Estudo revela que o relincho dos cavalos é muito mais complexo do que se imaginava: os animais utilizam um mecanismo vocal raro que combina sons graves e agudos simultaneamente, permitindo transmitir emoções, intensidade e sinais de comunicação entre indivíduos da espécie.
O relincho do cavalo é um dos sons mais reconhecíveis do mundo animal. Assim como o mugido das vacas, o balido das ovelhas ou o zurro dos burros, o relincho é imediatamente associado ao animal que o produz. Ainda assim, apesar de milhares de anos de convivência entre humanos e cavalos, a ciência ainda tinha dificuldades para explicar exatamente como esse som complexo era gerado.
Agora, um estudo científico recente começa a esclarecer esse enigma. Pesquisadores descobriram que os cavalos conseguem emitir dois sons diferentes ao mesmo tempo, fenômeno conhecido como bifonação, algo extremamente raro entre mamíferos.
A pesquisa, publicada na revista científica Current Biology, investigou a mecânica vocal desses animais e revelou que o relincho combina um som grave produzido pelas pregas vocais com um som agudo gerado por um tipo de assobio dentro da própria laringe.
Segundo a bióloga Elodie Floriane Mandel-Briefer, da Universidade de Copenhague, o sistema de comunicação vocal dos cavalos ainda guarda muitos mistérios.
De acordo com a pesquisadora, mesmo após cerca de 4 mil anos de coexistência entre humanos e cavalos, ainda há lacunas importantes no entendimento sobre como esses animais se comunicam.
Os cientistas já haviam observado anteriormente que o relincho possui uma característica peculiar: ele mistura uma frequência baixa — esperada para um animal de grande porte — com uma frequência extremamente alta, algo que não parecia compatível com a anatomia vocal do cavalo.
Essa combinação intrigou os pesquisadores e levou ao aprofundamento dos estudos sobre o fenômeno.
Cerca de uma década atrás, a equipe liderada por Mandel-Briefer identificou que os relinchos apresentam dois tons simultâneos, fenômeno chamado de bifonação.
O componente de baixa frequência, em torno de 200 Hz, ocorre quando o ar expelido pelos pulmões faz vibrar as pregas vocais — exatamente o mesmo mecanismo utilizado pelos humanos e pela maioria dos mamíferos para produzir sons.
Entretanto, esse mecanismo não era capaz de explicar o segundo componente, um som agudo que aparece sobreposto ao grave.
A dúvida central era: como um animal grande como o cavalo consegue produzir frequências tão altas?
Para solucionar esse enigma, os pesquisadores conduziram um estudo interdisciplinar envolvendo análise acústica, experimentos biomecânicos e testes laboratoriais. Parte dos experimentos consistiu em soprar ar através de laringes de cavalos obtidas de um fornecedor de carne equina, permitindo observar diretamente como os sons eram gerados.
No início, os cientistas conseguiam reproduzir apenas a parte grave do relincho. Após várias tentativas, no entanto, conseguiram gerar também o componente agudo.
Esse resultado revelou algo importante: ambos os sons são produzidos dentro da própria laringe dos cavalos, e não pelos lábios, como acontece no assobio humano.
Os pesquisadores identificaram então o mecanismo responsável: um assobio laríngeo, produzido pelo fluxo de ar passando por estruturas específicas da laringe.
Para confirmar a descoberta, os cientistas realizaram um experimento curioso. Eles repetiram o processo utilizando dois gases diferentes: ar comum e hélio.
O hélio possui propriedades físicas distintas e altera a frequência dos sons produzidos por assobios. Quando o gás foi utilizado, apenas o som agudo mudou de frequência, enquanto o componente grave permaneceu igual.
Esse comportamento demonstrou que:
- O som grave é gerado pela vibração das pregas vocais
- O som agudo vem de um assobio produzido na laringe
Com isso, ficou comprovado que o relincho do cavalo resulta da combinação simultânea desses dois mecanismos.
Até onde se sabe, os cavalos são os únicos animais conhecidos capazes de combinar vibração vocal e assobio laríngeo ao mesmo tempo.
A equipe de pesquisadores acredita que essa adaptação evolutiva pode ter surgido para permitir uma comunicação mais complexa entre os indivíduos da espécie.
Esse sistema vocal permite que os cavalos transmitam múltiplas informações em um único relincho, aumentando a eficiência da comunicação.
Estudos anteriores da mesma equipe, publicados em 2015, mostraram que os relinchos carregam sinais emocionais importantes.
Os pesquisadores descobriram que:
- A parte aguda do relincho indica se a emoção é positiva ou negativa
- O componente grave indica a intensidade da emoção
Ou seja, um único relincho pode revelar tanto o estado emocional quanto o nível de excitação do animal.
Além disso, os dois componentes também ajudam na comunicação à distância. O som agudo, por ser mais intenso, viaja mais longe e pode ser ouvido por outros cavalos em áreas mais distantes.
Outro ponto interessante do estudo é que nem todos os parentes dos cavalos apresentam essa característica vocal.
Os cavalos-de-Przewalski, considerados os parentes selvagens mais próximos dos cavalos domésticos, também emitem relinchos com bifonação.
No entanto, equídeos mais distantes, como zebras e burros, aparentemente não produzem o componente de alta frequência.
Isso sugere que os cavalos desenvolveram adaptações vocais únicas, capazes de ampliar significativamente seu repertório de comunicação.
Para os cientistas, compreender como os cavalos produzem e utilizam seus sons é mais do que uma curiosidade biológica.
O estudo destaca que entender o sistema de comunicação de uma espécie ajuda a revelar aspectos importantes sobre cognição, emoções e bem-estar animal.
Segundo Mandel-Briefer, investigar esses mecanismos permite compreender melhor como os cavalos percebem o ambiente, expressam sentimentos e interagem socialmente.
A descoberta também reforça a ideia de que o sistema vocal dos mamíferos possui uma capacidade de adaptação muito maior do que se imaginava, abrindo novas portas para pesquisas sobre comunicação animal.
No caso dos cavalos, um som que sempre fez parte da vida humana — o relincho — acaba de revelar uma complexidade científica surpreendente.
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