Nova tarifa de Trump contra o Irã coloca exportações brasileiras em alerta

A medida anunciada por Donald Trump reacende as tensões entre EUA e Irã e coloca o Brasil diante de um dilema comercial, com riscos diretos para o agronegócio e para exportações estratégicas como milho e soja

O anúncio feito na segunda-feira (12) pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de uma tarifa de 25% sobre todo o comércio de países que mantiverem relações econômicas com a República Islâmica do Irã, já entra na agenda de impacto econômico global — e exige atenção especial do Brasil.

A nova medida, divulgada via rede social oficial da Casa Branca, insere barreiras comerciais adicionais em um momento de tensões geopolíticas crescentes entre Washington e Teerã, marcadas por confrontos militares, protestos internos no Irã e um histórico de sanções norte-americanas ao regime iraniano.

A administração Trump apresenta a tarifa como uma forma de pressionar o governo de Teerã e seus aliados econômicos, embora o anúncio ainda careça de documentos formais e clareza jurídica completa.

O relacionamento entre os Estados Unidos e o Irã há décadas é marcado por sanções, disputas diplomáticas e rivalidades geopolíticas no Oriente Médio. Desde a revolução islâmica de 1979, Teerã tem sido alvo de políticas punitivas norte-americanas, ampliadas em especial após o abandono do acordo nuclear de 2015 por Washington em 2018 e intensificadas por confrontos que incluem ataques a instalações militares e tensões com aliados regionais dos EUA.

A nova tarifa de 25% se insere nesse quadro de tentativa de isolar economicamente o Irã e de forçar mudanças políticas em Teerã, ao mesmo tempo em que representa um instrumento de pressão sobre terceiros países que mantêm fluxos comerciais com a República Islâmica.

Em termos absolutos, o valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos em 2025 foi substancialmente maior do que para o Irã: segundo dados oficiais da balança comercial, o Brasil exportou cerca de US$ 37,7 bilhões para os EUA ao longo de 2025, sendo o segundo maior mercado comprador do país, atrás apenas da China. Em comparação, as vendas brasileiras ao Irã somaram aproximadamente US$ 2,9 bilhões no mesmo ano, com destaque para produtos do agronegócio como milho e soja.

Esse contraste evidencia que, apesar de o Irã ser um parceiro comercial relevante em determinados segmentos, o mercado norte-americano representa um volume de exportações mais de dez vezes maior, realçando o impacto potencial de medidas tarifárias dos EUA sobre o comércio brasileiro.

O Brasil e sua relação comercial com o Irã

Apesar de representar uma parcela pequena do total de exportações brasileiras — cerca de 0,84% — o comércio com o Irã foi expressivo em 2025, totalizando quase US$ 3 bilhões em transações bilaterais. No ano passado, o Brasil exportou US$ 2,9 bilhões em bens para Teerã e importou aproximadamente US$ 84,6 milhões, resultando em um superávit de cerca de US$ 2,8 bilhões.

O agronegócio lidera essa relação:

  • Milho foi o principal item exportado, respondendo por 67,9% das vendas brasileiras ao Irã, com mais de US$ 1,9 bilhão em receita.
  • Soja representou cerca de 19,3%, com aproximadamente US$ 563 milhões exportados.
    Outros produtos vendidos ao mercado iraniano incluíram açúcares e confeitos, farelos de soja para alimentação animal e petróleo.

Já as importações brasileiras do Irã, embora modestas, trouxeram principalmente adubos e fertilizantes, que representaram cerca de 79% do total, além de frutas, pistache e uvas secas.

Impactos potenciais da tarifa dos EUA

A nova política tarifária dos Estados Unidos cria um ambiente de incerteza para o comércio exterior brasileiro, ainda que o Brasil não seja um dos maiores parceiros comerciais do Irã. Os setores que mais se beneficiaram do fluxo comercial com Teerã — sobretudo o agronegócio, liderado por milho e soja — agora enfrent um dilema: manter ou ampliar esses mercados sob o risco de pagar tarifas punitivas adicionais de 25% nas exportações brasileiras para os EUA.

Embora os dados mostrem que o Brasil tem conseguido manter forte desempenho comercial — encerrando 2025 com recorde de US$ 349 bilhões em exportações totais e superávit de US$ 68,3 bilhões — as medidas tarifárias americanas podem pressionar exportadores em vários setores, não apenas os ligados ao Irã, devido à potencial aplicação automática da tarifa se o critério definido por Washington for confirmado.

Economistas e autoridades brasileiras, além de avaliadores do setor privado, deverão analisar opções de resposta diplomática e comercial, que podem incluir a diversificação de destinos de exportação (especialmente para Ásia, Europa e outros países do Oriente Médio), bem como a negociação de isenções específicas ou mecanismos de salvaguarda junto aos EUA.

Cenário futuro e ajustes estratégicos

O governo brasileiro já manifestou cautela e informou que aguarda a formalização da ordem executiva americana para emitir uma posição oficial. A dependência parcial do agronegócio em negócios com o Irã — e, de forma mais ampla, a tentativa de manter mercados consumidores alternativos — será central na estratégia externa do país diante de um ambiente global de crescente protecionismo.

O desenvolvimento de cadeias de valor mais resilientes, a ampliação de acordos comerciais bilaterais e plurilaterais, e a intensificação de iniciativas dentro de blocos como o BRICS podem ser alternativas estratégicas para mitigar os efeitos de políticas tarifárias externas e preservar o dinamismo das exportações brasileiras em setores-chave.

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