Montar potro cedo demais pode “destruir” a coluna e comprometer toda a vida do cavalo

Prática ainda comum no campo, a montaria precoce expõe potros a sobrecargas que afetam coluna, articulações e comportamento, comprometendo o desenvolvimento e rendimento do potro no futuro.

A pressa em iniciar a doma montada de potros ainda jovens continua sendo um dos erros mais recorrentes na equinocultura, especialmente em sistemas produtivos que buscam acelerar resultados. No entanto, o avanço de estudos técnicos e a experiência prática de veterinários e treinadores reforçam um ponto essencial: o corpo do potro não está preparado para suportar carga antes de atingir determinado nível de maturidade física.

Embora muitos criadores iniciem o manejo desde cedo, é consenso que há uma diferença clara entre o trabalho de base — fundamental para a formação do animal — e o início da montaria. Quando essa linha é ultrapassada antes do tempo, as consequências podem ser graves e, em muitos casos, permanentes.

O desenvolvimento do cavalo é progressivo e complexo. Mesmo que o potro já apresente porte e altura próximos do adulto ainda jovem, isso não significa que sua estrutura esteja pronta.

As placas de crescimento ósseo (epífises), responsáveis pela formação completa do esqueleto, só se consolidam totalmente com o passar dos anos. Em muitos casos, esse processo se estende até os 5 ou 6 anos de idade, especialmente em animais de maior porte. Antes disso, ossos, articulações, tendões e ligamentos ainda estão em formação, o que torna o potro extremamente vulnerável ao impacto e à sobrecarga.

A introdução precoce da montaria pode gerar uma série de problemas estruturais e funcionais no cavalo. Entre os principais riscos, destacam-se:

Danos ao dorso e à coluna vertebral

O peso do cavaleiro exerce pressão direta sobre uma coluna ainda em desenvolvimento. Isso pode provocar deformações, como o chamado “dorso selado”, além de comprometer a região lombar e a biomecânica do animal.

Problemas articulares e tendíneos

O excesso de carga pode desencadear inflamações articulares, desgaste precoce e até deformações nos aprumos. Como resultado, o cavalo pode apresentar dificuldade de locomoção e menor rendimento atlético.

Lesões permanentes e claudicação crônica

A exposição contínua ao esforço antes da maturidade pode resultar em manqueiras irreversíveis, reduzindo drasticamente a vida útil do animal, especialmente em atividades esportivas ou de trabalho intenso.

Impactos no comportamento e na doma

Além dos danos físicos, o desconforto precoce pode gerar resistência ao treinamento. Os potros submetidos a esforço antes do tempo tendem a se tornar ariscos, tensos ou difíceis de manejar, o que compromete todo o processo de doma futura.

Apesar de existirem variações conforme raça, manejo e objetivo do animal, há um alinhamento entre especialistas sobre uma faixa segura para início da montaria.

Montar potro cedo demais pode destruir a coluna e comprometer toda a vida do cavalo
Elaborado pelo autor. Marcella Frade

De forma geral:

  • Até 18 meses: fase exclusiva de crescimento — evitar esforço físico intenso
  • Entre 2 e 3 anos: período delicado, ideal para trabalho de chão e adaptação à sela
  • A partir de 2,5 a 3 anos: início possível da montaria leve, com cautela
  • Entre 3 e 4 anos: fase mais segura para trabalho montado regular

Segundo especialistas, muitos treinadores preferem iniciar a montaria apenas após os 2 anos e meio, quando há melhor desenvolvimento muscular e estrutural. Ainda assim, a recomendação é clara: o critério não deve ser apenas a idade, mas o nível de maturidade física individual do animal.

Em algumas raças, como o Quarto de Milha, a pressão por desempenho leva ao início mais precoce da doma montada. Isso ocorre principalmente por conta de provas que exigem animais prontos aos 4 anos.

Mesmo nesses casos, especialistas alertam que o trabalho deve ser extremamente leve, progressivo e controlado, priorizando a adaptação do potro, e não o desempenho imediato.

Antes de qualquer carga, o potro deve passar por um processo sólido de formação básica. A chamada doma de chão inclui:

  • Cabresteamento
  • Condução
  • Resposta a comandos
  • Adaptação à sela
  • Trabalho na guia

Esse período é fundamental para preparar o animal mentalmente e reduzir riscos futuros. Além disso, melhora o relacionamento com o treinador e facilita a transição para o trabalho montado.

A equação é simples, mas muitas vezes ignorada: quanto mais cedo se força o potro, menor tende a ser sua vida útil produtiva.

Animais submetidos a treinamento precoce intenso apresentam maior incidência de lesões, aposentadoria antecipada e baixo desempenho ao longo da vida.

Por outro lado, cavalos que respeitam seu ciclo natural de desenvolvimento tendem a apresentar:

  • Melhor desempenho atlético
  • Maior resistência física
  • Menor incidência de lesões
  • Comportamento mais equilibrado

No fim das contas, a pressa pode custar caro. Respeitar o tempo de maturação não é atraso — é estratégia para formar um potro mais saudável, funcional e duradouro.

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