Pela primeira vez, as importações superaram as exportações brasileiras e passaram a representar 6,5% da produção mensal do país.
Minas Gerais registrou, pela primeira vez desde 1997, a importação de tilápia, mesmo em um cenário de forte expansão da piscicultura estadual. Em fevereiro de 2026, o estado importou 122 toneladas do Vietnã, segundo dados do ComexStat. É o primeiro registro desde o início da série histórica.
O movimento acompanha uma tendência nacional. No mesmo período, o Brasil importou mais de 1,3 mil toneladas de filé de tilápia do Vietnã, volume equivalente a cerca de 4,1 mil toneladas de peixe vivo, de acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária. Pela primeira vez, as importações superaram as exportações brasileiras e passaram a representar 6,5% da produção mensal do país.
Segundo a analista de agronegócios do Sistema Faemg Senar, Nathália Rabelo, o dado chama atenção porque Minas Gerais vem se consolidando como um dos principais polos da piscicultura brasileira, com crescimento acima da média nacional e expansão em regiões estratégicas, como Morada Nova de Minas, atualmente o maior município produtor de tilápia do Brasil.
“A importação não está relacionada à falta de oferta interna, mas a fatores econômicos e comerciais. O filé importado, principalmente do Vietnã, chega ao mercado com preços mais competitivos, resultado da produção em larga escala e dos custos menores no país asiático. O momento exige atenção, já que Minas vem ampliando sua participação na produção nacional de forma consistente, e a entrada de produto importado pode comprometer a competitividade da cadeia produtiva estadual”, explica a analista.
Produção cresce, mas importação avança
Apesar do avanço das importações, a produção de tilápia segue em crescimento. Segundo o IBGE, o Brasil produziu 442 mil toneladas em 2023 e avançou para 499 mil toneladas em 2024, alta de 12,8%. Em Minas Gerais, o crescimento foi ainda mais expressivo. A produção saltou de 45,5 mil toneladas em 2023 para 58,4 mil toneladas em 2024, aumento de 28%. Com isso, o estado passou a responder por cerca de 11,7% da produção nacional e ocupa a terceira posição no ranking brasileiro, atrás apenas do Paraná e de São Paulo.
Além do aumento de volume, Minas vem fortalecendo a estrutura da cadeia produtiva, com investimentos em tecnologia, genética, nutrição e processamento, ampliando o potencial de expansão da atividade.
“A importação de filé de tilápia do Vietnã não é uma preocupação futura, ela já está impactando o setor. Outros estados com forte produção, como Paraná, Santa Catarina e, mais recentemente, São Paulo, já adotaram medidas de proteção à cadeia produtiva local. Minas Gerais, que é um dos principais polos produtores do país e tem em Morada Nova de Minas a capital nacional da tilápia, precisa agir com a mesma urgência”, destaca o produtor Carlos Junior de Faria Ribeiro.
Ele destaca, a questão tributária como um dos pontos mais críticos. “O produtor e a indústria mineira pagam ICMS, enquanto o filé importado do Vietnã entra no estado sem essa mesma carga. Na prática, Minas Gerais acaba subsidiando o produtor estrangeiro, quando deveria fortalecer e proteger quem produz aqui, gera emprego e movimenta a economia local”, diz.
A sanidade da produção nacional também é considerada uma preocupação. A importação pode aumentar o risco de introdução de doenças exóticas, como o vírus da tilápia do lago (TiLV). O Brasil atualmente é considerado livre da enfermidade, e a eventual entrada do patógeno poderia gerar prejuízos significativos para a piscicultura.
Lista de espécie exótica gera apreensão
Outro tema que preocupa o setor é a possibilidade de a tilápia ser classificada como espécie exótica invasora no Brasil. Em 2025, a Comissão Nacional de Biodiversidade avançou na discussão, mas a elaboração da nova lista foi suspensa para reavaliação dos critérios.
Segundo o analista de Sustentabilidade do Sistema Faemg Senar, Guilherme Oliveira, caso a classificação avance, os produtores podem enfrentar aumento de custos, maior burocracia ambiental e insegurança jurídica.
“Uma eventual mudança regulatória pode travar investimentos em frigoríficos, laboratórios de genética e fábricas de ração, além de impactar diretamente milhares de produtores, especialmente pequenos e médios. Também há risco de perda de competitividade no mercado internacional, que é cada vez mais atento às questões ambientais”, explica.
Fonte: FAEMG Senar
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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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