Relatório do Radar Verde revela que 96% das indústrias de carne avaliadas têm nível crítico de controle socioambiental, expondo o abismo regulatório e os gargalos de rastreabilidade no bioma
O setor pecuário nacional acaba de receber um diagnóstico contundente sobre seu impacto ambiental. Uma pesquisa inédita aponta falhas de frigoríficos no combate ao desmatamento no Cerrado, evidenciando que a quase totalidade das indústrias de carne atuantes na região negligencia o controle sobre a procedência de seus produtos.
O panorama foi revelado pelo indicador independente Radar Verde, em relatório obtido originalmente pelo jornal Valor, e expõe a fragilidade da governança socioambiental em um dos biomas mais ricos e ameaçados do país.
Avaliação do Radar Verde sobre a atuação de frigoríficos no combate ao desmatamento no Cerrado
Em sua primeira edição dedicada exclusivamente a este ecossistema, o levantamento mapeou detalhadamente 225 plantas de abate. Desse total, 96% (o equivalente a 216 empresas) receberam a pior nota possível, sendo classificadas com um grau “muito baixo” de engajamento socioambiental.
As nove corporações restantes não foram muito além, figurando no patamar “baixo”. Nenhuma das marcas avaliadas conseguiu alcançar níveis considerados intermediários ou elevados de proteção à vegetação nativa, o que consolida um cenário de desconexão entre as metas corporativas globais e a realidade prática do campo.
As razões por trás da vulnerabilidade do bioma
Historicamente focado na Amazônia Legal, o Radar Verde agora escancara o abismo regulatório que protege o Cerrado. Conforme explica o pesquisador e engenheiro ambiental Amintas Brandão Jr., a Amazônia conta com mecanismos consolidados de contenção, como reservas indígenas e unidades de conservação regulamentadas. No Cerrado, a realidade fundiária é distinta e a legislação é consideravelmente mais permissiva.
O Código Florestal exige a preservação de até 80% das propriedades na floresta tropical, enquanto no Cerrado o proprietário rural tem o direito legal de converter entre 65% e 80% de sua área para pastagem ou agricultura. Somado a isso, o bioma sofre com uma menor vigilância por parte do mercado internacional, que costuma concentrar suas exigências de sustentabilidade nas florestas densas.
O atraso regulatório de 15 anos e o desafio dos frigoríficos no combate ao desmatamento no Cerrado
Outra lacuna crucial é a falta de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs da Carne) firmados junto ao Ministério Público Federal para a região do Cerrado. Esse instrumento jurídico foi o grande motor que forçou a cadeia produtiva da Amazônia a monitorar seus fornecedores a partir de 2009.
“No Cerrado, estamos 15 anos defasados. Ainda estamos falando de assinar os acordos com as empresas. E isso aconteceu na Amazônia lá em 2009. Temos um longo caminho pela frente”, pontua Brandão Jr.
O estudo destaca ainda que o rastreamento de fornecedores indiretos — fazendas intermediárias que criam ou recriam o gado antes do destino final de abate — continua sendo o principal calcanhar de Aquiles da sustentabilidade no agronegócio.
O posicionamento das grandes marcas do setor
Apesar do cenário geral crítico, o topo do ranking do Radar Verde foi ocupado pelas gigantes Marfrig, Masterboi, Minerva e JBS, nesta ordem de pontuação. As empresas se manifestaram a respeito dos dados:
- Marfrig: Declarou possuir uma política socioambiental madura e pioneira. A companhia assegura que monitora 100% de seus fornecedores diretos e indiretos de grãos e gado no Cerrado e em outros biomas, apoiada em sistemas de rastreabilidade e no cumprimento de protocolos do setor.
- Minerva Foods: Ressaltou que fiscaliza a totalidade de seus fornecedores diretos na América do Sul. No território brasileiro, a empresa informou ter atingido a meta de monitorar 100% dos indiretos de nível 1 na Amazônia Legal e no estado do Maranhão, utilizando soluções tecnológicas como o software Prospec para garantir a conformidade da cadeia.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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