Descubra por que o custo do leite é menor no Uruguai. Especialista do INIA revela o segredo: manejo de pastagens, planejamento forrageiro e a eficiência da produção de leite no Uruguai
O preço final do leite no Uruguai, consistentemente mais competitivo que o brasileiro, levanta questionamentos cruciais sobre a eficiência e o modelo de produção adotado. A diferença, segundo especialistas, está intrinsecamente ligada à forma como os vizinhos gerenciam seu recurso mais abundante: as pastagens. A principal lição para o agronegócio nacional reside justamente no foco e na velocidade de aplicação do conhecimento técnico, elementos centrais na Produção de Leite no Uruguai.
As reflexões e dados técnicos apresentados nesta matéria foram extraídos de um vídeo recente no YouTube, no qual o pesquisador Jean, um brasileiro natural de Santa Maria (RS) que atua desde 2018 no Instituto Nacional de Investigação Agropecuária (INIA) do Uruguai, compartilha insights sobre as práticas que impulsionam o setor leiteiro no país vizinho. Seu trabalho no INIA foca em manejo de pastagens, abrangendo desde campo nativo até variedades cultivadas.
A Vantagem Estratégica na Transmissão de Conhecimento e Tecnologia
Um dos fatores mais notáveis, conforme detalhado no vídeo, é a facilidade e velocidade com que o conhecimento técnico atinge o produtor uruguaio. Por ser um país de dimensões geográficas menores, a disseminação da tecnologia se torna mais eficiente.
“O conhecimento chega mais fácil para os produtores”, explica Jean.
Diferentemente do que ocorre em grandes países, o INIA no Uruguai consegue promover muitos dias de campo, sendo que os produtores acompanham de perto e implementam rapidamente a tecnologia gerada localmente. Além disso, há uma forte assimilação de práticas de referência internacional, principalmente de países com grande tradição pastoril, como Nova Zelândia e Austrália.
O Uruguai, um país majoritariamente pastoril, com sua maior parte coberta por pastagens nativas, cultiva um perfil de produtor altamente interessado. O produtor uruguaio busca ativamente novas variedades e estratégias de manejo para otimizar sua propriedade, um fator que explica os resultados mais sólidos obtidos nas pastagens.
O Pilar do Custo-Benefício: Otimizando a Pastagem na Produção de Leite no Uruguai
A busca por conhecimento se traduz em um domínio aprofundado sobre o uso de espécies forrageiras. O especialista destaca o amplo uso de diferentes variedades de azevém (ciclo curto ou longo), pastagens perenes como festuca e dactiles, além de misturas com alfafa e trevo branco, especialmente na pecuária leiteira.
Apesar de toda essa tecnologia e interesse, existe um ponto em comum que liga as realidades do Uruguai e do Rio Grande do Sul: a dificuldade na utilização eficiente da forragem. Segundo o pesquisador do INIA, os produtores sabem implantar o pasto e conhecem as variedades, mas o desafio persiste em “como utilizar essa forragem, como colher com eficiência”.
Planejamento Forrageiro: A Chave para a Continuidade e o Menor Custo
O caminho para reduzir o custo do leite passa, inegavelmente, pela pastagem. O sistema a pasto é comprovadamente mais barato do que uma dieta que depende majoritariamente de suplementos, silagem, feno ou concentrado.
A primeira e mais importante dica para o produtor rural é pensar no negócio e, principalmente, no planejamento forrageiro.
- Planejamento para o Ano Todo: É fundamental ter um plano bem feito para garantir pasto durante os 12 meses do ano, eliminando o “vazio” de 30 dias sem forragem, comum no Rio Grande do Sul.
- Atenção ao Manejo: Um bom planejamento, se não for seguido de um bom manejo, falha. Sem pasto suficiente, a dieta da vaca migra para a suplementação, elevando os custos de forma drástica.
O manejo ideal busca oferecer ao animal uma pastagem com a melhor estrutura, aquela em que o animal consiga comer de boca cheia e atingir sua saciedade rapidamente, otimizando o consumo por unidade de tempo, garantindo os momentos de ruminação e descanso.
Manejo de Pastagens: A Diferença Entre 6 e 10 Toneladas
Um ponto crucial no manejo é a intensidade de pastejo, que deve ser moderada. O pesquisador alerta contra o erro de “rapar” o pasto (pastejo excessivamente baixo). A regra é deixar sempre folha: ao sair do potreiro, o animal deve ter deixado cerca de 20% a 30% de áreas intocadas na pastagem.
Essa sobra de folha garante um retorno muito mais rápido ao potreiro. Em vez de 30 dias, o rebrote pode levar apenas 10 ou 12 dias. Em culturas como o sorgo, estudos recentes do INIA indicam que o tempo de retorno, com manejo adequado, pode ser de apenas 5 dias.
A perda gerada pelo pastejo inadequado é o que o professor Paulo chama de “perda invisível”. Forçar os animais a comer todo o pasto (raspar) reduz drasticamente a produção total. Em números concretos, o pesquisador exemplifica:
“A gente consegue produzir 10 toneladas de Azevem num bom manejo, e eu produzo 6 toneladas nesse outro manejo [ruim]. São 4 toneladas a menos que a gente não vê”.
A chave é colher apenas a parte superior, permitindo que a grande quantidade de folha que sobra ajude a impulsionar o crescimento, garantindo 15 pastejos em 130-140 dias (azevém/aveia) e até 40 pastejos (Tifton) em um ano, mantendo sempre a estrutura ideal para o máximo consumo da vaca leiteira.
Escrito por Compre Rural
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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