Com reposição já nos picos nominais de 2021 e arroba batendo recorde histórico em fevereiro, mercado projeta novas máximas no preço do bezerro — mas alerta para o risco de margens apertadas no ciclo de alta
O mercado de reposição voltou ao centro das atenções da pecuária brasileira. Depois de um período de ajuste e acomodação pós-2021, o preço do bezerro retomou força, alcançando novamente os picos nominais históricos e reacendendo uma pergunta que domina as rodas de conversa nas fazendas e nos grupos de mercado: o bezerro pode chegar a R$ 30 por quilo?
A movimentação recente não é pontual. Trata-se de um movimento consistente, amparado por fundamentos do ciclo pecuário e confirmado pelos indicadores oficiais. Dados do Cepea mostram que a arroba do bezerro em Mato Grosso do Sul registrou novo recorde nominal em fevereiro de 2026, superando a máxima anterior de abril de 2021.
Na parcial de fevereiro de 2026 (até o dia 25), o preço médio alcançou R$ 463,4 por arroba, acima do recorde anterior de R$ 458,3 registrado em abril de 2021. Além disso, o valor ficou 24,5% superior ao observado em fevereiro de 2025, consolidando o segundo ano consecutivo de valorização no mês .
Esse cenário reforça a percepção de que o ciclo virou — e virou para cima.
Nominal versus real: ainda há espaço para preço do bezerro avançar?
Apesar do retorno aos picos nominais, a análise precisa ir além do número bruto. Conforme avaliação da consultora Lygia Pimentel, CEO da Agrifatto, o valor atual de aproximadamente R$ 20/kg, semelhante ao observado em 2021, ainda não recompôs totalmente a inflação acumulada no período.
Em termos reais, descontada a inflação, o bezerro precisaria subir entre 13% e 14% adicionais para atingir o mesmo patamar de poder de compra do pico anterior. Ou seja, sob essa ótica, ainda haveria espaço técnico para novas altas.
Se o ciclo positivo se desenvolver plenamente — como ocorreu em movimentos anteriores — a projeção de mercado indica que o bezerro poderia buscar níveis próximos de R$ 30/kg entre 2027 e 2028, em um cenário de continuidade da restrição de oferta e firmeza do boi gordo .
Mas essa possibilidade não vem sem ressalvas, alertam os especialistas!
Recordes históricos reforçam a pressão da reposição
O próprio levantamento divulgado pelo Farmnews detalha que o preço do bezerro não apenas superou o recorde mensal anterior (preço da arroba do animal), como também atingiu o maior valor já observado para meses de fevereiro na série histórica .
Os gráficos apresentados no estudo (páginas 3 e 4 do relatório) mostram a evolução diária desde 2024 e evidenciam que 2026 opera consistentemente acima dos níveis de 2024 e 2025 .
Esse avanço reforça dois pontos centrais:
- Oferta enxuta de animais jovens, reflexo do abate elevado de matrizes no ciclo anterior;
- Boi gordo em processo de firmeza, com escalas mais curtas em várias praças.
O resultado é uma relação de troca pressionada. O ágio pago na reposição volta a crescer e exige atenção redobrada do invernista e do confinador.
Bezerro: O risco da crista da onda
Se por um lado existe potencial de alta, por outro o maior perigo está na margem da atividade.
Comprar reposição cara durante a fase ascendente do ciclo exige planejamento. O risco clássico é adquirir o bezerro na “crista da onda” e vender o boi gordo depois que o mercado já perdeu força.
A própria análise do mercado reforça que R$ 30/kg não significa automaticamente lucro elevado . Tudo dependerá:
- do custo de produção;
- da eficiência de ganho de peso;
- do custo da dieta;
- da taxa de juros;
- e, principalmente, do preço futuro do boi gordo.
Em ciclos de alta, a euforia costuma preceder a compressão de margem. É justamente quando o preço sobe que o erro estratégico custa mais caro.
Relação de troca e estratégia: o que observar agora?
Com a arroba do bezerro em torno de R$ 470,00 nas máximas recentes , o pecuarista precisa acompanhar três variáveis-chave:
1. Relação de troca boi gordo x reposição
Quanto de arroba de boi gordo é necessário para pagar um bezerro? Essa conta define a viabilidade da recria e engorda.
2. Escala de abate dos frigoríficos
Escalas curtas indicam sustentação; alongamento pode sinalizar acomodação.
3. Custo da nutrição e do crédito
Alta da reposição combinada com insumos caros compromete a margem futura.
O momento é favorável, mas exige leitura técnica. O ciclo pecuário historicamente premia quem entra antes da euforia e pune quem compra na fase final do movimento.
Pode chegar a R$ 30/kg?
Tecnicamente, sim — o mercado tem fundamentos que permitem essa possibilidade, especialmente considerando que o valor atual ainda não recompôs totalmente o pico real de 2021 .
Mas a pergunta mais importante talvez não seja “se pode chegar”, e sim:
A que custo e para quem?
Se o avanço ocorrer de forma gradual e acompanhado por valorização proporcional do boi gordo, o ciclo poderá gerar margens positivas. Caso contrário, o movimento pode apenas transferir risco para quem compra reposição sem travas ou planejamento.
O bezerro já provou que voltou ao protagonismo do mercado. Agora, o desafio não é apenas acertar o topo — mas garantir que a estratégia permita atravessar o ciclo com margem e previsibilidade.
No atual cenário, mais do que olhar apenas para o preço, o pecuarista precisa olhar para o resultado.
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