À frente da AGBI, Luciano Lewandowski aplica a engenharia financeira da Faria Lima no interior do país, transformando pastos improdutivos em lavouras de alta performance por meio de um modelo exclusivo de equity que atrai o investidor institucional
Luciano Lewandowski já esteve no topo do mundo corporativo, gerindo grandes volumes de capital em escritórios climatizados e reuniões de alta cúpula. No entanto, o economista percebeu que a maior oportunidade de lucro do Brasil não estava no asfalto, mas no solo exaurido do interior.
Ao fundar a AGBI, ele consolidou uma tese que parece simples no papel, mas é complexa na execução: comprar fazendas degradadas, aplicar uma engenharia financeira rigorosa e transformar pastos improdutivos em lavouras de alta performance. Com um histórico comprovado de três fazendas adquiridas, totalmente recuperadas e vendidas com lucro integralmente distribuído aos cotistas, ele prova que o lucro real no agro moderno nasce da união entre a botina suja de terra e a planilha de Excel milimetricamente calculada. Essa consolidação fica clara no ritmo de crescimento da gestora: se entre 2013 e 2017 foram necessários quatro anos para captar R$ 60 milhões em seus dois primeiros veículos, o recém-lançado Fundo IV levantou os mesmos R$ 60 milhões em apenas duas semanas , refletindo a maturidade de um modelo focado no verdadeiro valor de equity da terra.
Por que comprar fazendas degradadas virou um negócio bilionário?
O Brasil possui cerca de 100 milhões de hectares de pastagens com algum grau de degradação. Para Lewandowski, esses números não representam um problema ambiental, mas uma oportunidade de arbitragem. A lógica é a mesma do mercado imobiliário: comprar o prédio caindo aos pedaços na melhor localização da cidade, reformar e vender com ágio. Na visão do executivo, o conceito em si não é novo, pois o bom produtor sempre esteve atento a essa dinâmica de recuperar o solo para ganhar produção ; a grande novidade é o cruzamento definitivo do mercado de terras com o mercado financeiro.
No campo, a localização é o clima e a logística. A AGBI busca áreas onde o gado já não engorda mais e o solo está quimicamente pobre. Segundo reportagens da Exame Agro e Forbes, a estratégia de comprar fazendas degradadas permite adquirir o hectare por um preço de “pecuária” e, após dois ou três anos de correções intensivas com calcário e gesso, revendê-lo pelo preço de “soja”. Essa valorização bruta pode chegar a 400% ou 500%, uma rentabilidade raramente vista em ativos de renda fixa ou ações tradicionais. No cenário atual de curto prazo, o estresse financeiro de produtores endividados e pressionados pelo custo operacional elevado abre janelas ideais para essa reciclagem de capital , permitindo que quem está capitalizado compre na baixa do ciclo para extrair o máximo de retorno na retomada de alta do mercado. Quem vende esses ativos degradados pode utilizar o recurso para quitar débitos ou financiar a produção na parcela produtiva que restou.
De veterano da Faria Lima à liderança do “Value-Add” rural
A bagagem de Luciano Lewandowski é pesada. Com passagens por Rio Bravo e GP Investimentos, e como co-fundador da Prosperitas, ele trouxe para o agronegócio o conceito de Value-Add. Na AGBI, ele não quer apenas ser um dono de terras; ele quer ser um desenvolvedor de ativos. Um dos grandes diferenciais da casa no mercado de terras agrícolas é o foco estrito em equity (patrimônio próprio) e não em linhas tradicionais de crédito ou dívida, tendo a aquisição direta do imóvel como o coração da estratégia.
O diferencial da gestora, destacado pelo portal NeoFeed, é a “limpeza” completa do ativo. Antes mesmo do primeiro trator entrar na área, a equipe jurídica realiza um due diligence implacável. No Brasil, comprar terra é fácil; comprar terra com documentação 100% regularizada e sem passivos ambientais é o que separa os amadores dos bilionários. Ao comprar fazendas degradadas, a AGBI entrega ao comprador final um ativo “plug-and-play”, pronto para produzir e com risco jurídico zero. Essa solidez por trás do lastro real em terra funciona como uma blindagem patrimonial e uma importante reserva de valor para o investidor frente a instabilidades políticas ou crises em ativos puramente financeiros.
Transformando o passivo em ouro verde
A operação não é apenas financeira, é intensamente técnica. O processo de recuperação envolve:
- Aquisição Estratégica: Foco em produtores pressionados pelo endividamento, herdeiros descapitalizados ou pecuaristas em crise. A escolha passa por um filtro rigoroso: embora a gestora mantenha um banco de dados com mais de 14 milhões de hectares mapeados no Brasil, a operação atual concentra-se em 13.451 hectares sob gestão distribuídos em três fazendas estratégicas no Mato Grosso.
- Recuperação Química: Aplicação massiva de insumos para devolver a fertilidade ao solo.
- Conversão de Cultura: Transição da pastagem rala para o plantio de soja e milho, muitas vezes utilizando o sistema de integração lavoura-pecuária (ILP). Desde a associação com o Grupo Innovatech, a abordagem tornou-se holística, unindo o potencial de grãos ao manejo florestal e de sustentabilidade. Por meio das empresas Novarbor e ESG Tech, o grupo gerencia mais de 200 mil hectares de florestas sob gestão em sete estados e no mercado internacional.
- Maturação e Saída: Após a terra atingir o pico de produtividade, o fundo realiza o desinvestimento. Conforme previsto pelo Estatuto da Terra, os arrendatários parceiros têm direito de preferência na compra da área, mas o ativo permanece aberto ao mercado para investidores ou grandes grupos agrícolas que ofereçam os melhores ágios.
O futuro sustentável de quem decide comprar fazendas degradadas
A nova fronteira de Lewandowski ganhou corpo com o fundo AGBI III Carbon. Ao contrário dos modelos tradicionais de captação contínua, o veículo já encerrou seu período de captação e sua valorização atual decorre estritamente da transformação física e valorização das terras convertidas para lavoura. A tese evoluiu para o que o mercado chama de agricultura regenerativa, onde a recuperação dessas áreas, detalhada pelo Capital Reset (UOL), visa gerar créditos de carbono comercializáveis no mercado internacional sob a metodologia VM 0042 da certificadora Verra.
Dessa forma, a rentabilidade do investidor deixa de ser “monocultura”. Ganha-se na valorização da terra, na produção de grãos e, agora, na preservação ambiental. É a resposta definitiva para o investidor global que exige práticas ESG (Ambiental, Social e Governança) sem abrir mão de retornos agressivos. Contudo, em entrevista exclusiva concedida ao Compre Rural, Lewandowski mantém os pés no chão e alerta para os gargalos operacionais do setor: a auditoria internacional do fundo enfrenta atrasos devido a entraves do desenvolvedor do projeto, evidenciando um mercado ainda incipiente e com riscos de execução que demandam cautela. Embora o fundo já seja assediado por compradores globais com propostas que variam de USD 5 a USD 25 por tonelada de carbono, nenhuma venda foi realizada ; a gestora evita travar compromissos de longo prazo que precisem ser obrigatoriamente transferidos aos futuros compradores das fazendas ao fim do ciclo de desinvestimento
O impacto no mercado de Fiagros e a profissionalização do campo
A trajetória de Luciano Lewandowski reflete uma mudança sísmica no agronegócio brasileiro. A entrada de ex-banqueiros no setor trouxe uma governança que o campo desconhecia. Hoje, o produtor vizinho não olha mais para a AGBI apenas como “os engravatados da cidade”, mas como players que elevam o preço do hectare em toda a região. Essa evolução é nítida: quando a gestora iniciou suas atividades em 2012 , ferramentas hoje consolidadas como CRAs modernos, Fiagros, Renovagro ou o Plano Nacional de Recuperação de Pastagens Degradadas simplesmente não existiam no ecossistema nacional. O perfil do investidor também amadureceu, migrando de grupos familiares locais para investidores institucionais que enxergam a recuperação do solo como o verdadeiro “retrofit da terra”.
Ao comprar fazendas degradadas, a gestora cumpre um papel macroeconômico essencial: expandir a área plantada do Brasil sem derrubar uma única árvore de mata nativa. É o crescimento vertical, onde a produtividade nasce da inteligência aplicada à terra que outros consideravam perdida. Dados do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS) apontam um potencial de injeção de USD 141 bilhões na economia brasileira voltados à recuperação de áreas degradadas e USD 100 bilhões em agricultura regenerativa , mas Lewandowski lembra que o país ainda precisa destravar nós estruturais, como a escassez de mão de obra qualificada e as restrições legais para a compra de terras por fundos estrangeiros. Para o economista, o grande desafio para os próximos anos é consolidar de vez a ponte entre o mercado financeiro e a produção rural. Trazer o barro da botina para o piso polido da Faria Lima é o único caminho para massificar o crédito privado barato, garantir uma gestão de risco impecável e sustentar os valores monumentais que o crescimento do agro exige.
Escrito por Compre Rural
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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