Após o recorde de exportação em 2025, o começo de 2026 está marcado por medidas protecionistas de parceiros do Brasil que poderão mudar esse quadro.
Em 2025, o Brasil exportou 3,1 milhões de toneladas de carne bovina in natura – crescimento de 21,4% em relação a 2024, volume recorde – figura 1.
Com preço médio da tonelada também maior, o faturamento atingiu recorde.
Figura 1.
Exportação brasileira de carne bovina in natura.

Em 2025, não só a exportação brasileira foi recorde: o abate de bovinos e a produção de carne também.
Estimamos o abate de bovinos em 40,7 milhões de cabeças – aumento de 2,7% em relação a 2024 -, em um ano ainda com forte participação de fêmeas.
A produção de carne bovina em 2025, em milhões de toneladas de equivalente carcaça (tec), deverá crescer 4,6%, estimada em 12,4 milhões – com essa produção, pela primeira vez na história, o Brasil será o maior produtor global.
Apesar do volume alto de abate, a disponibilidade interna (produção – exportação + importação) de carne bovina, caiu – de 8,2 milhões de tec, para 8,1 milhões (USDA).
Em um ano bem ofertado, a exportação foi importante para preços da arroba mais firmes, em relação aos anos anteriores (2023 – 2024).
Mesmo em meio a incertezas, como o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, no início do segundo semestre, a conjuntura internacional – com preços da carne bovina em alta no mundo – favoreceu o setor.
O ano começa com perguntas sobre a exportação
Em ordem de relevância, China, Estados Unidos, Chile, México e Rússia encabeçaram os destinos da carne brasileira em 2025.
Na primeira semana de 2026, China e México anunciaram medidas protecionistas à carne bovina.
A principal preocupação é em relação à China, maior destino da carne bovina brasileira.
Em 31/12/2025, o governo chinês, através de seu Ministério do Comércio (MOFCOM) anunciou o resultado da investigação sobre os efeitos da importação de carne bovina sobre a pecuária chinesa, em curso desde dezembro de 2024 e prevista para ser anunciada apenas em 26/1/2026.
A China adiantou o anúncio e estabeleceu uma cota global de importação e cotas anuais por país, além da incidência de uma tarifa adicional de 55,0% sobre volumes que ultrapassarem essas cotas.
A alegação chinesa é de que a importação de carne bovina foi prejudicial à indústria local e, por isso, as salvaguardas foram tomadas.
As medidas entraram em vigor em 1 de janeiro de 2026, e com duração prevista de três anos, até 31 de dezembro de 2028.
O Brasil – maior fornecedor de carne bovina à China – recebeu a maior cota. A cota atribuída, porém, é menor do que a exportação em 2024 (1,2 milhão de toneladas) e em 2025, onde 1,6 milhão de toneladas foram embarcadas, o que deixa parte do fluxo sujeito à tarifa extra.
Pelo lado mexicano, o governo publicou em 5/1/26 duas resoluções que limitam a quantidade de importação das carnes bovina e suína sem imposto. Até então, empresas mexicanas tinham direito a tarifa zero para compra desses alimentos do exterior independente de quantidade.
A isenção de imposto de importação para carne bovina e suína estava prevista no Pacote Contra a Inflação e a Carestia (Pacic), uma iniciativa do governo criada em 2022 para combater o aumento dos preços dos alimentos no México.
Agora foram estabelecidas cotas, e os volumes que excederem esses limites pagarão taxa, o que deve impactar as exportações de países que vendem carne para o México, como o Brasil. A medida valerá até 31 dezembro deste ano.
Com a mudança, os mexicanos poderão importar 70 mil toneladas de carne bovina sem tarifas, e o que exceder esse volume será taxado em 20,0%.
Por outro lado, os Estados Unidos, segundo maior destino da carne bovina brasileira retirou, no fim de novembro, o “tarifaço” à carne bovina, em momento estratégico para o Brasil, pois, no fim de cada ano, há uma “corrida” para preencher uma cota de 60 mil toneladas com tarifas menores. Findado o tarifaço, o mercado voltou à normalidade.
Carne bovina: a produção, a exportação e a oferta doméstica em 2026
Apesar da importância da exportação, o maior destino da produção brasileira é o mercado interno.
Em 2025, com o recorde de produção, o mercado interno respondeu por 65,8% do consumo, a menor participação desde 2010.
Em 2026, com a atual conjuntura à exportação envolvendo a China e o México, o cenário muda? A expectativa é que sim, mas não como no início desta década.
O Brasil deverá exportar 5,9% menos em 2026 (USDA) – apesar da expectativa, será o segundo maior ano para a exportação, ou 250 mil tec a menos.
Após anos de descarte intenso de matrizes, a produção deverá diminuir 5,3%, em função da menor participação de fêmeas nos abates.
Com a produção recuando menos que a exportação, a oferta doméstica deverá aumentar 0,2 pontos percentuais (p.p.) em 2026. Veja na figura 2.
Figura 2.
Participação (%) da exportação e do mercado interno na produção brasileira de carne bovina. 
Fonte: USDA Elaboração: Scot Consultoria
Se o impacto na exportação for maior que a estimativa vigente, divulgada antes das “novidades” recentemente anunciadas, o impacto poderá ser maior e a disponibilidade interna, também.
Suponhamos que, China e México comprem apenas o volume previsto nas cotas divulgadas para 2026 e os demais países mantenham sua posição compradora inalterada – a exportação brasileira poderá cair até 600 mil tec (bem acima da estimativa atual).
Pesa para uma redução brusca da exportação – e até mesmo a revisão por estes países às tarifas – o preço global da carne bovina, em sua máxima (figura 3), a expectativa de redução na oferta global de carne em 2026 e a busca, pelos importadores, por países com preços mais acessíveis – com destaque, é claro, ao Brasil.
Ou seja, a exportação, apesar do cenário mais difícil, não deverá perder desempenho.
Não consideramos a possibilidade de abertura de mercados, que tem flertado com a carne bovina brasileira, como o Japão e Coreia do Sul.
Figura 3.
Cotação média da carne bovina no mundo, US$/kg. 
Mas e o boi com isso?
Apesar do “susto” com as medidas protecionistas anunciadas, o cenário em 2026 é de otimismo e preços firmes ao pecuarista.
Primeiro é a expectativa de redução da oferta de boiadas – e menor produção de carne bovina.
Segundo, reside no mercado interno. O Brasil está com o menor nível de desemprego desde 2015 (IBGE) e com mais renda per capita desde a pandemia. Mais renda, maior consumo de carne.
A inflação está dentro da meta e, para 2026, podemos ter cortes na taxa básica de juros. O Banco Central do Brasil, segundo boletim Focus de 2/1/26, estima para 2026, que a Selic será de 12,25% ao ano, abaixo dos 15,0% vigentes.
Ao fim de 2025, o governo aprovou a isenção do imposto de renda para quem recebe até R$5 mil por mês. A medida deve elevar a renda dos consumidores e manter a competitividade entre as carnes bovina, suína e de frango no próximo ano, e abre espaço para ajustes no preço das carnes ao longo da cadeia.
Em 2026, teremos eleições – a previsão para o fundo eleitoral é de R$4,9 bilhões, valor que deverá, de alguma forma, circular na economia.
Se “as bets” não consumirem essa renda extra, o mercado, principalmente o de alimentos, deverá ser beneficiado.
No futebol, haverá a realização da Copa do Mundo – que ocorrerá nos Estados Unidos, México e Canadá, dois, dos cinco maiores destinos da carne bovina brasileira e que, em 2026, no caso dos Estados Unidos, deverá seguir com oferta reduzida de carne e preços em alta.
A exportação, tem sim, com as notícias recentes, um quadro menos “apetitoso” para 2026, mas, não deixará de ser uma boa mistura para um prato que aparenta estar bem-preparado e temperado.
Fonte: Broadcast Agro
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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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