Movimento realiza 11 ocupações em 6 estador no chamado “Abril Vermelho” e cobra agilidade do governo no assentamento de 100 mil famílias acampadas no País.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) intensificou suas ações em todo o País com a invasão de 11 propriedades rurais entre os dias 5 e 6 de abril, abrangendo os estados de Minas Gerais, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e São Paulo. As ocupações integram a jornada nacional conhecida como “Abril Vermelho”, em defesa da reforma agrária.
As ações mais recentes evidenciam a insatisfação do movimento com o ritmo do governo federal na condução da política agrária. Em carta aberta publicada em janeiro, o MST cobrou o assentamento imediato de 100 mil famílias que ainda vivem acampadas, em situação precária, espalhadas pelo Brasil.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, que tem sido o principal interlocutor do governo junto ao MST, afirmou no sábado (6) que sua pasta está empenhada em retomar políticas de reforma agrária paralisadas durante o governo anterior. A declaração foi feita durante a inauguração do Assentamento Egídio Brunetto I, em São Paulo.
Na ocasião, Teixeira afirmou que o governo Lula deverá encerrar o mandato com 60 mil famílias assentadas. A secretária-executiva do ministério, Fernanda Machiavelli, reforçou a meta de assentar 29 mil famílias até o fim de 2025, número que, segundo ela, não era alcançado desde 1998. “Estamos falando de uma retomada radical da reforma agrária”, declarou Machiavelli.
Apesar das promessas, a lentidão do processo tem provocado tensão dentro do próprio movimento. Líderes do MST já expressaram publicamente descontentamento com Paulo Teixeira, cobrando sua substituição por um nome mais alinhado às demandas dos sem-terra. Sua permanência na pasta é incerta diante da possível reforma ministerial prevista para os próximos meses.
Entre as propriedades invadidas, a Usina São José, localizada em Rio das Pedras (SP), foi um dos alvos. Segundo o MST, o local está envolvido em um crime ambiental ocorrido em 2014, que resultou na morte de 250 mil peixes — episódio que, segundo o movimento, até hoje não teve as devidas punições ou compensações.
Outra ocupação de destaque aconteceu no município de Frei Inocêncio, em Minas Gerais, onde mais de 600 famílias ocuparam uma fazenda localizada às margens da BR-116. O grupo reivindica a desapropriação da Fazenda Rancho Grande para fins de reforma agrária.
Em março deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou pela primeira vez, em seu atual mandato, o acampamento Quilombo Campo Grande, em Campo do Meio (MG). O gesto teve forte simbolismo político, reforçando a histórica ligação entre o MST e o governo petista. Na ocasião, Lula afirmou que “tem lado” e que “não esquece quem são seus amigos”, em referência ao movimento.
Durante a visita, o presidente anunciou a destinação de 12.297 lotes para famílias acampadas em 138 assentamentos e prometeu a liberação de recursos. A medida foi recebida como avanço, mas a demora na execução prática dessas ações tem gerado desconfiança entre os militantes.
Abril Vermelho
As mobilizações de abril têm como pano de fundo o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1996, no Pará, quando 21 trabalhadores rurais foram mortos pela Polícia Militar durante uma manifestação por reforma agrária. Desde então, o mês se tornou símbolo de luta e resistência para o MST, que costuma organizar ocupações e protestos em todo o território nacional.
Com a realização das novas invasões, o movimento busca reacender o debate sobre a concentração fundiária no Brasil, apontando que milhões de hectares permanecem improdutivos enquanto milhares de famílias vivem em condições precárias, à espera da regularização fundiária e do direito à terra para produzir.
A sequência de ocupações coloca pressão direta sobre o governo federal, que já vinha sofrendo críticas pela lentidão no setor. Além das metas anunciadas, o Planalto ainda precisa enfrentar o desafio de reconstruir a confiança junto ao MST e outros movimentos sociais ligados à reforma agrária.
Nos bastidores, a permanência de Paulo Teixeira no Ministério do Desenvolvimento Agrário é vista como um teste de fidelidade e resposta política às bases do governo, que esperam ações mais enérgicas em favor das populações do campo.
Enquanto isso, o “Abril Vermelho” de 2025 segue em curso, e novas ocupações e manifestações não estão descartadas. O MST promete manter a mobilização ativa até que suas principais demandas sejam atendidas.
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