Novo mapa europeu revela avanço acelerado da espécie, com quase 20 milhões de animais no continente; Portugal já se aproxima de 400 mil javalis e enfrenta áreas de densidade extrema
O crescimento da população de javalis na Europa deixou de ser um fenômeno localizado e passou a ser tratado como um problema estrutural de saúde animal, impacto econômico e gestão ambiental. Dados consolidados pelo primeiro mapa europeu de alta resolução sobre densidade populacional de javalis selvagens indicam que, antes do último grande surto de peste suína africana (PSA), o número total desses animais no continente oscilava entre 13,5 milhões e 19,6 milhões de exemplares, um patamar considerado historicamente elevado .
O levantamento, coordenado pelo consórcio europeu ENETWILD em parceria com o Observatório Europeu da Fauna Selvagem (EOW), representa um marco na zoologia e na gestão da vida selvagem, ao oferecer dados comparáveis entre países, algo que até então não existia de forma padronizada.
Portugal se aproxima de 400 mil javalis
Dentro desse cenário continental, Portugal chama atenção pela rápida expansão da espécie. As estimativas mais recentes apontam que o país abriga entre 395.600 e 398.800 javalis, com maior concentração no interior centro do território continental, região onde a pressão sobre áreas agrícolas e florestais tem sido mais intensa .
Os dados mostram uma tendência de crescimento contínuo, sustentada também pelos registros da atividade cinegética. Mesmo com o aumento expressivo da caça, o número de animais abatidos por ano não tem sido suficiente para conter a expansão populacional. Na Europa como um todo, os abates passaram de cerca de 2,2 milhões de javalis por ano em 2010 para quase 4 milhões nos anos mais recentes, em uma estimativa considerada conservadora pelos especialistas .
Península Ibérica concentra áreas de densidade extrema
O novo mapa europeu identifica a Península Ibérica como uma das regiões mais críticas, com várias áreas classificadas como de “densidade populacional extrema”. Um dos principais focos de preocupação é o chamado corredor mediterrânico, que se estende do sul da França, atravessa a Catalunha e alcança o sudeste da Espanha .
Nesse eixo geográfico, ocorre uma combinação considerada perigosa pelos pesquisadores:
alta densidade de javalis, grandes explorações suinícolas e infraestruturas logísticas intensas, o que amplia significativamente o risco de transmissão de doenças entre animais silvestres e rebanhos domésticos.
Risco sanitário: peste suína africana no centro do debate
O avanço descontrolado da população de javalis é apontado como um dos principais vetores de disseminação da peste suína africana (PSA) na Europa. A doença, altamente contagiosa e sem vacina eficaz, representa ameaça direta à suinocultura, com potencial de provocar prejuízos bilionários, restrições ao comércio internacional e impactos severos nas economias rurais .
Segundo os autores do estudo, conhecer a densidade real da população permite avaliar com mais precisão como o vírus se mantém e se propaga no ambiente natural, tornando-se uma ferramenta estratégica para políticas sanitárias e de contenção da doença .
Mapa de alta resolução muda a forma de gestão da espécie
Uma das principais inovações do projeto europeu foi o uso de uma malha de 2×2 quilômetros, capaz de identificar com precisão as zonas de maior concentração de javalis. Até então, cada país utilizava metodologias próprias, o que dificultava comparações e decisões conjuntas .
O modelo desenvolvido foi aprovado pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e já é considerado um divisor de águas na gestão de grandes mamíferos na Europa. Em países como a Espanha, os dados do mapa foram combinados com câmaras fotográficas de monitoramento e estatísticas de caça para avaliar se a pressão cinegética é suficiente para conter o crescimento populacional .
Um desafio que não respeita fronteiras
Classificado como o segundo ungulado mais disseminado da Europa, atrás apenas do corço, o javali demonstra grande capacidade de adaptação, ocupando desde florestas e zonas agrícolas até regiões de altitude com invernos rigorosos .
Para os especialistas, o estudo deixa claro que o problema ultrapassa fronteiras nacionais e exige cooperação científica, troca de dados e políticas coordenadas. Sem isso, o crescimento acelerado da espécie continuará a pressionar a agricultura, a pecuária, a segurança sanitária e a economia rural em diferentes regiões do continente.
O novo mapa europeu, portanto, não apenas revela a dimensão do problema, mas também estabelece as bases para decisões mais eficazes, baseadas em ciência, monitoramento contínuo e ações integradas em escala continental.
Javalis pelo mundo: Alerta e paralelo com o Brasil
O avanço descontrolado da população de javalis na Europa serve como alerta direto para o Brasil, onde o animal é classificado como espécie exótica invasora e já provoca impactos significativos. Em território brasileiro, o javali causa prejuízos milionários à agropecuária, com destruição de lavouras de milho, soja, cana-de-açúcar e pastagens, além de ataques a cordeiros, bezerros recém-nascidos e aves. O risco sanitário também é elevado: o animal é vetor potencial de doenças como febre aftosa, brucelose, tuberculose bovina e, sobretudo, a peste suína africana, considerada a maior ameaça à suinocultura nacional.
Assim como ocorre na Europa, a alta capacidade reprodutiva, a adaptação a diferentes biomas e a ausência de predadores naturais favorecem a expansão acelerada da espécie no Brasil, pressionando produtores rurais, órgãos ambientais e autoridades sanitárias, e reforçando a necessidade de controle rigoroso, monitoramento permanente e políticas públicas integradas antes que o país enfrente um cenário semelhante ao europeu, marcado por densidade extrema e perda de controle populacional.
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