Em poucas décadas, o Peru se tornou gigante mundial das frutas ao reinventar sua paisagem desértica com tecnologia, irrigação e investimentos massivo — enquanto cresce a tensão sobre o uso da água e o futuro desse modelo.
As vastas planícies desérticas peruanas da região de Ica, eram vistas, até o final do século passado, como um território improvável para a agricultura. Formado por areia, vento e aridez extrema, o litoral peruano parecia destinado ao vazio produtivo. Contudo, em menos de trinta anos, esse mesmo cenário se transformou em um dos principais polos agroexportadores do mundo, abastecendo mercados de alto valor da América do Norte, Europa e Ásia com frutas como mirtilos, uvas, mangas e abacates. Peru se tornou gigante mundial das frutas e qual a razão disso?
A transformação não se limita a Ica. Toda a extensa faixa de deserto costeiro — comprimida entre o Pacífico e os Andes — converteu-se em um corredor agrícola de alto desempenho. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Irrigação do Peru, as exportações agrícolas cresceram, entre 2010 e 2024, a uma média anual de 11%, alcançando o recorde histórico de US$ 9,185 bilhões em 2024. Nesse período, o Peru tornou-se o maior exportador mundial de uvas e mirtilos, duas culturas que praticamente inexistiam no país até os anos 2000.
A ascensão peruana está ligada à sua capacidade de produzir em grande escala justamente nos períodos em que o hemisfério norte enfrenta limitações climáticas. Isso garante ao país uma posição estratégica nas janelas de maior demanda global, consolidando-o como potência agroexportadora e como fornecedor-chave para os Estados Unidos, China e Europa.
A base desse processo começou na década de 1990, quando o governo peruano implementou uma série de reformas econômicas destinadas a reanimar um país fragilizado por uma crise profunda e hiperinflação histórica. As mudanças incluíram redução de barreiras tarifárias, estímulo ao investimento estrangeiro e desburocratização dos processos produtivos. Inicialmente focadas na mineração, essas políticas abriram espaço para uma elite empresarial que, ao final da década, identificou o enorme potencial da agricultura voltada à exportação.
Ainda assim, nenhuma legislação resolveria sozinha o principal desafio: a limitação natural do próprio território. A agricultura em grande escala enfrentava obstáculos estruturais — solos amazônicos de baixa fertilidade, geografia acidentada na serra andina e a escassez de água no deserto costeiro. Para superar essas barreiras, grandes produtores passaram a investir em tecnologias até então pouco exploradas no país, como irrigação por gotejamento, sistemas de distribuição hídrica de precisão e projetos de transposição de água.

Informações técnicas apontam que o investimento privado — especialmente de grandes agricultores menos avessos ao risco — permitiu um salto tecnológico inédito no país. Esses avanços viabilizaram cultivos em uma região onde, historicamente, acreditava-se ser impossível desenvolver agricultura intensiva. Especialistas descrevem o clima da costa peruana como uma espécie de “estufa natural”, com luminosidade constante, poucas chuvas e variações moderadas de temperatura, condições ideais para frutas de alto valor agregado.
Além dos sistemas de irrigação, houve um avanço genético decisivo: o desenvolvimento de variedades adaptadas ao clima local, como as novas cultivares de mirtilo, que permitiram ao Peru disputar mercados antes dominados por potências tradicionais.
Com esses fatores combinados, estima-se que a área cultivável do deserto peruano tenha aumentado cerca de 30%, incorporando terras antes consideradas improdutivas.
Um novo motor da economia nacional
Regiões como Ica e Piura se converteram, então, em centros dinâmicos da agroindústria. Informações de mercado mostram que as exportações agrícolas passaram a representar 4,6% do PIB peruano em 2024, contra apenas 1,3% em 2020 — uma evolução notável em tão pouco tempo.

Dados econômicos indicam que esse boom trouxe aumento da formalização do trabalho, crescimento da renda média e maior qualificação profissional nas áreas impactadas. No entanto, os ganhos não são uniformes. Pequenos agricultores enfrentam dificuldades crescentes para competir com as grandes empresas, especialmente pela elevação dos salários na região e pela limitada disponibilidade de água, essencial para as plantações.
Com a mudança no cenário produtivo, muitos pequenos proprietários optaram por vender suas terras para grandes grupos, alterando profundamente a estrutura social e fundiária do litoral peruano. Apesar disso, as famílias locais ainda encontram benefícios indiretos, principalmente através da inserção de membros no mercado de trabalho da agroindústria.
A crise hídrica que ameaça o império verde
Se a agricultura transformou o deserto, também desencadeou tensões que hoje se intensificam — em especial, a disputa pela água. A região de Ica, uma das mais áridas do país, praticamente não recebe chuvas. A dependência do aquífero subterrâneo é total, tanto para moradores quanto para grandes fazendas.
Informações compiladas por organizações locais mostram que muitos assentamentos humanos dependem de caminhões-pipa para garantir água potável, enquanto grandes empresas dispõem de poços profundos, reservatórios e sistemas avançados de irrigação. A percepção crescente entre a população é de desequilíbrio no acesso a um recurso cada vez mais escasso.

Dados históricos revelam que, em 2011, a Autoridade Nacional de Água (ANA) já havia identificado um risco iminente de superexploração do aquífero, determinando monitoramentos mais rigorosos. No entanto, produtores locais relatam que o nível da água vem caindo há anos. Em áreas rurais, o que antes era alcançado a cinco metros de profundidade agora exige escavações de até cem metros — um custo inviável para pequenos agricultores.
Também há denúncias frequentes de que inspeções da ANA são dificultadas por grandes propriedades, que alegam restrições de acesso por se tratar de áreas privadas. Como resultado, o controle sobre novos poços é limitado, apesar de sua proibição formal.
O debate sobre sustentabilidade se intensifica quando se considera que muitas das frutas produzidas para exportação, como as uvas destinadas ao pisco peruano, dependem de grandes volumes de água. Especialistas alertam que, ao exportar frutas e derivados, o país está, na prática, exportando água — um recurso escasso e vital para sua população.
Um império em risco
Cada vez mais, estudiosos e organizações apontam que o modelo atual não é sustentável a longo prazo. As análises convergem na necessidade urgente de equilibrar a produção agrícola com a proteção dos ecossistemas e o abastecimento humano.
Informações de campo indicam que, sem uma gestão hídrica eficaz, o próprio motor econômico de Ica — e de todo o litoral agroexportador peruano — pode entrar em colapso. As discussões se intensificam a cada ciclo eleitoral, mas soluções concretas ainda não chegaram.
A perspectiva é clara: o Peru criou um dos mais impressionantes impérios agrícolas do mundo, transformando um deserto em plataforma global de exportação. Mas o sucesso traz consigo um desafio monumental. Se não houver uma política robusta para a gestão da água, esse modelo, por mais inovador e lucrativo que seja, pode se tornar inviável.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.