Prática comum na avicultura de postura envolve principalmente pintos machos e reacende discussão sobre bem-estar animal, tecnologia e futuro da produção de ovos; Veja por que milhões de pintos recém-nascidos são abatidos nas granjas
Em galpões climatizados, automatizados e altamente tecnificados, milhões de pintos nascem todos os dias para abastecer a cadeia global de ovos e carne de frango. O que pouca gente vê é que, poucos minutos após a eclosão, parte desses animais é separada e abatida ainda no incubatório. A prática, rotineira em sistemas de postura comercial, tornou-se alvo de questionamentos éticos e de pressão por mudanças tecnológicas. Mas, por que milhões de pintos recém-nascidos são abatidos nas granjas? Descubra a verdade!
O chamado abate de pintos recém-nascidos ocorre principalmente nas granjas voltadas à produção de ovos. Nesses sistemas, machos e fêmeas têm destinos completamente diferentes, definidos por critérios produtivos consolidados ao longo de décadas. A prática está diretamente ligada ao modelo atual da avicultura intensiva e envolve questões econômicas, sanitárias e de bem-estar animal.
Por que milhões de pintos recém-nascidos são abatidos nas granjas?
A explicação central está na especialização genética das aves. As linhagens modernas de galinhas poedeiras foram desenvolvidas para transformar ração em ovos com alta eficiência e baixo peso corporal. Isso significa que:
- As fêmeas são altamente produtivas na postura.
- Os machos dessas mesmas linhagens não produzem ovos.
- Além disso, não apresentam ganho de peso competitivo para o mercado de carne.
Dados citados por pesquisadores da área indicam que um frango de corte pode ultrapassar 2,5 kg em poucas semanas. Já o macho de linhagem de postura cresce mais lentamente, consome ração por mais tempo e apresenta rendimento de carcaça inferior.
Do ponto de vista econômico, ele se torna inviável dentro do modelo produtivo dominante.
Por isso, após a etapa de sexagem — identificação do sexo do pinto com base em características físicas ou genéticas — apenas as fêmeas seguem para recria e posterior produção de ovos. Os machos, sem função comercial definida, são descartados logo após o nascimento .
A lógica econômica por trás do abate
O termo “abate de pintos recém-nascidos” refere-se principalmente ao descarte em massa de machos de linhagens de postura. A justificativa apresentada pelo setor produtivo está baseada em custos.
Criar esses animais até a idade de abate exigiria:
- Espaço em galpões
- Ração
- Medicamentos
- Mão de obra
- Infraestrutura adicional
Como não há mercado consolidado para a carne desses machos, o valor de venda não compensaria o investimento realizado.
Relatórios técnicos apontam que o custo de produção do frango de corte foi desenhado para linhagens específicas, otimizadas para ganho rápido de peso. O macho de postura converte alimento em carne com menor eficiência, chega ao abate mais tarde e com menor rendimento.
Diante desse cenário, o descarte logo após o nascimento é considerado, por muitos produtores, a alternativa que reduz perdas financeiras .
Pintos recém-nascidos são abatidos nas granjas: Quais métodos são utilizados?
Os métodos variam conforme a legislação de cada país e os protocolos de bem-estar animal adotados. Entre os procedimentos descritos em manuais técnicos e citados na reportagem estão:
- Maceração mecânica: uso de equipamentos com lâminas ou rolos que provocam morte instantânea quando corretamente ajustados;
- Gaseificação: exposição a concentrações controladas de gases, como dióxido de carbono, levando à perda de consciência e morte;
- Métodos físicos manuais, como deslocamento cervical, ainda encontrados em estruturas menores, exigindo treinamento técnico adequado .
Entidades de bem-estar animal reconhecem que esses métodos podem ser considerados humanitários dentro de protocolos específicos, mas questionam o volume envolvido e o próprio conceito de descarte em massa.
Impactos éticos e pressão do consumidor
Nos últimos anos, a prática ganhou visibilidade após a divulgação de imagens de incubatórios e a atuação de organizações de proteção animal. O debate gira em torno do que especialistas chamam de “contradição produtiva”: o sistema gera animais saudáveis que são descartados por não terem função econômica.
Esse cenário tem provocado:
- Pressão de consumidores por maior transparência;
- Exigências de redes varejistas por mudanças na cadeia;
- Discussões regulatórias em diferentes países.
Algumas nações europeias já anunciaram cronogramas para eliminar o descarte de pintos machos, incentivando tecnologias alternativas .
Sexagem in ovo: a principal alternativa tecnológica
Uma das soluções mais promissoras é a sexagem in ovo, tecnologia que identifica o sexo do embrião ainda dentro do ovo, antes da eclosão.
Empresas de biotecnologia utilizam:
- Análise por laser
- Espectroscopia
- Marcadores genéticos
Com isso, ovos contendo embriões machos podem ser redirecionados para outros usos industriais ou para produção de ração, evitando o nascimento do pinto .
Em alguns mercados europeus, uma parcela crescente dos ovos comercializados já provém de sistemas com sexagem in ovo, identificados por selos específicos nas embalagens.
Embora o debate ético não seja completamente encerrado, especialistas apontam que a tecnologia reduz o sofrimento ao impedir o desenvolvimento completo do animal.
Linhagens de dupla finalidade: é viável?
Outra alternativa em estudo é o uso de linhagens de dupla finalidade, nas quais:
- Fêmeas são utilizadas para produção de ovos;
- Machos são criados para carne, ainda que com menor rendimento.
Historicamente, as galinhas eram mais versáteis. A hiperespecialização moderna — separando linhagens de corte e postura — elevou a eficiência produtiva, mas gerou o problema do descarte dos machos.
Projetos-piloto indicam que a dupla finalidade pode ser viável em nichos de mercado, como sistemas orgânicos ou com maior valor agregado. No entanto, em larga escala, o modelo enfrenta desafios como:
- Maior custo por quilo de carne;
- Menor produtividade de ovos comparada às linhagens especializadas .
O futuro da avicultura diante do debate
Especialistas apontam que a superação do abate sistemático de pintos recém-nascidos depende de múltiplos fatores:
- Investimento em pesquisa e inovação, tornando a sexagem in ovo mais acessível;
- Transparência na comunicação com o consumidor;
- Incentivos econômicos e políticas públicas que estimulem modelos alternativos;
- Atualização regulatória;
- Capacitação técnica de profissionais do setor .
O tema expõe um dos dilemas centrais da pecuária moderna: como equilibrar eficiência produtiva, custo dos alimentos e responsabilidade ética.
Enquanto a demanda global por proteína animal continua crescendo, aumenta também a cobrança social por práticas mais transparentes e alinhadas ao bem-estar animal. O desafio do setor avícola será adaptar seus sistemas sem comprometer a sustentabilidade econômica das granjas.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.