Após mais de duas décadas fora do radar, a miíase causada pela mosca-da-bicheira – parasita carnívoro – reaparece com força na América Central, provoca prejuízos milionários à pecuária, expõe falhas sanitárias históricas e mobiliza governos, comunidades tradicionais e organismos internacionais em uma corrida contra o tempo.
Depois de mais de 20 anos sem registros relevantes, a reemergência do chamado “parasita carnívoro” voltou a causar temor entre produtores rurais da América Central, do México e a acender um sinal de alerta até nos Estados Unidos, conforme já anunciado pelo Compre Rural. A enfermidade, conhecida no Brasil como miíase ou bicheira, é provocada pela mosca-da-bicheira, cujas larvas se alimentam de tecidos vivos, abrindo feridas profundas em animais de sangue quente — incluindo bovinos, aves, animais domésticos e até humanos.
O impacto econômico já é expressivo. As perdas anuais na região chegam a cerca de US$ 263 milhões, segundo estimativas citadas por organismos internacionais, refletindo queda de produtividade, mortalidade animal, custos sanitários elevados e restrições comerciais impostas como medida preventiva.
Uma doença conhecida no Brasil, mas esquecida na América Central
No Brasil, a miíase faz parte da realidade sanitária da pecuária há décadas. O contato frequente com a doença levou os produtores brasileiros a incorporarem rotinas preventivas, como o tratamento imediato de feridas e o cuidado com o umbigo de bezerros recém-nascidos. Já na América Central, a longa ausência da enfermidade fez com que o problema caísse no esquecimento, inclusive nos currículos de formação de profissionais da área.
Esse vazio de conhecimento retardou a identificação dos primeiros focos, permitindo que o parasita se espalhasse novamente. Em muitos casos, produtores deixaram de tratar feridas, esperando uma cicatrização natural — prática que se mostrou altamente vulnerável diante do retorno da mosca.
Como ocorre a infecção da “mosca-da-bicheira” e por que ela é tão grave
O ciclo da mosca-da-bicheira é rápido e altamente eficiente. A fêmea deposita seus ovos em feridas abertas ou pequenas lesões na pele. Entre 12 e 24 horas depois, as larvas eclodem e passam a se alimentar do tecido vivo. Após cinco a sete dias, caem no solo para formar pupas e, em até 20 dias, novas moscas adultas emergem, reiniciando o ciclo.
As consequências vão além das lesões visíveis. As feridas produzem odor intenso de putrefação, provocam dor extrema, reduzem a alimentação dos animais e derrubam o desempenho produtivo. Em casos mais graves, a infecção abre caminho para bactérias e fungos, podendo evoluir para septicemia, toxemia, choque infeccioso e morte.
Zoonose e risco à saúde humana
O problema ultrapassa a fronteira da sanidade animal. A miíase é uma zoonose, capaz de afetar seres humanos. Um dos episódios mais graves relatados ocorreu em Honduras, onde um bebê morreu após as larvas entrarem pelo cordão umbilical, evidenciando a gravidade da doença quando não há vigilância sanitária adequada.
Esse fator elevou o nível de preocupação dos órgãos de saúde pública, exigindo ações integradas entre ministérios da Agricultura e da Saúde nos países afetados pelo parasita carnívoro.
Conscientização envolve xamãs, parteiras e línguas indígenas
Diante do avanço da doença, o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) passou a atuar diretamente no apoio aos governos da região. O trabalho vai além das decisões técnicas e alcança comunidades rurais e tradicionais, onde muitas vezes o acesso à informação sanitária é limitado.
Na Guatemala e em regiões de Belize, por exemplo, campanhas educativas são realizadas em espanhol e em quatro línguas maias, respeitando a diversidade cultural local. O esforço inclui o diálogo com líderes comunitários, xamãs, prefeitos e até parteiras, especialmente porque muitos casos de infecção ocorrem em bezerros recém-nascidos, a partir do umbigo mal tratado.
A estratégia busca reconstruir hábitos sanitários básicos, como a cura imediata de feridas e a adoção de produtos larvicidas, repelentes e cicatrizantes — itens que, até pouco tempo atrás, sequer estavam disponíveis em casas agropecuárias de alguns países.
Impactos comerciais e preocupação dos EUA
A reemergência do parasita também gerou efeitos diretos no comércio internacional. Os Estados Unidos suspenderam a importação de gado vivo do México, temendo a entrada da mosca em seu território. A decisão provocou um efeito cascata, afetando a movimentação de animais de outros países da América Central que utilizavam o México como rota comercial.
Como um dos maiores produtores mundiais de carne bovina, os EUA acompanham de perto a situação, reforçando a vigilância sanitária nas fronteiras e pressionando por ações rápidas de controle na região.
Parasita carnívoro: Erradicação é possível, mas levará tempo
Apesar da gravidade do cenário, especialistas avaliam que a erradicação da doença é possível, embora demorada e complexa. O trabalho envolve desde ações em nível ministerial até a conscientização direta de pequenos produtores e comunidades tradicionais.
A experiência brasileira mostra que conviver com o parasita carnívoro exige vigilância constante, manejo sanitário rigoroso e acesso a produtos adequados. A lição deixada pelo ressurgimento da miíase na América Central é clara: quando a prevenção é esquecida, o risco volta — e com força.
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