Entidade classifica medida europeia como discriminatória, acusa protecionismo comercial e afirma que decisão – veto europeu à carne brasileira – ameaça a competitividade do agronegócio brasileiro após 25 anos de negociações entre Mercosul e UE.
A decisão da União Europeia de barrar, a partir de setembro, a importação de carnes, mel e outros subprodutos de origem animal do Brasil segue provocando forte reação no setor agropecuário. Neste sábado (6), a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) divulgou uma nota pública condenando a medida e cobrando uma postura mais firme do governo federal diante do que considera uma ação unilateral e sem embasamento técnico.
Para a entidade, a restrição representa um retrocesso nas relações comerciais entre Mercosul e União Europeia, especialmente após mais de duas décadas de negociações e alinhamentos entre os blocos. A Faesp argumenta que as novas exigências surgem de forma arbitrária e configuram uma barreira comercial disfarçada de preocupação sanitária.
Faesp fala em discriminação contra o agro brasileiro
Na nota assinada pelo presidente da entidade, Tirso Meirelles, a Faesp afirma que a medida europeia é “absolutamente desnecessária, desleal e flagrantemente discriminatória”.
Segundo a federação, o argumento utilizado pela União Europeia, relacionado ao uso de antibióticos e produtos veterinários na produção animal, não se sustenta tecnicamente. A entidade destaca que países concorrentes do Brasil, como Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia, utilizam os mesmos produtos e não foram alvo de restrições semelhantes.
“Essa disparidade de tratamento escancara um protecionismo comercial unilateral direcionado especificamente para tentar frear a nossa competitividade”, afirmou a Faesp.
Sanidade do rebanho brasileiro é usada como argumento de defesa quanto ao veto europeu à carne brasileira
Outro ponto destacado pela entidade é o histórico sanitário da pecuária nacional. A Faesp sustenta que o Brasil possui um dos sistemas sanitários mais reconhecidos do mundo e lembra que o país nunca registrou casos clássicos de Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), popularmente conhecida como “vaca louca”.
Para a federação, a excelência sanitária da produção brasileira é amplamente reconhecida pelos mercados internacionais e não justificaria a adoção de novas barreiras comerciais.
Pressão por reação diplomática
A entidade também elevou o tom ao cobrar uma resposta mais contundente da diplomacia brasileira.
De acordo com Tirso Meirelles, o Brasil não pode aceitar passivamente medidas que afetem sua reputação internacional e prejudiquem um dos setores mais importantes da economia nacional. A Faesp defende ações mais firmes na defesa comercial do país e reforça a necessidade de garantir segurança jurídica aos produtores rurais.
“O setor produtivo precisa urgentemente de segurança jurídica e respeito às regras e políticas claras de defesa comercial”, destacou o presidente da entidade.
Mercosul deve atuar de forma unificada
A federação também pediu maior alinhamento entre os países do Mercosul diante da decisão europeia.
Segundo a nota, Argentina, Uruguai e Brasil precisam construir uma posição conjunta para enfrentar o que a entidade considera uma afronta comercial ao bloco. A avaliação é que as negociações globais estão cada vez mais concentradas em blocos econômicos, tornando fundamental uma atuação coordenada.
“Não permitiremos que nos dividam para nos enfraquecer; o bloco precisa responder à altura dessa afronta”, afirmou a Faesp.
Impacto pode atingir setores estratégicos do agro
Embora a carne bovina esteja no centro das discussões, a medida europeia também atinge o mel brasileiro e outros produtos de origem animal, ampliando as preocupações do setor exportador.
A União Europeia continua sendo um mercado estratégico para diversos segmentos do agronegócio nacional. Por isso, lideranças do setor avaliam que a decisão pode abrir um precedente preocupante para futuras restrições comerciais e aumentar a insegurança nas negociações entre os blocos.
Enquanto o governo brasileiro busca alternativas diplomáticas para reverter a situação, entidades representativas do agro intensificam a pressão por uma resposta institucional que preserve a competitividade da produção nacional e a credibilidade sanitária construída ao longo das últimas décadas.
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