Período das águas: como ajustar o manejo para evitar perdas no cocho

Com a chegada das chuvas, o manejo da suplementação se torna o ponto mais crítico da fazenda. Ignorar o cocho agora significa jogar dinheiro fora e perder desempenho do rebanho. Veja como ajustar a operação.

O período das águas é, para o pecuarista, a “safra” do boi a pasto. O capim verdeja, a oferta de forragem explode e o potencial de ganho de peso do rebanho atinge seu pico. No entanto, essa mesma bênção climática traz um desafio diário que pode custar caro: a gestão dos cochos de suplementação.

A chuva, se não for gerenciada corretamente, transforma o investimento em nutrição em prejuízo. Produto empedrado, mofado, fermentado ou literalmente lavado pela enxurrada são perdas diretas que comprometem a rentabilidade da operação. Siga a leitura e acompanhe o Compre Rural, aqui você encontra informação de qualidade para fortalecer o campo!

O Custo Real da Água no Cocho: Mais do que Apenas Sal Molhado

Quando o suplemento (seja sal mineral, proteinado ou energético) entra em contato com a água da chuva, uma cascata de problemas se inicia. O pecuarista não perde apenas o produto; ele perde desempenho.

Perda Física (Lixiviação): A chuva “lava” o suplemento. Os componentes mais finos e leves, que muitas vezes são os mais caros (como aditivos, vitaminas e minerais-traço), são os primeiros a serem levados pela enxurrada.

Empedramento e Redução de Consumo: A umidade faz com que o produto forme blocos duros (empedre). O gado, que consome o suplemento por lambedura, simplesmente não consegue ingerir a quantidade necessária. A palatabilidade despenca.

Fermentação e Mofo: Em produtos com farelo (proteinados e energéticos), a umidade é o gatilho para a fermentação e o surgimento de mofo. Além de causar refugo pelo animal, isso pode gerar micotoxinas, trazendo riscos sanitários ao rebanho.

O Falso “Consumo”: Muitas vezes, o gerente da fazenda anota que o cocho “esvaziou”, mas o produto não foi para a boca do boi; foi levado pela chuva. O controle de consumo, essencial para medir a eficiência, fica totalmente comprometido.

Segundo zootecnistas e especialistas em nutrição animal, a perda de suplemento no cocho durante as águas pode facilmente ultrapassar 20% se nenhum manejo for aplicado. Em um cenário de altos custos de insumos, isso é inaceitável.

Período das águas: como ajustar o manejo para evitar perdas no cocho
Foto Divulgação.

Estratégia de Guerra: Os Três Pilares do Manejo de Cocho nas Águas

Para evitar as perdas, a operação deve se concentrar em três frentes: Infraestrutura, Manejo de Rotina e Tecnologia de Produto.

Infraestrutura: O Cocho que Trabalha a seu Favor

A melhor forma de evitar que o suplemento molhe é, logicamente, impedir que a chuva chegue até ele.

Cochos Cobertos: Este é o investimento com o retorno mais rápido. Embora represente um custo inicial, a economia com suplemento perdido paga a estrutura rapidamente. Em trabalhos de campo, a Embrapa já destacou que a infraestrutura de cochos e bebedouros é um pilar da produtividade e deve ser priorizada para evitar perdas e garantir o acesso dos animais.

Dimensionamento Correto: O cocho precisa ter o “beiral” do telhado largo o suficiente para evitar que a chuva “de lado” (chuva de vento) molhe o interior.

Furos de Drenagem: Mesmo em cochos cobertos, a umidade e o vento podem molhar o produto. Cochos com furos de drenagem no fundo são essenciais para escoar qualquer água que se acumule, evitando o “efeito piscina”.

Localização Estratégica: Posicione os cochos em locais de fácil acesso para o trator, mas principalmente em terrenos mais altos e bem drenados (áreas de “balanço”). Evite baixadas que possam alagar.

Manejo de Rotina: A Chave é Frequência, Não Volume

Se a fazenda não possui 100% de cochos cobertos, o manejo diário é o que define o sucesso ou o fracasso. O lema deve ser: “Menos produto, mais vezes”.

Aqui, a disciplina da equipe de campo é fundamental. A recomendação de grandes empresas de nutrição é clara:

“Para os proteico-energéticos e o semiconfinamento, a reposição deve ser diária. Já o mineral deve ser abastecido no cocho sempre que necessário, no mínimo de 2 a 3 vezes por semana.” — Rosendo Lopes, Gerente Técnico da DSM, em entrevista ao Noticiário Tortuga.

Esse manejo fracionado exige um novo protocolo do vaqueiro ou tratador:

  • Inspeção: Chegar ao cocho e verificar o estado do produto.
  • Remoção: Retirar todo o produto que estiver úmido, empedrado ou mofado. Jamais coloque produto novo por cima do velho/molhado.
  • Limpeza: Raspar o fundo do cocho para remover crostas antigas.
  • Reposição: Colocar apenas a quantidade estimada para o consumo de 24 ou 48 horas.

Tecnologia de Produto: Os Suplementos “das Águas”

A indústria de nutrição animal tem investido pesado em soluções para mitigar esse problema. Os chamados “suplementos das águas” não são à prova d’água, mas são muito mais resistentes.

Eles geralmente contêm:

  • Anti-umectantes: Aditivos que reduzem a capacidade do produto de absorver água do ar (higroscopia).
  • Palatabilizantes Resistentes: Compostos que mantêm o atrativo para o animal, mesmo após um leve sereno ou garoa.
  • Textura Específica: Formulações que dificultam o empedramento.

É crucial entender, no entanto, que essa tecnologia é uma ajuda, não uma solução mágica. Ela não substitui um bom manejo de cocho ou a necessidade de cobertura, mas dá uma sobrevida maior ao produto no cocho, especialmente em dias de alta umidade ou garoas finas.

Proteger o Cocho é Proteger o Desempenho

A estação das águas é a grande oportunidade do pecuarista de maximizar o ganho de peso a pasto. O capim de qualidade fornece o volume, mas é a suplementação que “dá o acabamento fino” e permite ao animal expressar todo o seu potencial genético.

Como especialistas do setor, a exemplo de Mário Garcia, diretor executivo da Exagro, frequentemente apontam em suas análises, interromper a oferta de suplemento ou permitir perdas no cocho quebra a curva de desempenho do animal.

Ignorar o manejo do cocho na chuva é o equivalente a plantar a melhor semente e deixar a colheita apodrecer no campo. O ajuste da rotina, o investimento em infraestrutura e o uso de tecnologia são os pilares que garantem que o dinheiro investido em nutrição se transforme, de fato, em mais arrobas na balança.

Escrito por Compre Rural

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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