O que aconteceu com a terra em MS? Citricultura injeta R$ 2,4 bilhões na nova fronteira agrícola

Com 35 mil hectares já prospectados e meta de 50 mil até 2030, Estado atrai gigantes do setor e entra no radar do mercado de terras, com valorização acelerada e corrida silenciosa por áreas estratégicas na nova fronteira agrícola

Mato Grosso do Sul sempre esteve entre os pilares do agronegócio brasileiro, sustentado principalmente por duas forças históricas: a pecuária de corte e a produção de grãos em larga escala. Só que, nos bastidores do campo, um novo movimento vem ganhando corpo — e está mudando o perfil de investimento no Estado: a chegada da citricultura em escala industrial.

O avanço da laranja no MS não é apenas mais uma diversificação. Trata-se de um reposicionamento econômico como nova fronteira agrícola que já mobiliza capital pesado, empresas de grande porte e uma lógica típica de novas fronteiras agrícolas: quem chegou antes encontrou oportunidades melhores; quem demorou, já paga mais caro.

É nesse contexto que a citricultura surge como um divisor de águas. A atividade, que tradicionalmente tem São Paulo como principal referência no Brasil, agora começa a desenhar um novo mapa produtivo no Centro-Oeste, com metas ousadas e forte apetite por terras.

Segundo informações reunidas pelo Governo do Estado, a citricultura em Mato Grosso do Sul já movimenta investimentos estimados em R$ 2,4 bilhões, com 35 mil hectares de projetos prospectados e mais de 7 milhões de mudas implantadas. A ambição do setor é clara: atingir 50 mil hectares até 2030, consolidando uma cadeia produtiva capaz de transformar a economia regional e atrair novos empreendimentos para o interior sul-mato-grossense.

Na prática, isso significa que o MS deixou de ser apenas um Estado “forte no agro” para se tornar um território observado com lupa por quem pensa em projetos de longo prazo e com alto impacto financeiro — principalmente quando se trata de culturas perenes, como o citrus, que exigem estrutura, previsibilidade e planejamento.

A presença de grandes grupos ajuda a entender por que essa transformação vem ocorrendo com tanta velocidade. Entre as empresas e projetos que aparecem nesse movimento estão Cutrale, Cambuy, Frucamp, Agro Terena, Citrosuco, Grupo Junqueira Rodas, além de produtores independentes que enxergaram na cultura uma rota de expansão e diversificação. O recado do mercado é direto: quando esses nomes entram em uma região, dificilmente é por improviso. É porque há potencial produtivo, perspectiva de retorno e, principalmente, terra disponível para ganhar escala.

Mesmo com esse crescimento acelerado, é importante destacar que Mato Grosso do Sul ainda não ocupa o topo do ranking nacional. São Paulo segue como o grande centro da citricultura brasileira, concentrando a maior parte da produção do país. Ainda assim, a chegada da laranja ao MS representa um movimento estratégico: enquanto algumas regiões já vivem um cenário de custo elevado e disputa extrema por áreas, o Estado se posiciona como uma alternativa para expansão com espaço de entrada — e isso, no mercado rural, costuma ser o início de uma virada.

Um exemplo emblemático dessa nova fase é o avanço da Cutrale no município de Sidrolândia. A expectativa divulgada é que, quando o pomar atingir maturidade produtiva, o projeto chegue a até 8 milhões de caixas por safra. Esse tipo de número não impacta somente quem planta: ele movimenta toda a cadeia ao redor — viveiros, transporte, mão de obra, serviços agrícolas, infraestrutura e logística — criando um novo ecossistema produtivo dentro do Estado.

E por que o Mato Grosso do Sul virou alvo desse investimento?

O próprio cenário regional ajuda a explicar. O Estado tem disponibilidade de terras, condições climáticas que favorecem a expansão agrícola, logística cada vez mais integrada ao mercado nacional e, um ponto decisivo para investidores e grandes empreendimentos: segurança jurídica, elemento essencial para culturas de ciclo longo e de alto valor. Em um país onde o agro disputa espaço e previsibilidade, a confiança no ambiente de negócios pesa — e pesa muito.

Mas o impacto mais sensível dessa virada, para quem acompanha o mercado de perto, aparece em um lugar onde o produtor sente rápido: no valor da terra.

Quando uma região recebe projetos estruturados, capital intensivo e demanda crescente, a terra muda de patamar. Não apenas pelo potencial agrícola, mas porque passa a existir um novo “efeito dominó”: áreas próximas se valorizam, oportunidades somem mais rápido e a lógica do mercado se torna mais competitiva. A terra boa, com preço justo e perfil produtivo definido, deixa de ser abundância e passa a ser disputa.

O que diz a maior plataforma de mercado de imóveis rurais

É exatamente nesse ponto que entra a leitura do Chãozão sobre o mercado de imóveis rurais no Brasil — e como esse tipo de movimentação se conecta com o que está acontecendo no Mato Grosso do Sul.

Em um levantamento exclusivo produzido pelo Chãozão a pedido do Compre Rural, a plataforma descreve que o mercado de terras rurais vive uma reorganização silenciosa, mas estratégica, impulsionada por fatores como valorização dos alimentos, profissionalização do agro, busca por ativos reais e maior interesse de investidores no campo. E, dentro dessa nova fase, saber onde a terra está mais valorizada — e, principalmente, onde ela está sendo mais procurada — virou informação-chave para produtores e compradores.

Esse ponto é fundamental para entender o MS no atual cenário: a citricultura não chega sozinha. Ela vem acompanhada de movimento de capital, reposicionamento regional e aumento da atenção do investidor, o que costuma mexer diretamente com o apetite por terras.

O mesmo estudo mostra que o Chãozão, criado em 2024, ganhou escala rapidamente e se consolidou como uma vitrine nacional do setor, somando em 2025 quase R$ 500 bilhões em propriedades anunciadas, com crescimento expressivo em relação ao ano anterior.

Para organizar essa leitura de mercado, a plataforma lançou o ICVH (Índice Chãozão Valor do Hectare), criado para preencher uma lacuna histórica: a falta de parâmetros atualizados e recorrentes sobre o valor das terras no Brasil. Segundo o material, o agro é dinâmico e mudanças de preço podem ocorrer em períodos curtos, influenciadas por logística, infraestrutura, clima, demanda produtiva e movimentos de investimento.

Ou seja: quando uma cultura como a citricultura cresce em uma região, o mercado de terras tende a reagir — porque o capital começa a “olhar diferente” para aquele território.

Na prática, a citricultura em Mato Grosso do Sul representa exatamente isso: uma mudança silenciosa, que no começo passa despercebida por muitos, mas que depois se torna inevitável. O que antes parecia “terra comum” passa a ser área estratégica. O que era oportunidade vira disputa. E o preço acompanha esse novo status.

Por isso, o movimento da laranja no MS não deve ser visto apenas como expansão de uma nova fronteira agrícola. Ele marca uma virada de posicionamento econômico: o Estado passa a integrar o radar de investimentos que buscam diversificação, estabilidade produtiva e oportunidade de entrada antes que o mercado fique caro demais.

E essa talvez seja a principal mensagem por trás desse novo ciclo: a terra ainda existe, mas a terra boa, bem localizada e com preço justo, some rápido. Em momentos assim, não é só sobre plantar. É sobre entender o mapa.

Porque, no agro, quem acompanha de perto não corre atrás. Anda na frente.

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