Pesquisador troca academia pela floresta para criar gado sem derrubar árvores; conheça

Conheça a história de Luís Fonseca, que deixou a USP para criar gado sem derrubar árvores na Amazônia, reduzindo em 40% as emissões de carbono.

Abandonar a estabilidade de uma cátedra na Universidade de São Paulo (USP) e o prestígio de uma carreira internacional consolidada parece, para muitos, uma decisão impensável. No entanto, para o veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca, o abismo entre a teoria acadêmica e a realidade da motosserra na Amazônia tornou-se insustentável. Em uma “guinada radical” realizada em 2002, ele deixou os laboratórios da capital paulista rumo a Alta Floresta (MT) com uma missão clara: provar que é viável criar gado sem derrubar árvores, aliando lucro à conservação ambiental.

Aos 35 anos, levando a esposa e um filho de apenas seis meses, Fonseca instalou-se na linha de frente do desmatamento. Hoje, aos 58 anos e detentor de um pós-doutorado pela University of Kentucky (EUA), ele colhe os frutos dessa aposta. Através da holding Caaporã, fundada em 2019, o pesquisador administra 20 mil hectares distribuídos entre Mato Grosso, Tocantins e Bahia, gerindo um modelo de negócios que desafia a pecuária extensiva tradicional.

“Minha leitura era de que precisaríamos desenvolver negócios associados à conservação florestal. Se não conseguíssemos gerar bons negócios que valorizassem a floresta em pé, seria difícil reduzir drasticamente o desmatamento”, analisa Fonseca, rememorando o início de sua jornada.

Da castanha à tecnologia para criar gado sem derrubar árvores

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Uma das fazendas de Fonseca antes e durante o trabalho de recuperação Foto: Divulgação

O primeiro passo de Fonseca na região não foi com o gado, mas com a floresta nativa. Durante seis anos, ele mergulhou na extração de castanha-do-pará com a empresa Ouro Verde, trabalhando junto a comunidades indígenas Rikbaktsa. Embora o projeto tenha obtido êxito local, o veterinário percebeu que, para frear o desmatamento, era necessário atacar o “elefante na sala”: a pecuária.

Foi então que surgiu a estratégia da Caaporã. O método desenvolvido por Fonseca para criar gado sem derrubar árvores baseia-se na recuperação de pastagens degradadas — áreas desmatadas há décadas que perderam fertilidade e onde o capim, pobre em nutrientes, faz o gado demorar até quatro anos para atingir o peso de abate.

O protocolo técnico da Caaporã envolve três pilares:

  1. Consórcio de Flora: O pasto é misturado com leguminosas, especificamente o amendoim forrageiro, e árvores (exóticas como o eucalipto ou nativas como o paricá).
  2. Química Natural: As leguminosas realizam a fixação biológica de nitrogênio no solo, reduzindo drasticamente a dependência de fertilizantes químicos nitrogenados, como a ureia (cuja importação, majoritariamente da Rússia, gera dependência geopolítica e emissões industriais).
  3. Bem-estar Animal: A sombra das árvores mitiga o estresse térmico do gado no calor tropical. Sem o sol escaldante, o metabolismo animal foca no ganho de peso, não na regulação de temperatura.

A matemática das emissões: menos tempo, menos metano

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Foto: Arquivo pessoal

A eficiência produtiva deste sistema tem um impacto ambiental direto. Com solo fértil e conforto térmico, o gado atinge o peso de abate em dois anos — metade do tempo da média nacional. Essa redução no ciclo de vida é a chave para a sustentabilidade.

“Se você tem um boi que engorda com quatro anos, ele fica quatro anos literalmente arrotando metano”, explica Fonseca. O processo de fermentação entérica (digestão do boi) é a principal fonte de emissão de metano (CH4) na pecuária.

Dados comparativos de impacto:

  • Modelo Tradicional: Emite cerca de 35 kg de CO2 por quilo de carcaça produzida.
  • Modelo Caaporã: Emite cerca de 20 kg de CO2 por quilo de carcaça — uma redução superior a 40%.

O cenário macroeconômico reforça a urgência dessa solução. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), o agronegócio foi responsável por 75,6% das emissões de metano do Brasil em 2023, sendo a pecuária a vilã de 98% desse montante. Além disso, dados do MapBiomas mostram que a área de pastagem na Amazônia cresceu 363% entre 1985 e 2023, ocupando hoje 59 milhões de hectares.

Obstáculos financeiros para criar gado sem derrubar árvores

Apesar da lógica científica irrefutável, escalar o projeto de criar gado sem derrubar árvores esbarra em barreiras culturais e financeiras. O modelo intensivo exige gestão técnica apurada e alto investimento inicial para recuperar o solo, diferentemente da pecuária extensiva, onde o gado é solto em grandes áreas com baixo custo e baixa produtividade (0,73 animal por hectare na Amazônia).

“O produtor fala: ‘Eu sei fazer? Sei. Dinheiro eu tenho? Tenho. Mas não quero fazer'”, relata Fonseca sobre a resistência cultural do setor.

Para fechar a conta e atrair o produtor, a aposta está na diversificação de receitas:

  • Venda de Carne Premium: A Minerva Foods, gigante do setor, já adquire parte da produção da Caaporã, alinhando-se às metas globais de sustentabilidade. Marta Giannichi, diretora global da Minerva, reforça que o modelo é “economicamente viável e replicável”.
  • Mercado de Carbono: A holding desenvolve uma metodologia própria junto à Verra, maior certificadora global, para vender créditos de carbono gerados pela recuperação da floresta e do solo.
Pesquisador troca academia pela floresta para criar gado sem derrubar árvores; conheça
Foto: Divulgação

O futuro da proteína e o papel do consumidor

A visão de especialistas como André Pereira de Carvalho (FGV) e Silvia Ferraz (FIA Business School) converge com a de Fonseca: a pecuária não deixará de existir, mas precisa evoluir. A OCDE e a FAO projetam um aumento de 10% no consumo mundial de carne bovina até 2033. Para Fonseca, apostar apenas em carne de laboratório é utópico no curto prazo; a solução imediata é reformar o sistema atual.

A transparência, contudo, continua sendo o calcanhar de aquiles do setor. O aplicativo Do Pasto ao Prato revela que 40% do rebanho brasileiro está na Amazônia e 76% dessa carne fica no mercado interno. O dado alarmante é que apenas 54% da carne amazônica vendida no Brasil possui rastreabilidade adequada de sustentabilidade.

Ao liberar áreas de pastagem improdutivas através da intensificação, o Brasil poderia cumprir sua meta do Acordo de Paris de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa. O trabalho de Fonseca prova que a tecnologia para criar gado sem derrubar árvores já existe; o desafio agora é transformá-la em política de estado e padrão de mercado.

Escrito por Compre Rural com informações da www.bbc.com.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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