Pecuária brasileira perde um de seus principais baluartes

Agropecuária brasileira perde um dos grandes selecionadores da história do Nelore, um homem a frente do seu tempo; Udelson Nunes Franco era um dos maiores selecionadores de Nelore Mocho do Brasil

A Pecuária brasileira lamenta profundamente o falecimento do selecionador Udelson Nunes Franco, ocorrido nesta sexta-feira (9), aos 89 anos. Conhecido por sua forte atuação na seleção das raças Nelore e Nelore Mocho, através da marca Nelore Angico, com propriedades em Minas Gerais e no Pará, Udelson atuou como conselheiro da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) em diversas gestões e era associado à entidade desde 1971.

A trajetória de Udelson Nunes Franco se confunde com a própria história da expansão e consolidação do Zebu no Brasil, especialmente do Nelore Mocho. Reconhecido por seu perfil técnico, visão de longo prazo e profundo compromisso com a seleção genética, o pecuarista construiu, ao longo de mais de seis décadas, um legado que ultrapassou os limites de suas propriedades e influenciou diretamente a pecuária nacional.

Com raízes em Minas Gerais, Udelson foi um dos grandes responsáveis por levar genética de qualidade para novas fronteiras pecuárias, com destaque para o sul do Pará. Em uma época marcada por desafios logísticos, sanitários e estruturais, sua atuação foi decisiva para a formação de rebanhos adaptados, produtivos e alinhados às exigências do mercado.

“Conheço o Sr. Udelson desde os anos 1980, quando o encontrei em uma reunião da União Democrática Ruralista (UDR), durante a Exposição de Goiânia. Desde então, acompanhei sua trajetória como um dos fundadores desse movimento e pioneiro na região de Redenção, no Pará. Tive a honra de assessorá-lo geneticamente no criatório de Nelore Mocho, cuja seleção Angico se destacou em campeonatos e influenciou diversos rebanhos”, ressalta o presidente da ABCZ, Arnaldo Manuel de Souza Machado Borges.

“Seu plantel é um dos pilares da raça, com genética presente em animais de destaque. Também foi uma liderança atuante na ABCZ, sendo homenageado com o Mérito ABCZ em 2014. Udelson sempre foi um exemplo de dedicação à pecuária, à família e à sucessão no agronegócio”, completa.

Esse protagonismo fica evidente em um depoimento concedido pelo próprio Udelson Nunes Franco, ainda em vida, em 2020, no qual ele relembra a origem e a evolução do trabalho desenvolvido na Fazenda Angico.

“Somos criadores de Nelore há muito tempo. Meu pai passou o plantel dele, iniciado em 1953, para mim. Em 1967, eu recebi esse plantel. E nós fizemos uma seleção, sempre pelejamos para melhorar a robustez e o volume do nosso Nelore. Estivemos no Estado do Pará a partir do ano de 1977, e lá ajudamos a expandir a raça Nelore por todo o sul do Pará, vendendo reprodutores bem selecionados, bem acabados e de boa conformação” – relatou o selecionador.

No mesmo relato, Udelson destacou o cuidado histórico com o Nelore Mocho, raça à qual dedicou especial atenção ao longo de sua carreira e que se tornaria uma das marcas registradas da seleção Angico. “E nós nunca descuidamos da base do nosso Nelore Mocho. Eu agradeço muito ao Sr. Ovídio Carlos de Brito, falecido em 2023, que foi o maior incentivador do Nelore Mocho no Brasil. O Sr. Ovídio é um dos grandes responsáveis pelo crescimento e melhoramento da variação Mocha. E nós ainda nos lembramos bem do touro campeão que ele tinha, o Dingo OB. Este reprodutor ajudou muito a melhorar o Nelore Mocho no Brasil” – destacou o criador à época.

Udelson Nunes Franco - Nelore Mocho
Udelson Nunes Franco / Foto: Fazenda Angico

Com visão técnica apurada, Udelson sempre defendeu o uso estratégico do Nelore de chifre como ferramenta de aprimoramento genético dentro do Mocho, reforçando características produtivas sem abrir mão da funcionalidade. “Hoje nós trabalhamos procurando o Nelore de Chifre no nosso Nelore Mocho, porque o Nelore Mocho é top para mochar. Pode pôr touro de chifre e sai 80% no mínimo de mocho em seus filhos em vacas mochas.”

Nos últimos anos, embora mantivesse um expressivo plantel de Nelore padrão, o criador intensificou ainda mais sua dedicação ao Mocho, levando animais de destaque para as principais vitrines da raça no país. “Nós temos um plantel maior de Nelore padrão, mas dedicamos mais ultimamente ao nosso Nelore Mocho, como nós fizemos esse ano na Expoinel de 2020. Fomos muito bem e mostramos a qualidade e o volume do nosso Nelore Mocho.”

No ano passado, essa rica e notável trajetória foi eternizada no livro “De Minas para o Mundo”, lançado em julho, em Campina Verde (MG). A obra, escrita pela jornalista Célia Rocha, resgata a história de um dos selecionadores mais atuantes na valorização do Zebu no Brasil, reunindo relatos, imagens e marcos que ajudaram a moldar gerações de criadores.

Udelson deixa a esposa, Edma Angico, com quem foi casado por 62 anos. Seu filho, Adelino Junqueira Franco Neto, segue os passos do pai e é atualmente conselheiro da ABCZ pelo estado do Pará, dando continuidade à presença da família Franco nas decisões estratégicas da entidade.

Diversas lideranças do setor também se manifestaram diante da perda. Entre elas, o presidente da ACNB (Associação dos Criadores de Nelore do Brasil), Victor Miranda, que destacou a relevância histórica do trabalho desenvolvido por Udelson:

“Udelson sempre foi um apaixonado pela pecuária e, em especial, pelo Nelore. A Angico tem uma história fantástica de seis décadas, construída especialmente graças ao seu trabalho incansável. Todos os que tiveram o prazer de conviver com ele reconhecem sua paixão e contribuição para a contínua evolução da nossa raça. Nossos profundos sentimentos à família Franco.”

Na mesma linha, o criador Paulo Leonel, do Nelore ADIR, ressaltou o impacto duradouro do legado deixado pelo pecuarista. “Udelson deixa um legado de mais de seis décadas dedicadas à pecuária brasileira, com contribuição marcante para o desenvolvimento do Nelore Mocho. Foi um criador incansável, apaixonado pela raça e referência pelo trabalho sério, ético e visionário que ajudou a fortalecer a pecuária nacional. Neste momento de dor, nos solidarizamos com os familiares, amigos e todos que tiveram o privilégio de conviver com ele. Que Deus conforte os corações da família e dos amigos e que seu legado permaneça vivo no campo e na história da raça Nelore.”

O assessor pecuário João Carlos Júnior também manifestou pesar pela morte de Udelson, a quem definiu como um verdadeiro mestre e referência pessoal e profissional. Em seu depoimento, destacou Udelson como exemplo de homem, de família e de produtor rural, ressaltando sua paixão pelo Nelore e pelo Nelore Mocho, além do papel decisivo que exerceu em sua formação e carreira. João Carlos lembrou ainda a amizade construída ao longo dos anos e a importância simbólica da comemoração dos 70 anos da marca UF, durante a Expozebu 2023, classificando o leilão como um marco em sua trajetória. Por fim, afirmou que o legado de Udelson será preservado com respeito e admiração, e prestou solidariedade aos familiares e amigos neste momento de dor.

Quando se afirma que alguém é um baluarte do Zebu brasileiro, o termo se aplica àqueles que se tornam referências na defesa, na sustentação e no desenvolvimento contínuo da raça. São criadores e lideranças que, ao longo de décadas, contribuíram de forma decisiva para a preservação, o aprimoramento genético e a valorização do Zebu no país, consolidando-se como pilares técnicos e institucionais da pecuária nacional.

Dentro desse contexto, Udelson Nunes Franco se insere de forma inequívoca entre os grandes baluartes da zebuinocultura brasileira. Sua trajetória, construída ao longo de mais de seis décadas, foi marcada pela dedicação permanente à seleção e à difusão do Nelore e, de maneira especial, do Nelore Mocho, sempre pautada por visão técnica, responsabilidade e compromisso com o futuro do setor. Sua atuação ultrapassou os limites da porteira, influenciando rebanhos, formando gerações de criadores e fortalecendo entidades representativas.

A morte de Udelson Nunes Franco representa uma perda irreparável para a pecuária brasileira. Seu trabalho foi determinante para consolidar o Nelore Mocho como uma alternativa genética estratégica, funcional e altamente produtiva, especialmente em sistemas extensivos. Hoje, a raça ocupa papel fundamental na pecuária nacional, reunindo rusticidade, adaptabilidade, facilidade de manejo e ganhos econômicos ao produtor — atributos amplamente difundidos e aprimorados graças à visão e ao empenho de criadores como ele.

Seu legado permanece vivo nos rebanhos, nas pistas, nos registros históricos e, sobretudo, na construção da pecuária brasileira moderna.

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