Iniciativa premiada no Vale do Mucuri utiliza técnica de bordado Arpillera e fardas da PMMG para promover autonomia financeira e fortalecer o combate à violência contra a mulher no campo
O isolamento geográfico e o silêncio imposto pela distância dos centros urbanos deixaram de ser barreiras intransponíveis para a justiça no nordeste mineiro. Em uma iniciativa que une segurança pública e assistência social, Minas Gerais consolida o projeto Mulher Livre de Violência como referência nacional no combate à violência contra a mulher no campo. Sediado na comunidade rural do Cedro, em Teófilo Otoni, o programa transforma a vulnerabilidade em autonomia, enfrentando um dos maiores desafios do agronegócio familiar: a invisibilidade das agressões domésticas em áreas remotas.
Desde sua fundação em 2016, a iniciativa rompe o ciclo de abuso através de um modelo binário que foca tanto na psique quanto no bolso. O reconhecimento veio em 2019, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Pública premiou o projeto como uma das práticas mais inovadoras do país. Para a idealizadora, Juliana Lemes, a chave do sucesso reside em entender que a segurança da mulher rural depende diretamente de sua emancipação financeira e do acesso à informação qualificada.
A realidade da subnotificação e o combate à violência contra a mulher no campo
Um dos pilares fundamentais da matéria é enfrentar a subnotificação. No ambiente agrário, a falta de delegacias próximas e o receio de represálias em comunidades pequenas dificultam o registro de ocorrências. Por isso, o projeto atua preventivamente, levando o combate à violência contra a mulher no campo para dentro das rodas de conversa e intercâmbios comunitários.
Nesses encontros, as moradoras do Vale do Mucuri recebem orientações jurídicas sobre a Lei Maria da Penha e aprendem a identificar os primeiros sinais de um relacionamento abusivo, que muitas vezes começa com o controle psicológico e patrimonial. O objetivo é criar uma rede de vigilância comunitária, onde a informação circula de forma orgânica, fortalecendo a proteção de quem vive longe dos olhos das autoridades urbanas.
Arpillera
O diferencial técnico desta iniciativa mineira é a utilização da técnica Arpillera, um tipo de bordado de origem chilena historicamente ligado à resistência e denúncia social. Em um simbolismo potente, as mulheres utilizam como matéria-prima fardas descartadas pela Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). O tecido resistente, que outrora serviu à repressão do crime, ganha novas cores e contornos pelas mãos das artesãs rurais, transformando-se em bolsas, almofadas e acessórios de alto valor agregado.
Esta geração de renda é o “golpe de misericórdia” na violência doméstica. Ao comercializar suas peças, as participantes conquistam a independência econômica, o que permite que muitas abandonem lares abusivos sem o medo de não terem como sustentar seus filhos. A parceria institucional com a PMMG garante não apenas o insumo têxtil, mas também uma aproximação vital entre a força policial e as famílias rurais, desmistificando a figura do Estado.
Onde buscar ajuda no setor rural
A consolidação do projeto em Teófilo Otoni serve como um laboratório para outras regiões de Minas Gerais. O sucesso na integração entre academia, polícia e comunidade mostra que é possível reduzir índices criminais no campo com criatividade e baixo custo. Contudo, o suporte estatal permanece indispensável para casos agudos.
Para denúncias ou orientações imediatas, o canal oficial é a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180. Coordenado pelo Ministério das Mulheres, o serviço é gratuito, funciona 24 horas e é essencial para encaminhar vítimas em situação de risco para casas de acolhimento e unidades de saúde especializadas, garantindo que a lei seja cumprida mesmo nos rincões mais distantes do território mineiro.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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