Religioso e militante histórico da luta camponesa, Frei Sérgio Görgen teve atuação marcante na defesa da agricultura familiar, da reforma agrária e das políticas voltadas ao campo – responsável por ser o fundador do MST
O fundador do MST e do PT, Frei Sérgio Antônio Görgen, um dos principais nomes ligados à organização dos movimentos sociais rurais no Brasil, morreu na manhã desta terça-feira (3), aos 70 anos. O religioso faleceu em sua casa, localizada no Assentamento Conquista da Fronteira, na Região da Campanha do Rio Grande do Sul — área simbólica para sua trajetória de vida e militância.
Reconhecido como fundador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e também do Partido dos Trabalhadores (PT), Görgen construiu uma carreira que transitou entre a fé, a política e a defesa dos trabalhadores do campo. Além disso, atuou como deputado estadual pelo Rio Grande do Sul entre 2002 e 2006.
Trajetória marcada pela fé e pela luta social
Nascido no Rio Grande do Sul, Frei Sérgio ingressou ainda jovem na Ordem dos Frades Menores e teve sua formação profundamente influenciada pela Teologia da Libertação, corrente que associa a prática religiosa à justiça social e ao combate às desigualdades.
Ao longo das décadas, tornou-se um dos principais formuladores de estratégias ligadas à luta pela terra, à soberania alimentar e à valorização da agricultura camponesa como modelo de desenvolvimento rural. Também foi dirigente histórico do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), reforçando sua atuação junto às bases produtivas familiares.
Sua entrada na política institucional ocorreu em 2000, quando se filiou ao PT e foi eleito deputado estadual. No Parlamento, priorizou pautas como o direito à terra, o enfrentamento à fome e a criação de políticas públicas voltadas ao campo. Em diferentes momentos, utilizou greves de fome como forma de protesto e mobilização social.
Fundador do MST: Legado para a agricultura familiar e os movimentos sociais
O MPA destacou que Frei Sérgio foi “mais do que um dirigente; foi um pastor que escolheu o ‘cheiro das ovelhas’ e o barro das trincheiras”, ressaltando que seu legado de soberania alimentar e dignidade camponesa deve permanecer como referência.
O PT, por sua vez, afirmou que o religioso representou uma liderança incansável no combate à fome e na defesa da agricultura camponesa, descrevendo sua trajetória como marcada pela fé, coragem e compromisso com um país mais justo.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também reconheceu o trabalho do frei em favor dos pequenos produtores e da redução das desigualdades, destacando sua contribuição para um desenvolvimento considerado mais sustentável.
Apoio espiritual a Lula e repercussão da morte
A morte do religioso gerou ampla repercussão entre lideranças políticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou estar “muito triste com a partida de meu grande amigo” e relembrou que a fé e as palavras de Frei Sérgio o ajudaram a enfrentar os momentos difíceis durante o período em que esteve preso em Curitiba.
Segundo Lula, o frade carregava uma “história de vida exemplar”, marcada por luta e sacrifícios pessoais — incluindo greves de fome — em defesa dos direitos de quem vive da agricultura familiar.
Outras autoridades também prestaram homenagens. O senador Fabiano Contarato afirmou que o país “perde um gigante da luta popular”, enquanto o deputado Glauber Braga recordou orientações recebidas do frei durante um movimento de greve de fome no Congresso.
Velório e despedidas
Os atos de despedida tiveram início no próprio assentamento onde Frei Sérgio vivia e seguiram para o Salão Paroquial de Candiota, com missa celebrada pelo bispo Dom Frei Cleonir Dal Bosco. O sepultamento está previsto para ocorrer no Convento São Boaventura, no distrito de Daltro Filho, em Imigrante (RS), no cemitério dos freis.
Em comunicado nas redes sociais, o perfil oficial do religioso afirmou a convicção de que o frade “já está junto de Deus, olhando e intercedendo por todos”.
Uma vida dedicada ao campo e à justiça social
Militante histórico da causa camponesa, o fundador do MST Frei Sérgio Görgen deixa um legado diretamente ligado às transformações do debate agrário brasileiro nas últimas décadas. Sua atuação ajudou a moldar discussões sobre reforma agrária, agricultura familiar e soberania alimentar, temas que seguem centrais no cenário rural do país.
Sua morte encerra a trajetória de uma liderança que uniu religião, política e mobilização social — e cuja influência permanece presente nas organizações e movimentos que ajudou a construir.
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