma clara tendência de agravamento das dificuldades financeiras dos agricultores brasileiros nos últimos anos, afirmou ele.

“O volume de propriedades rurais (em leilão) aumentou significativamente“, disse ele, acrescentando que as regiões focadas na produção de soja e outros grãos foram as mais afetadas.

Os pedidos de falência no setor agrícola saltaram 56% em 2025, após mais que dobrarem em 2024, segundo dados publicados pela agência de crédito Serasa Experian.

Clima Problemático

Os produtores ainda estão lutando para se recuperar de uma série de choques, disse o diretor-geral de agricultura da Serasa Experian, Marcelo Pimenta.

Outros fatores que corroem a capacidade dos agricultores de honrar seus compromissos financeiros, disse ele, incluem o mau tempo, a queda nos preços das exportações agrícolas – principalmente da soja – e a taxa básica de juros brasileira, que subiu de 2% para 15% em cinco anos.

“A perspectiva para o futuro não é boa”, acrescentou. “As taxas de juros estão muito altas e é incerto para onde irão os preços das commodities. A probabilidade de um choque devido a problemas climáticos é muito alta.”

Um agricultor do Rio Grande do Sul, que pediu para não ser identificado, disse que estava lutando para pagar os juros “impagáveis” depois que as condições climáticas extremas arruinaram suas plantações. Uma agência de crédito recentemente confiscou mais da metade da propriedade rural de sua família.

“A mudança climática é significativa, é evidente. De uma hora para a outra, não conseguimos produzir por causa do excesso de chuva ou de sol”, disse o agricultor. “O fator climático é o que nos colocou nessa situação.”

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