Com o apoio da genética de precisão e sistemas integrados, produtores brasileiros provam que o Nelore pode atingir altos índices de gordura intramuscular apenas com forragem, unindo o conceito de marmoreio verde à alta rentabilidade e sustentabilidade exigida pelo mercado global
A busca por uma carcaça que equilibre o volume de carne do Zebu com a gordura entremeada das raças britânicas deixou de ser um sonho de laboratório para se tornar realidade no campo. O chamado marmoreio verde — a deposição de gordura intramuscular em animais criados e terminados 100% a pasto — está redesenhando a pecuária de ciclo curto no Brasil. O que antes era visto como um gargalo genético do Nelore, agora se mostra uma oportunidade de mercado para atender consumidores que exigem sustentabilidade e saudabilidade sem abrir mão da experiência sensorial.
A mudança não aconteceu por acaso. Ela é sustentada por três pilares: a identificação de linhagens genéticas específicas, a intensificação do manejo forrageiro e o uso de ferramentas de precisão que permitem antecipar o resultado do abate antes mesmo de o bezerro ir para o desmame.
A herança genética e o marmoreio verde no Nelore
A base para o marmoreio verde começa na seleção criteriosa. Durante anos, o Nelore foi selecionado para sobrevivência e ganho de peso, mas o trabalho de criatórios como o Grupo Adir provou que a gordura intramuscular também está no DNA da raça. O touro Qualumpur, linhagem Adir Leonel, tornou-se um marco em 2015 ao atingir o recorde de 5,02% de marmoreio em avaliação por ultrassom (DGT).
Esse resultado foi o ponto de partida para mostrar que o gado brasileiro não depende exclusivamente de dietas de alto grão em confinamento para “marmorear”. Estudos do Journal of Animal Science confirmam que a herdabilidade dessa característica em raças tropicais (Bos indicus) varia de 0.35 a 0.45 — um índice considerado de moderado a alto. Isso significa que, ao escolher os touros certos, o pecuarista consegue fixar a qualidade de carne no rebanho com relativa rapidez.
O pasto que “ativa” a gordura
Se a genética é o motor, o pasto é o combustível. Uma pesquisa conduzida em 2025 pela USP (FMVZ) e pela Embrapa Pecuária Sudeste, sob coordenação de Rolando Pasquini Neto, trouxe números que mudam a forma de enxergar a adubação. O estudo avaliou o escore de carcaça em sistemas intensificados com nitrogênio.
Os dados são claros: animais mantidos em pastagens bem manejadas atingiram notas de marmoreio entre 5.0 e 6.0. Em contraste, o gado em sistemas extensivos degradados não passou da marca de 3.0. A conclusão dos pesquisadores é que a oferta abundante de nutrientes nas forrageiras de alta qualidade funciona como um gatilho metabólico, permitindo que o animal direcione energia para a gordura intramuscular em vez de gastá-la apenas na manutenção básica.
A tecnologia do marmoreio verde e a precisão genômica
O uso da ciência de dados no curral deu um salto de eficiência. De acordo com a Earth Biome (2025), o uso da genômica elevou a precisão para prever o potencial de marmoreio verde no Nelore de modestos 37% para mais de 80%. Essa evolução permite que o produtor descarte cedo animais que não terão acabamento premium e foque os recursos naqueles que entregarão o máximo de valor.
Somado a isso, o sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que já ocupa mais de 17 milhões de hectares no país, atua diretamente no bem-estar animal. A sombra das árvores reduz o estresse térmico, mantendo o gado calmo. Um animal menos estressado preserva suas reservas de glicogênio, o que resulta em uma carne com pH estável, cor vibrante e, claro, a preservação da gordura entremeada.
A valorização da carne sustentável
Lá fora, o mercado de carne terminada a pasto (grass-fed) é um dos que mais cresce. Projeções da Business Research Insights indicam que esse setor deve alcançar um valor global de US$ 76 bilhões até 2035, com expansão anual de 4,9%. O interesse não é apenas pelo sabor, mas pela composição nutricional: essa carne possui níveis até cinco vezes maiores de CLA (ácido linoleico conjugado) e uma relação mais equilibrada de Ômega-3 e Vitamina E.
Países como a Austrália já mostram o caminho do lucro. O programa Meat Standards Australia (MSA) paga, em média, um bônus de A$ 0,36 por quilo para produtores que entregam animais certificados a pasto. No Brasil, o selo Carne Carbono Neutro (CCN) da Embrapa surge como o passaporte para o marmoreio verde conquistar as gôndolas mais exigentes da Europa e Ásia, unindo o prazer gastronômico à responsabilidade ambiental.
O caminho para a carne premium brasileira não passa mais, obrigatoriamente, pelo cocho de grãos. O segredo está em entender que a qualidade começa na raiz do capim e termina na precisão do Sumário de Touros.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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