O homem da ‘carne de ouro’: como Salt Bae construiu um império global de luxo e milhões

Conhecido mundialmente como Salt Bae, o empresário turco saiu de um açougue em Istambul para transformar a famosa carne de ouro em um símbolo global de luxo, criando um império baseado em redes sociais, experiências gastronômicas milionárias e restaurantes frequentados por celebridades.

Poucos personagens conseguiram unir gastronomia, entretenimento, redes sociais e construção de marca pessoal de forma tão intensa quanto Nusret Gökçe, conhecido mundialmente como Salt Bae. O empresário turco se tornou um dos rostos mais reconhecidos do universo gastronômico contemporâneo após transformar um simples movimento de finalizar carnes com sal em um dos vídeos mais virais da internet.

O que começou como uma cena aparentemente comum dentro de uma cozinha acabou se transformando em um fenômeno global capaz de atrair celebridades, atletas, empresários e turistas dispostos a pagar milhares de dólares por uma experiência que mistura gastronomia, luxo e espetáculo.

Mais do que um chef ou restaurateur, Salt Bae se tornou um caso de estudo sobre o poder da construção de imagem na era digital. Sua história também ajuda a entender como a experiência de consumo passou a valer tanto quanto — ou até mais do que — o próprio produto em determinados segmentos do mercado premium.

A trajetória de Nusret Gökçe está longe dos ambientes luxuosos que hoje cercam sua marca.

Nascido na Turquia, ele abandonou os estudos ainda muito jovem para trabalhar em açougues de Istambul. Segundo a própria rede Nusr-Et, o empresário deixou a escola ainda na infância e começou sua formação profissional aos 13 anos, passando por diferentes funções ligadas ao processamento e preparo de carnes.

Durante anos, dedicou-se quase exclusivamente ao universo da carne bovina. Em busca de aperfeiçoamento técnico, realizou viagens para países reconhecidos pela forte tradição pecuária, como Argentina e Estados Unidos, onde estudou cortes, processos de maturação e técnicas de serviço.

A obsessão em se tornar um dos melhores profissionais do setor acabou moldando a base do que viria a se transformar em uma das marcas gastronômicas mais famosas do planeta.

O famoso chef turco Salt Bae oferece em seu restaurante Nusr-Et, em Dubai, cortes de carne banhados em ouro. Foto: Mail Daily

Em janeiro de 2017, um vídeo publicado nas redes sociais mudou completamente a vida do empresário.

Nas imagens, Nusret aparece cortando um bife de maneira teatral e, ao final, executa um movimento peculiar: deixa o sal escorrer pelo antebraço dobrado até cair suavemente sobre a carne.

O gesto rapidamente viralizou.

Milhões de visualizações foram acumuladas em poucos dias e o apelido “Salt Bae” nasceu quase instantaneamente. O personagem passou a ser replicado em memes, programas de televisão, eventos esportivos e campanhas publicitárias em todo o mundo.

O sucesso digital transformou Nusret em algo raro no setor gastronômico: uma celebridade global cuja imagem se tornou mais famosa do que muitos dos próprios restaurantes.

Antes mesmo da explosão viral, Nusret já havia fundado sua primeira unidade da rede Nusr-Et, em Istambul, em 2010. Posteriormente, o grupo recebeu investimentos que aceleraram a expansão internacional da marca.

A proposta da rede nunca foi vender apenas carne.

O conceito combina:

  • cortes premium;
  • atendimento performático;
  • ambiente de luxo;
  • apresentações teatrais dos pratos;
  • forte presença do fundador nas operações.

Em muitas unidades, a experiência inclui cortes realizados na frente do cliente, música em alto volume, apresentações dos garçons e a possibilidade de ser atendido pelo próprio Salt Bae.

Na prática, a refeição se transforma em um evento.

Hoje, a rede possui operações espalhadas por países como Turquia, Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Grécia, Emirados Árabes Unidos, Catar e México.

Se existe um prato que simboliza a marca Salt Bae, ele é a chamada Gold Steak.

A receita consiste em cortes nobres revestidos com finíssimas folhas de ouro comestível 24 quilates.

Embora o ouro praticamente não altere sabor ou textura da carne, ele cria um forte impacto visual e reforça a ideia de exclusividade — elemento central da estratégia da rede.

A carne dourada se tornou um dos pratos mais fotografados das redes sociais nos últimos anos.

Celebridades, jogadores de futebol, artistas e influenciadores costumam publicar registros da experiência, ajudando a impulsionar a divulgação espontânea da marca.

Em algumas unidades, a conta pode facilmente ultrapassar milhares de dólares.

No restaurante de Midtown Manhattan, em Nova York, por exemplo, cortes especiais chegaram a ser oferecidos por cerca de US$ 2 mil, valor que supera os R$ 10 mil na conversão atual.

A ascensão de Nusret vai muito além da gastronomia.

Especialistas em marketing costumam apontar que ele compreendeu cedo uma mudança importante no comportamento do consumidor contemporâneo: as pessoas passaram a buscar experiências compartilháveis.

Em vez de vender apenas um prato, Salt Bae vende: status, entretenimento, exclusividade e presença digital.

O cliente não paga apenas pela carne.

Salt Bae com um bife tomahawk de ouro 24 quilates. Foto: Divulgação

Ele paga pela foto, pelo vídeo, pela interação com a marca e pela possibilidade de participar de uma experiência reconhecida globalmente.

Essa lógica se aproxima de estratégias adotadas por grandes marcas de luxo, onde a construção simbólica do produto muitas vezes possui peso semelhante ao próprio item comercializado.

Apesar do sucesso internacional, a trajetória do grupo também acumula controvérsias.

Ao longo dos últimos anos, a rede enfrentou críticas relacionadas aos preços elevados, qualidade percebida por alguns consumidores e questões trabalhistas. Críticos gastronômicos renomados em diferentes países também questionaram se a experiência entregue justificava os valores cobrados.

Além disso, a operação norte-americana passou por um processo de redução.

Unidades em cidades importantes como Nova York, Boston, Dallas, Las Vegas e Beverly Hills encerraram atividades nos últimos anos, enquanto a empresa redirecionou esforços para mercados internacionais.

Atualmente, permanecem abertas apenas algumas operações estratégicas nos Estados Unidos, enquanto a marca continua investindo em expansão global.

A popularidade de Salt Bae cresceu significativamente entre os brasileiros durante a Copa do Mundo do Catar, em 2022.

Jogadores da Seleção Brasileira, influenciadores e celebridades passaram pelas unidades da rede em Doha, ampliando ainda mais a visibilidade da marca no país.

Em 2023, Nusret chegou a manifestar interesse em abrir uma unidade no Brasil, movimento que gerou forte repercussão nas redes sociais e no mercado gastronômico nacional.

O projeto, porém, nunca saiu do papel.

Ainda assim, a possibilidade continua despertando curiosidade, especialmente em um país que possui uma das culturas de churrasco mais fortes do mundo e ocupa posição de destaque na produção global de carne bovina.

A história de Nusret Gökçe ajuda a explicar uma transformação importante do mercado contemporâneo: a capacidade de converter uma habilidade técnica em uma marca global baseada em imagem, narrativa e presença digital.

Salt Bae não revolucionou a produção de carne nem criou um novo corte bovino.

O que ele fez foi transformar um gesto simples em um ativo de marketing mundial.

Em um momento em que restaurantes disputam atenção em redes sociais cada vez mais competitivas, sua trajetória mostra como gastronomia, entretenimento e construção de marca passaram a caminhar lado a lado.

E talvez seja justamente por isso que, mesmo cercado por críticas e polêmicas, o empresário turco continue sendo um dos nomes mais reconhecidos do setor gastronômico internacional.

@nusr_et

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