Por que quem mais trabalha no campo é quem menos ganha? Entenda

Enquanto a agricultura familiar garante 70% dos alimentos básicos na mesa dos brasileiros, entraves logísticos, falta de armazenamento e a ação de intermediários sufocam a rentabilidade de quem sustenta o abastecimento nacional

A segurança alimentar do Brasil repousa historicamente sobre os ombros da agricultura familiar. De acordo com o último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os pequenos estabelecimentos representam cerca de 77% das propriedades rurais do país e empregam mais de 67% da mão de obra residente no meio rural.

Paradoxalmente, essa imensa força de trabalho que sustenta o abastecimento interno enfrenta uma severa e crônica assimetria econômica: por que quem mais trabalha no campo é justamente quem retém a menor parcela de lucro na cadeia de valor do agronegócio? A resposta para esse enigma socioeconômico envolve falhas estruturais de mercado, escassez de infraestrutura de armazenamento e um severo estrangulamento logístico.

A assimetria de mercado que pune quem mais trabalha no campo

Embora o pequeno produtor rural responda por fatias expressivas da produção de culturas essenciais — como a mandioca (80%), o feijão (42%) e o leite (34%) —, a distribuição da receita gerada ao longo da cadeia produtiva é altamente desigual. Estudos conduzidos pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP) apontam que, na cadeia de hortifrúti, o produtor frequentemente retém apenas entre 15% e 25% do valor final pago pelo consumidor na gôndola do supermercado.

O restante da margem financeira é absorvido pelos setores de transporte, atacado e grande varejo. Essa disparidade ocorre porque o pequeno agricultor atua em um mercado de concorrência perfeita na base — onde muitos produtores oferecem produtos similares —, mas vende para canais de distribuição altamente concentrados (oligopsonizados), o que anula o seu poder de barganha na fixação de preços. Dessa forma, a riqueza gerada pela terra é transferida para as pontas finais da cadeia, empobrecendo quem mais trabalha no campo.

O gargalo invisível do armazenamento e das perdas pós-colheita

Outro fator determinante para o sufocamento financeiro da pequena produção é a crônica falta de infraestrutura de armazenamento nas propriedades de menor porte. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revelam que o Brasil possui um déficit histórico de armazenagem que supera os 100 milhões de toneladas, afetando majoritariamente os pequenos produtores.

Sem capacidade instalada de estocagem (como silos térmicos ou câmaras frias para perecíveis), o agricultor familiar torna-se refém do tempo. Ele é obrigado a comercializar toda a sua produção imediatamente após a colheita, justamente no momento em que a oferta no mercado está no pico e os preços estão nos patamares mais baixos. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que a falta de acondicionamento adequado e logística ineficiente provocam o desperdício de até 30% dos alimentos antes mesmo de chegarem às feiras e mercados, um prejuízo financeiro absorvido quase integralmente por quem produz.

A armadilha dos intermediários e o papel do cooperativismo

A ausência de frotas logísticas próprias ou de associações de transporte integradas força o pequeno produtor a recorrer à figura do “atravessador”. Esse intermediário comercial, que possui o caminhão e o acesso aos grandes centros de distribuição (como as Ceasas), dita o preço de compra na porteira. Em cenários de isolamento logístico, a dependência do atravessador faz com que o custo do frete e o risco do transporte sejam integralmente descontados do valor pago ao agricultor.

Para romper esse ciclo, analistas de economia rural do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) defendem a expansão do cooperativismo de comercialização e o fortalecimento de políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Quando os agricultores se unem em cooperativas, eles ganham escala para comprar insumos mais baratos (como fertilizantes e sementes), adquirem capacidade de armazenagem conjunta e passam a negociar diretamente com redes de supermercados e indústrias. É o fortalecimento da governança local que garante que o valor do suor do campo permaneça nas mãos de quem de fato cultiva a terra.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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