Mercosul e União Europeia assinam acordo histórico após 26 anos de negociação

Tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo e reforça discurso contra protecionismo; Mercosul e União Europeia assinam acordo: o que esperar agora?

Depois de mais de duas décadas e meia de tratativas, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia foi oficialmente assinado neste sábado (17), no Paraguai, em uma cerimônia considerada histórica por lideranças dos dois blocos. O tratado é apontado como um marco para o comércio internacional, por formar uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, reunindo um mercado estimado em cerca de 700 a 720 milhões de pessoas.

O evento foi realizado no Grande Teatro José Asunción Flores, no Banco Central do Paraguai, local simbólico para a história da integração regional: foi ali que, em 1991, ocorreu a assinatura do tratado fundador do Mercosul. A escolha reforçou o tom de “novo ciclo” defendido pelos participantes, com destaque para a promessa de aprofundar relações econômicas, ampliar previsibilidade comercial e consolidar regras de cooperação entre América do Sul e Europa.

Mercosul e União Europeia assinam acordo em um momento de forte debate global sobre tarifas, barreiras comerciais e reconfiguração de cadeias produtivas. Por isso, lideranças dos dois blocos aproveitaram o ato para defender o multilateralismo e o livre comércio baseado em regras, como resposta ao avanço do protecionismo no cenário internacional.

Cerimônia no Paraguai reuniu chefes de Estado e autoridades europeias

A solenidade contou com presença de autoridades do Mercosul e de representantes centrais da União Europeia.

Entre os líderes sul-americanos, estiveram:

  • Santiago Peña, presidente do Paraguai (anfitrião do evento)
  • Javier Milei, presidente da Argentina
  • Yamandú Orsi, presidente do Uruguai
  • Rodrigo Paz, presidente da Bolívia

Pelo lado europeu, participaram:

  • Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia
  • António Costa, presidente do Conselho Europeu

O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que discursou em nome do presidente Lula.

Santiago Peña diz que assinatura abre portas para um “futuro melhor”

O presidente paraguaio, Santiago Peña, foi um dos primeiros a falar e destacou o peso político e econômico do momento. Ele classificou o dia como um divisor de águas, afirmando que o acordo demonstra que o caminho do diálogo e da cooperação ainda é capaz de superar impasses históricos e gerar oportunidades concretas.

Segundo Peña, a assinatura marca uma integração relevante entre dois grandes mercados e pode abrir portas para avanços estruturais na região, além de representar ganhos futuros para os povos envolvidos.

Ursula afirma que acordo reduzirá tarifas e dará regras mais claras para comércio e investimentos

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o tratado tem potencial para impulsionar comércio e investimentos, com um pacote de medidas que, na visão europeia, tende a aumentar previsibilidade e competitividade entre os blocos.

Entre os pontos defendidos por Ursula durante o discurso, ela destacou que o acordo:

  • abre oportunidades comerciais e de compras públicas
  • reduz tarifas entre as regiões
  • traz regras mais claras, fortalecendo segurança jurídica e previsibilidade
  • estimula investimentos e parcerias de longo prazo
  • reforça a lógica de que “comércio justo” é preferível ao aumento de tarifas

Milei pede que a implementação preserve o “espírito” do acordo

O presidente argentino, Javier Milei, adotou um tom mais estratégico e ressaltou que o tratado pode ser um ponto de partida para novas oportunidades comerciais. Porém, fez um alerta: para ele, a etapa de implementação será determinante para o impacto real do acordo.

Milei defendeu que a estabilidade macroeconômica e previsibilidade jurídica são essenciais e argumentou que a eventual adoção de mecanismos restritivos, como cotas ou salvaguardas, pode reduzir o efeito econômico do tratado.

Uruguai classifica tratado como “associação estratégica” com oportunidades reais

O presidente uruguaio, Yamandú Orsi, descreveu o pacto como uma associação estratégica e afirmou que, em um cenário internacional marcado por instabilidade e tensões comerciais, o tratado ganha ainda mais peso por representar uma aposta nas regras e na previsibilidade.

Para Orsi, a integração comercial é, para o Uruguai, condição indispensável para o desenvolvimento, e o acordo também pode servir como plataforma para enfrentar desafios que ultrapassam fronteiras.

Brasil destaca peso geopolítico e promete ganhos econômicos concretos

Representando o Brasil, Mauro Vieira afirmou que o acordo é uma demonstração de força do mundo democrático e um avanço relevante para uma ordem internacional mais baseada em regras.

O ministro destacou que o tratado:

  • estabelece parceria com enorme potencial econômico
  • possui sentido geopolítico relevante
  • cria bases de integração para mais de 700 milhões de pessoas
  • pode gerar ganhos tangíveis, incluindo empregos, investimentos e inovação
  • amplia acesso a bens e serviços e fortalece integração produtiva

António Costa: “pode ter chegado tarde, mas chegou no momento oportuno”

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, reforçou o compromisso europeu com comércio livre baseado em regras e com o multilateralismo, defendendo que o tratado chega em momento oportuno diante do risco de isolamento econômico e do uso do comércio como ferramenta de pressão geopolítica.

Costa afirmou ainda que o acordo não pretende criar “esferas de influência”, mas sim “esferas de prosperidade compartilhada”, com cooperação, respeito à soberania e crescimento sustentável, incluindo proteção ambiental.

Próximo passo: ratificação nos parlamentos antes da entrada em vigor

Apesar da assinatura formal, o acordo ainda não entra automaticamente em vigor.

Para que o tratado passe a valer, será necessário:

  • ratificação pelo Parlamento Europeu
  • aprovação nos parlamentos nacionais dos países do Mercosul

O processo pode se estender por semanas ou meses, e a implementação deve ocorrer de forma gradual ao longo dos próximos anos, conforme previsto pelos blocos.

O que muda na prática: peso comercial, novas oportunidades e disputa de narrativas

Mesmo antes de entrar em vigor, a assinatura do acordo Mercosul–União Europeia já provoca repercussões no mercado e na política internacional por três razões principais:

1) Mercosul volta ao centro do comércio global
O tratado reforça a posição do bloco sul-americano como plataforma de exportação e integração econômica, especialmente em setores estratégicos.

2) União Europeia busca previsibilidade em cadeias e investimentos
A Europa sinaliza interesse em fortalecer parcerias e consolidar rotas comerciais em um ambiente global mais instável.

3) Acordo vira símbolo contra tarifas e protecionismo
O tom dos discursos foi claro ao defender comércio e regras internacionais como resposta a barreiras econômicas e tensões globais.

Mercosul e União Europeia assinam acordo: Tratado histórico, mas com caminho político pela frente

A assinatura do acordo Mercosul–União Europeia representa um dos movimentos diplomáticos e econômicos mais relevantes das últimas décadas para os dois blocos. Ao reunir um mercado potencial de mais de 700 milhões de consumidores, o tratado se consolida como ponte de integração comercial em um mundo cada vez mais pressionado por disputas tarifárias.

Ainda assim, a etapa decisiva começa agora: a ratificação legislativa e a implementação prática definirão se o pacto se tornará uma transformação estrutural no comércio entre América do Sul e Europa — ou se enfrentará resistências capazes de reduzir seu alcance real.

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