Enquanto o boi brasileiro consolida sua soberania global em volume e sustentabilidade, os Estados Unidos seguem dominando o mercado de alto valor agregado com marmoreio e padronização; entenda os fatores técnicos e econômicos que mantêm a carne americana no topo dos preços mundiais
O Brasil é, indiscutivelmente, o “dono do pasto” global. Com o maior rebanho comercial do planeta e exportações que atropelam recordes mês após mês, o boi brasileiro é a base da segurança alimentar mundial.
No entanto, uma pergunta ecoa nos currais e nas mesas de negociação: se o nosso produto é tão competitivo, por que a carcaça americana alcança prêmios de preço que chegam a dobrar o valor da nossa arroba? A resposta passa por genética, nutrição estratégica e um sistema de classificação que o mercado internacional paga caro para acessar.
A força do boi brasileiro
A soberania do boi brasileiro reside na eficiência “dentro da porteira”. Enquanto o mundo discute sustentabilidade, o pecuarista brasileiro já entrega a chamada “carne verde”. Segundo dados da ABIEC, o Brasil exporta para mais de 150 países, consolidando-se como o maior player de volume.
A predominância da genética Nelore (Bos indicus) confere ao nosso rebanho uma rusticidade única, capaz de converter pasto em proteína sob sol escaldante. Contudo, essa mesma genética, focada em carne magra, enfrenta um desafio comercial frente aos mercados que idolatram o marmoreio — a gordura intramuscular que é a assinatura da pecuária dos Estados Unidos.
Por que o preço americano é “outro patamar”?
Para entender a valorização do concorrente, é preciso olhar para o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). Lá, o jogo é de valor agregado, não apenas de tonelagem.
- Marmoreio e Genética Taurina: O rebanho americano é composto por raças como Angus e Hereford, terminadas com dietas pesadas de grãos (milho e soja). O resultado é uma carne com alto grau de deposição de gordura, classificada como Prime ou Choice.
- Padronização Cirúrgica: O sistema de classificação americano garante ao comprador que cada corte será idêntico ao anterior. No Brasil, embora o boi brasileiro tenha evoluído absurdamente com o cruzamento industrial, ainda falta uma padronização nacional unificada que bonifique o produtor de forma homogênea pela qualidade da gordura.
- Escassez e Ciclo Pecuário: Atualmente, os EUA vivem o menor rebanho das últimas sete décadas. Segundo o CME Group (Bolsa de Chicago), a baixa oferta de animais prontos para o abate elevou a arroba americana a níveis históricos, enquanto o Brasil atravessa um momento de maior oferta interna e ajuste de ciclo.
A barreira dos mercados de elite
Um ponto crucial que o produtor precisa saber: os EUA dominam os mercados que pagam os maiores prêmios, como Japão e Coreia do Sul. O boi brasileiro, embora líder na China, ainda enfrenta barreiras tarifárias e sanitárias para acessar esses nichos de altíssimo valor. É uma questão de geopolítica aliada à sanidade.
Entretanto, o cenário está mudando. O avanço do confinamento no Brasil, que deve superar os 7 milhões de cabeças, e o uso de tecnologias de precisão mostram que o boi brasileiro está deixando de ser apenas uma commodity para se tornar um artigo de luxo.
Quem é o melhor?
Se “melhor” significa eficiência produtiva, sustentabilidade e menor custo, o boi brasileiro ganha de goleada. Mas, se o critério for a capacidade de extrair o máximo de dólares por cada quilo de carne, os americanos ainda ditam as regras. O desafio para a pecuária nacional nos próximos anos é unir a sustentabilidade do nosso pasto com a padronização genética exigida pelos mercados premium.
Escrito por Compre Rural
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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