Criado há milênios e resultado de décadas de melhoramento genético, o Hanwoo combina marmoreio elevado, rastreabilidade rigorosa e produção limitada — fatores que transformaram a carne em um dos produtos bovinos mais exclusivos do mundo e despertam o interesse crescente do mercado internacional.
A crescente valorização das carnes bovinas premium tem redesenhado o mapa da pecuária mundial, abrindo espaço para raças menos conhecidas fora de seus países de origem, mas extremamente prestigiadas localmente. Entre elas está o Hanwoo, bovino nativo da Coreia que vem ganhando notoriedade por reunir marmoreio elevado, textura macia e sabor marcante, características que o colocam lado a lado com as proteínas mais caras do planeta.
Considerada um verdadeiro patrimônio cultural coreano, a carne Hanwoo combina tradição milenar com tecnologia moderna de produção. Ainda que seja amplamente consumida no mercado doméstico, sua presença internacional permanece restrita — um cenário que começa a mudar lentamente à medida que consumidores globais passam a buscar experiências gastronômicas exclusivas.
Os primeiros registros do Hanwoo datam de aproximadamente 2.000 a.C., indicando uma convivência de cerca de 5 mil anos com as populações da Península Coreana. Durante grande parte desse período, os animais foram utilizados principalmente como força de trabalho na agricultura.
Questões religiosas e políticas limitaram por séculos o consumo de carne bovina, fazendo com que o abate fosse incomum. Essa condição ajudou a preservar a raça e moldar sua importância histórica.
A virada ocorreu a partir da década de 1960, quando o rápido crescimento econômico da Coreia impulsionou mudanças nos hábitos alimentares e estimulou a seleção do Hanwoo para produção de carne. Desde então, programas de melhoramento genético transformaram o bovino em um dos pilares da nutrição do país.
Hoje, a carne não é apenas um alimento — é vista como uma iguaria nacional altamente valorizada pelos consumidores, associada a qualidade e status.

Embora a origem exata do Hanwoo ainda seja debatida, estudos sugerem que seus ancestrais podem ter migrado para a península vindos da África, do Oriente Médio ou do norte da China e da Manchúria. Ao longo do tempo, intercâmbios regionais favoreceram cruzamentos com bovinos chineses e japoneses, contribuindo para a diversidade genética.
A raça é classificada em quatro cores principais:
- marrom-amarelada
- preta
- branca
- malhada
Entretanto, mais de 90% dos animais apresentam pelagem marrom-amarelada, hoje considerada característica predominante.
Desde os anos 1980, pesquisadores concentram esforços em três objetivos centrais:
- elevar o marmoreio
- intensificar sabor e aroma
- aumentar a produtividade
O resultado é uma carne reconhecida pelo equilíbrio entre gordura e proteína.
O Hanwoo foi geneticamente direcionado para apresentar altos índices de gordura intramuscular, fator determinante para maciez e suculência. Além disso, a carne possui teor relevante de ácido oleico, associado a melhor palatabilidade.

Outras raças coreanas, como o gado preto de Jeju e o Heukwoo, podem apresentar níveis ainda maiores desse composto e de aminoácidos — o que indica potencial para sabores ainda mais complexos —, mas o Hanwoo permanece como principal referência comercial.
Essa combinação garante um produto frequentemente descrito como intenso, aromático e profundamente “carnudo”.
Comparações com o Wagyu japonês são inevitáveis no universo das carnes de luxo. Há inclusive teorias de que o Wagyu tenha ancestralidade ligada ao Hanwoo, o que explicaria algumas semelhanças sensoriais.
A principal diferença está na proporção de gordura.
- Um bife Wagyu pode atingir cerca de 70% de gordura
- Já o Hanwoo costuma variar entre 40% e 50%, mantendo maior presença de proteína
Na prática, isso significa uma carne menos untuosa, com textura mais firme e sabor bovino mais evidente. O Hanwoo costuma agradar consumidores que buscam equilíbrio — algo menos gorduroso que o Wagyu, mas mais macio que a carne tradicional.
A carne segue um sistema de qualidade que varia de 1++ a 3, sendo o nível 1++ o mais valorizado, graças ao grau extremo de marmoreio.

Trata-se de um produto claramente posicionado no segmento premium. Em média, 100 gramas podem custar cerca de US$ 8, frequentemente superando outras carnes nobres.
Os preços elevados refletem fatores estruturais:
- produção limitada
- longo ciclo de melhoramento genético
- manejo altamente controlado
- forte demanda doméstica
A Coreia adota um modelo produtivo que prioriza controle absoluto da cadeia. Cada bovino possui um identificador eletrônico individual, conectado a um banco de dados nacional que reúne informações como histórico sanitário, vacinação e tratamentos.
O objetivo é garantir transparência e elevar a confiança do consumidor — um requisito essencial no mercado premium.
A alimentação também desempenha papel decisivo. O rebanho recebe dietas específicas à base de grãos para estimular o marmoreio. Em alguns sistemas, a ração é enriquecida com cerveja, prática associada à manutenção da suculência.
Há ainda diferenças em relação ao Wagyu:
- Wagyu consome maior volume de milho
- Hanwoo recebe maior proporção de aveia
Mais do que uma proteína animal, o Hanwoo representa orgulho nacional. A carne é protagonista em celebrações e amplamente utilizada no tradicional Korean BBQ (KBBQ).
Cortes nobres, como o contrafilé, estão entre os mais procurados, mas a carne também aparece em sopas e pratos típicos que valorizam sua profundidade de sabor.
A preferência por frescor e qualidade faz com que consumidores coreanos aceitem pagar preços elevados, mantendo a demanda interna aquecida.
Apesar do prestígio, a carne Hanwoo permanece relativamente desconhecida fora da Ásia. O principal motivo é simples: quase toda a produção é absorvida pelo mercado interno.
A abertura recente de mercados como Hong Kong sinaliza uma possível internacionalização, mas ainda em ritmo cauteloso.
A consistência genética necessária para atingir os padrões premium ajuda a explicar essa limitação. O desenvolvimento de animais com marmoreio uniforme pode levar de cinco a dez gerações — algo entre 15 e 30 anos — tornando a expansão rápida praticamente inviável.
Mesmo com atributos competitivos, alguns obstáculos ainda restringem a presença internacional do Hanwoo:

- custos elevados de produção
- volume reduzido
- necessidade de estratégias de marca
- adaptação ao paladar de outros países
Além disso, como a seleção genética foi moldada pelas preferências coreanas, especialistas defendem novas pesquisas para medir a aceitação em grandes mercados consumidores.
O Hanwoo reúne características que o colocam entre as proteínas mais sofisticadas do mundo. Raridade, tradição, rastreabilidade e qualidade sensorial formam um pacote altamente valorizado em um mercado cada vez mais orientado por diferenciação.
Se conseguir superar as barreiras de escala e posicionamento internacional, a raça tem potencial para disputar espaço direto com outras carnes de luxo — consolidando a Coreia não apenas como grande consumidora, mas também como referência global em bovinocultura premium.
Por enquanto, o Hanwoo permanece como um tesouro gastronômico relativamente restrito ao seu país de origem — um lembrete de que, na pecuária moderna, valor não depende apenas de quantidade, mas de história, genética e experiência no prato.
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